Rivaldo, Mogi, Uzbequistão, Carnaval
http://www1.folha.uol.com.br/folha/colunas/regra10/ult3255u509906.shtml
EDUARDO VIEIRA DA COSTA
Editor de Esporte da Folha Online
Oficialmente, o Carnaval acabou. E o Carnaval do Uzbequistão nem sequer começou. Mas o meia-atacante Rivaldo, lá de longe, entre um jogo e outro do Bunyodkor, canta: "Você pagou com traição a quem sempre lhe deu a mão".
O samba, que ficou famoso na voz de Beth Carvalho, expressa bem a revolta do jogador com os jogadores do Mogi Mirim, clube do qual é presidente à distância.
No desabafo que fez contra a suposta má vontade dos atletas, Rivaldo usou a si próprio como exemplo. Vindo de Pernambuco, o jogador foi destaque do Carrossel Caipira de Mogi em 1992 e 1993.
O time montado pelo então promissor técnico Oswaldo Alvarez, o Vadão, jogava, dizia-se na época, como o Carrossel Holandês, a seleção da Holanda da Copa de 1974, também conhecida como Laranja Mecânica.
Nele, os jogadores não tinham posição fixa. Na versão caipira, o principal jogador era o Válber, uma espécie de Cruijff do interior.
Mas estava reservado a outro jogador, um tanto desengonçado, o destino de ser o que Válber jamais conseguiu e que nem mesmo o próprio Cruijff alcançou.
Rivaldo partiu num pacote de contratações para o Corinthians, ao lado do próprio Válber e do atacante Leto e do lateral Admílson.
A partir daí, deste quarteto, apenas Rivaldo brilhou. Progressivamente. Foi bem no Corinthians, melhor ainda no Palmeiras e atingiu seu auge na Europa, principalmente por La Coruña e Barcelona. Foi o melhor jogador do mundo em 1999 e ajudou (e muito) a seleção a conquistar o penta em 2002.
Pausa na história. Voltemos a Mogi Mirim.
O time atual, apesar de ter em seu elenco o veterano meia Giovanni, que chegou a ser parceiro de Rivaldo em campo no Barcelona, nem de longe lembra os tempos em que girava tanto que deixava os rivais, inclusive os grandes, tontos.
Nos dez primeiros jogos do Paulistão, o MM acumulou sete derrotas, dois empates e apenas uma vitória. Para completar, teve a defesa mais vazada: 19 gols.
Indignado, Rivaldo esbraveja. Colocou até o cargo à disposição para quem quiser assumir. Ele tem razão. Vai jogar mal assim lá no Uzbequistão.
Mas não adianta. Não há nenhum "Rivaldo" neste time do Mogi. E não há nem mesmo um "Leto" ou um "Admilson", que seja. E até o Giovanni que está lá já não é um "Giovanni".
Não há carrossel nem diversão. Há samba. Mas um samba triste, destes de fim de Carnaval.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
Carnaval, o que fazer?
Todo ano é a mesma conversa. Quem serão os vencedores dos desfiles de Carnaval de São Paulo e no Rio de Janeiro? Qual será a música mais tocada no Carnaval de Salvador? E, Recife, o que nos alegrará desta vez? Ligamos as tevês e os canais só nos mostram a folia, a desnudez, os recordes de beijo, as multidões se amontoando pelas avenidas deste país. Mas e aí, esquecemos da violência, da crise, do dinheiro que faz falta no bolso, todo ano é a mesma conversa.
E o pior ainda é falarem que o ano começa depois do Carnaval. Isso que eu não aceito, além de ficarmos cinco dias na folia, o ano no Brasil só pode começar no final do mês de fevereiro, como foi em 2009. Se formos falar de futebol, os campeonatos estaduais já começaram em janeiro. Se formos falar da vida política, o Lula e a Dilma não apararam de fazer campanha no verão e já até tivemos eleições para as Casas Legislativas Federais. Se pularmos as fronteiras do país, o Obama assumiu, mas a crise somente se agravou. O pior ainda é falarem que o ano começa depois do Carnaval.
É claro, o Brasil foi criado durante toda a adolescência histórica com tamanhos festejos pré-quaresma. Trata-se de costume de nossa sociedade que fomenta a cultura brasileira pelo mundo, divulga nossas belezas naturais e traz turistas para o país que desejam farra e diversão. Não quero ser chato, mas não sou fã do país ficar parado, é claro.
Até enxergo certa beleza em tudo isso, mas o brasileiro é obrigado a gostar de Carnaval. Se eu não gosto, viro vilão. Vilão daqueles que vão para a praia, que caiem na gandaia, que se amassam em Salvador, daqueles que gastam todo o salário em cinco dias. Tudo isso é Carnaval, mas nem enxergo certa beleza em tudo isso.
Tudo é carnaval no Carnaval. É nossa História, nossa cultura, mas não quero ser radical nem chato. Cadê o desenvolvimento? Cadê a crise? Cadê? Cadê? Cadê? Tudo é Carnaval no carnaval.
Eu vejo algumas vantagens. Uma delas. São Paulo vazia. São Paulo poderia viver vazia como no Carnaval. Todo mundo viajou para a praia, levando o trânsito para lá. Ficaram os cinemas, parques, restaurantes, a ruas, o sol. Nossa cidade é bonita e atraente, mais atraente e bonita do que o Carnaval. E somente a conhecem aqueles que vivem o Carnaval por aqui. Seria bom trabalhar sem o caos populacional paulistano, mas mesmo assim eu vejo algumas vantagens como poder jogar futebol de madrugada.
Mas todo ano é a mesma coisa, infelizmente. Agora, vamos trabalhar e recuperar os dois meses perdidos. O ano começou. Aliás, nosso ano tem 10 meses. A cidade já está cheia de carros novamente. Todo ano é a mesma coisa. O ano começa depois do Carnaval.
Todo ano é a mesma conversa. Quem serão os vencedores dos desfiles de Carnaval de São Paulo e no Rio de Janeiro? Qual será a música mais tocada no Carnaval de Salvador? E, Recife, o que nos alegrará desta vez? Ligamos as tevês e os canais só nos mostram a folia, a desnudez, os recordes de beijo, as multidões se amontoando pelas avenidas deste país. Mas e aí, esquecemos da violência, da crise, do dinheiro que faz falta no bolso, todo ano é a mesma conversa.
E o pior ainda é falarem que o ano começa depois do Carnaval. Isso que eu não aceito, além de ficarmos cinco dias na folia, o ano no Brasil só pode começar no final do mês de fevereiro, como foi em 2009. Se formos falar de futebol, os campeonatos estaduais já começaram em janeiro. Se formos falar da vida política, o Lula e a Dilma não apararam de fazer campanha no verão e já até tivemos eleições para as Casas Legislativas Federais. Se pularmos as fronteiras do país, o Obama assumiu, mas a crise somente se agravou. O pior ainda é falarem que o ano começa depois do Carnaval.
É claro, o Brasil foi criado durante toda a adolescência histórica com tamanhos festejos pré-quaresma. Trata-se de costume de nossa sociedade que fomenta a cultura brasileira pelo mundo, divulga nossas belezas naturais e traz turistas para o país que desejam farra e diversão. Não quero ser chato, mas não sou fã do país ficar parado, é claro.
Até enxergo certa beleza em tudo isso, mas o brasileiro é obrigado a gostar de Carnaval. Se eu não gosto, viro vilão. Vilão daqueles que vão para a praia, que caiem na gandaia, que se amassam em Salvador, daqueles que gastam todo o salário em cinco dias. Tudo isso é Carnaval, mas nem enxergo certa beleza em tudo isso.
Tudo é carnaval no Carnaval. É nossa História, nossa cultura, mas não quero ser radical nem chato. Cadê o desenvolvimento? Cadê a crise? Cadê? Cadê? Cadê? Tudo é Carnaval no carnaval.
Eu vejo algumas vantagens. Uma delas. São Paulo vazia. São Paulo poderia viver vazia como no Carnaval. Todo mundo viajou para a praia, levando o trânsito para lá. Ficaram os cinemas, parques, restaurantes, a ruas, o sol. Nossa cidade é bonita e atraente, mais atraente e bonita do que o Carnaval. E somente a conhecem aqueles que vivem o Carnaval por aqui. Seria bom trabalhar sem o caos populacional paulistano, mas mesmo assim eu vejo algumas vantagens como poder jogar futebol de madrugada.
Mas todo ano é a mesma coisa, infelizmente. Agora, vamos trabalhar e recuperar os dois meses perdidos. O ano começou. Aliás, nosso ano tem 10 meses. A cidade já está cheia de carros novamente. Todo ano é a mesma coisa. O ano começa depois do Carnaval.
terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
Os bandidos estão vencendo
Da FOLHA DE SÃO PAULO
Por PAULO VINICIUS COELHO (PVC)
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Sobre a violência nos estádios, os únicos especialistas que seguem na ativa são os torcedores uniformizados
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A ÚNICA medida prática após a guerra entre a polícia e a torcida do Corinthians, domingo passado, foi a indicação do promotor Arnaldo Hossepian Júnior para apurar o que houve no Morumbi. O promotor é o mesmo do caso do buraco da estação Pinheiros do Metrô.
Dois anos depois de a cratera se abrir na marginal, 13 pessoas foram indiciadas e nenhuma foi presa.
No dia 15 de fevereiro de 2007, os torcedores Alessandro Almeida Borges Pereira e Edmílson José da Silva foram condenados a 14 anos de prisão pelo assassinato de Marcos Gabriel Cardoso Soares, na estação Barra Funda do Metrô. O homicídio aconteceu em 2004, num dia de Palmeiras x Corinthians. Por incrível que pareça, tem havido prisões em casos ligados às torcidas uniformizadas. Mas, muito pior do que a impunidade, é a sensação de que ninguém é punido, e essa sensação segue intacta na sociedade.
Nas uniformizadas, nem tanto.
Uma das cenas mais impressionantes do domingo passado foi o canto “a violência voltou”. Não nos avisaram se algum dia ela foi embora, mas, pelo visto, os uniformizados tiveram essa impressão. Opinião respeitável dos únicos que nunca abandonaram as arquibancadas.
Eis o ponto: você deixa de ir ao estádio. Eles não. Em novembro, o promotor Paulo Castilho reuniu-se com o presidente Lula para discutir um pacote de novas leis específicas para a violência no futebol. Há 20 anos, todo mundo sabe que a legislação específica é a única medida concreta para diminuir a violência e a sensação de impunidade. O pacote nunca saiu do papel, porque a Justiça brasileira prefere seguir seu eterno debate: punir ou educar. Enquanto isso, gente morre nas ruas. A caminho do estádio ou não.
Em São Paulo, quem hoje cuida da violência nos estádios entrou no assunto há pouco tempo. Seja o promotor Paulo Castilho, seja Arnaldo Hossepian ou o coronel Hervando Velozo, da PM. O maior especialista paulista na guerra das torcidas é o coronel Marcos Marinho. Sua função atual? Diretor de árbitros!
Quer dizer que os únicos especialistas em violência que seguem na ativa são os torcedores uniformizados. Esses olham para as novas autoridades e cantam: “A violência voltou!”.
Não se acaba com a violência sem entender do assunto. Sem saber o que funcionou e fracassou na Itália, na Argentina, na Inglaterra ou no Brasil. Os vândalos não serão presos porque você não vai ao estádio. A única chance é cobrar quem tem obrigação de prendê-los. Se o presidente Lula entregou ao Ministério da Justiça o pacote de leis específicas para o futebol -pretende enviar ao Congresso em março-, o ministro Tarso Genro terá de dar explicações depois da próxima morte, se a legislação não estiver aprovada.
Não, não vou dizer para você ir ou levar seu filho ao estádio. Digo apenas que eu vou. Num sábado de sol, há um ano e meio, meu filho de sete anos e eu fomos a uma festa de aniversário. Ao descer do carro e colocar meu filho no ombro, senti um revólver na barriga e um homem estranho me segurando pelas costas.
Era um assalto em plena luz do dia.
Continuo pagando impostos e cobrando segurança. Nunca vou deixar de ir a festas de aniversário.
Da FOLHA DE SÃO PAULO
Por PAULO VINICIUS COELHO (PVC)
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Sobre a violência nos estádios, os únicos especialistas que seguem na ativa são os torcedores uniformizados
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A ÚNICA medida prática após a guerra entre a polícia e a torcida do Corinthians, domingo passado, foi a indicação do promotor Arnaldo Hossepian Júnior para apurar o que houve no Morumbi. O promotor é o mesmo do caso do buraco da estação Pinheiros do Metrô.
Dois anos depois de a cratera se abrir na marginal, 13 pessoas foram indiciadas e nenhuma foi presa.
No dia 15 de fevereiro de 2007, os torcedores Alessandro Almeida Borges Pereira e Edmílson José da Silva foram condenados a 14 anos de prisão pelo assassinato de Marcos Gabriel Cardoso Soares, na estação Barra Funda do Metrô. O homicídio aconteceu em 2004, num dia de Palmeiras x Corinthians. Por incrível que pareça, tem havido prisões em casos ligados às torcidas uniformizadas. Mas, muito pior do que a impunidade, é a sensação de que ninguém é punido, e essa sensação segue intacta na sociedade.
Nas uniformizadas, nem tanto.
Uma das cenas mais impressionantes do domingo passado foi o canto “a violência voltou”. Não nos avisaram se algum dia ela foi embora, mas, pelo visto, os uniformizados tiveram essa impressão. Opinião respeitável dos únicos que nunca abandonaram as arquibancadas.
Eis o ponto: você deixa de ir ao estádio. Eles não. Em novembro, o promotor Paulo Castilho reuniu-se com o presidente Lula para discutir um pacote de novas leis específicas para a violência no futebol. Há 20 anos, todo mundo sabe que a legislação específica é a única medida concreta para diminuir a violência e a sensação de impunidade. O pacote nunca saiu do papel, porque a Justiça brasileira prefere seguir seu eterno debate: punir ou educar. Enquanto isso, gente morre nas ruas. A caminho do estádio ou não.
Em São Paulo, quem hoje cuida da violência nos estádios entrou no assunto há pouco tempo. Seja o promotor Paulo Castilho, seja Arnaldo Hossepian ou o coronel Hervando Velozo, da PM. O maior especialista paulista na guerra das torcidas é o coronel Marcos Marinho. Sua função atual? Diretor de árbitros!
Quer dizer que os únicos especialistas em violência que seguem na ativa são os torcedores uniformizados. Esses olham para as novas autoridades e cantam: “A violência voltou!”.
Não se acaba com a violência sem entender do assunto. Sem saber o que funcionou e fracassou na Itália, na Argentina, na Inglaterra ou no Brasil. Os vândalos não serão presos porque você não vai ao estádio. A única chance é cobrar quem tem obrigação de prendê-los. Se o presidente Lula entregou ao Ministério da Justiça o pacote de leis específicas para o futebol -pretende enviar ao Congresso em março-, o ministro Tarso Genro terá de dar explicações depois da próxima morte, se a legislação não estiver aprovada.
Não, não vou dizer para você ir ou levar seu filho ao estádio. Digo apenas que eu vou. Num sábado de sol, há um ano e meio, meu filho de sete anos e eu fomos a uma festa de aniversário. Ao descer do carro e colocar meu filho no ombro, senti um revólver na barriga e um homem estranho me segurando pelas costas.
Era um assalto em plena luz do dia.
Continuo pagando impostos e cobrando segurança. Nunca vou deixar de ir a festas de aniversário.
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PVC Folha de S.Paulo Violência nos Estádios
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
O incerto destino de Ciro Gomes
O incerto destino de Ciro Gomes
Por Kennedy Alencar
http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/kennedyalencar/ult511u507267.shtml
Insatisfeito com o trabalho de deputado federal, Ciro Gomes (PSB-CE) se escondeu politicamente nos últimos dois anos, mas sobretudo em 2008. Foi um decisão refletida, dizem aliados. Mas teria sido uma decisão errada, repetem os mesmos aliados.
Nesse período, a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, reforçou a possibilidade de ser a principal candidata do campo lulista. Hoje, o PT está unido no apoio à ministra.
Nas pesquisas, Ciro ainda ostenta maior intenção de voto do que a ministra. Mas as forças políticas acreditam que ela é mais viável do que ele. O PMDB, por exemplo, tende hoje a fechar com Dilma oficialmente. O partido daria a ela o seu tempo de TV, mas se dividiria nos Estados entre a candidata de Lula e o candidato da oposição.
No próprio PSB, o seu partido, Ciro sofre alguma contestação _sobretudo do governador de Pernambuco e chefe da legenda, Eduardo Campos.
A sucessão de outubro de 2010 está distante. E Ciro poderá reinventar um caminho até lá. Mas não parece tarefa fácil. Ele tem críticas à política econômica. Críticas parecidas com as de Dilma e as dos governadores José Serra (SP) e Aécio Neves (MG), os dois potenciais candidatos do PSDB ao Palácio do Planalto. Todos se queixam dos juros altos.
Ciro foi ministro de Lula durante o primeiro mandato. Teria dificuldade para atacar o governo numa campanha. Tampouco será o escolhido por Lula para representar a sua administração em 2010.
Restaria a Ciro uma aliança com Aécio ou com Dilma, na posição de coadjuvante. Mas isso dependeria de fatos que hoje parecem improváveis.
Se Aécio for o candidato do PSDB, Ciro poderia ser o vice. Se Aécio deixar o PSDB para se filiar ao PMDB, Ciro poderia ser o vice. Se Aécio entrar no PSB, seria um suicídio político do governador mineiro, que não é dado a esse tipo de coisa.
Se o PMDB confirmar uma aliança oficial com o PT, o partido deverá indicar o vice. Se essa união não se confirmar, o PSB poderia nomear o companheiro de chapa. Mas Ciro sofreria competição interna. Eduardo Campos flerta com a possibilidade de ser vice de Dilma se naufragar a tentativa de aliança PT-PMDB.
No PSB, tem gente que diz que Ciro poderia simplesmente desistir da política. É uma saída que não combina com a sua personalidade. Ele é um animal político. Seria lamentável uma saída de cena. Ciro é uma peça importante do quebra-cabeça presidencial, mas não está claro onde se encaixará.
Por Kennedy Alencar
http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/kennedyalencar/ult511u507267.shtml
Insatisfeito com o trabalho de deputado federal, Ciro Gomes (PSB-CE) se escondeu politicamente nos últimos dois anos, mas sobretudo em 2008. Foi um decisão refletida, dizem aliados. Mas teria sido uma decisão errada, repetem os mesmos aliados.
Nesse período, a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, reforçou a possibilidade de ser a principal candidata do campo lulista. Hoje, o PT está unido no apoio à ministra.
Nas pesquisas, Ciro ainda ostenta maior intenção de voto do que a ministra. Mas as forças políticas acreditam que ela é mais viável do que ele. O PMDB, por exemplo, tende hoje a fechar com Dilma oficialmente. O partido daria a ela o seu tempo de TV, mas se dividiria nos Estados entre a candidata de Lula e o candidato da oposição.
No próprio PSB, o seu partido, Ciro sofre alguma contestação _sobretudo do governador de Pernambuco e chefe da legenda, Eduardo Campos.
A sucessão de outubro de 2010 está distante. E Ciro poderá reinventar um caminho até lá. Mas não parece tarefa fácil. Ele tem críticas à política econômica. Críticas parecidas com as de Dilma e as dos governadores José Serra (SP) e Aécio Neves (MG), os dois potenciais candidatos do PSDB ao Palácio do Planalto. Todos se queixam dos juros altos.
Ciro foi ministro de Lula durante o primeiro mandato. Teria dificuldade para atacar o governo numa campanha. Tampouco será o escolhido por Lula para representar a sua administração em 2010.
Restaria a Ciro uma aliança com Aécio ou com Dilma, na posição de coadjuvante. Mas isso dependeria de fatos que hoje parecem improváveis.
Se Aécio for o candidato do PSDB, Ciro poderia ser o vice. Se Aécio deixar o PSDB para se filiar ao PMDB, Ciro poderia ser o vice. Se Aécio entrar no PSB, seria um suicídio político do governador mineiro, que não é dado a esse tipo de coisa.
Se o PMDB confirmar uma aliança oficial com o PT, o partido deverá indicar o vice. Se essa união não se confirmar, o PSB poderia nomear o companheiro de chapa. Mas Ciro sofreria competição interna. Eduardo Campos flerta com a possibilidade de ser vice de Dilma se naufragar a tentativa de aliança PT-PMDB.
No PSB, tem gente que diz que Ciro poderia simplesmente desistir da política. É uma saída que não combina com a sua personalidade. Ele é um animal político. Seria lamentável uma saída de cena. Ciro é uma peça importante do quebra-cabeça presidencial, mas não está claro onde se encaixará.
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Ciro Gomes Política Eleições 2010
domingo, 22 de fevereiro de 2009
Cinco obras da Copa estão com projeto pronto, mas a execução é indefinida
Cinco obras da Copa estão com projeto pronto, mas a execução é indefinida
Fonte: http://portalexame.abril.com.br/economia/cinco-obras-copa-estao-projeto-pronto-execucao-indefinida-421284.html
Não há data certa para o início da construção da Arena Palestra Itália, do Expresso Aeroporto e da avenida perimetral nem para a ampliação dos aeroportos e a revitalização do Centro - mas os projetos já estão prontos
1 - Arena Palestra Itália
O Palmeiras planeja construir um dos estádios mais modernos do Brasil no mesmo local onde está hoje o Parque Antarctica. O clube já não alimenta esperanças de abrigar um jogo da Copa de 2014 após a Prefeitura de São Paulo, o governo paulista e a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) terem indicado para a Fifa o estádio do Morumbi como palco das partidas na cidade.
Dirigentes palestrinos, no entanto, ficariam bastante contentes se o novo estádio, batizado provisoriamente de Arena Palestra Itália, fosse escolhido para abrigar jogos da Copa das Confederações em 2013 ou servisse de centro de treinamento para alguma seleção de futebol - de preferência, a italiana.
Dentro do raio de 100 km de distância da capital, há cinco estádios aptos a comportar treinos e amistosos das seleções visitantes: Pacaembu (São Paulo), Jundiaí, Barueri, Campinas e Santos.
Se a Arena Palestra Itália sair do papel, o estádio será o favorito para abrigar os treinamentos do cabeça-de-chave que jogar em São Paulo. O novo Palestra custará cerca de 250 milhões de reais e terá sua capacidade aumentada para 42 000 pessoas.
A execução da obra ficará a cargo da WTorre Empreendimentos, uma das maiores construtoras de imóveis comerciais do Brasil. O contrato assinado em julho de 2008 prevê que o Palmeiras cederá o uso da superfície por 30 anos à construtora, que, em troca, terá de arcar com todo o investimento para a construção e a administração do estádio. O projeto é assinado pelo arquiteto português Tomás Taveira, que desenhou três estádios em Portugal construídos para a Eurocopa de 2004.
A WTorre espera iniciar a construção da arena no final deste ano. A conclusão demoraria mais 28 meses, período em que o Palmeiras deverá mandar seus jogos em estádios como o Pacaembu, o Morumbi e a Arena Barueri. As atuais arquibancadas, em forma de ferradura, serão fechadas, passando a constituir um círculo completo.
Em cima, será construído um segundo anel sobre o qual haverá uma cobertura. Só o gramado permaneceria descoberto, conforme aconselha a Fifa. Não haverá pista de atletismo, que afasta o público dos gramados e torna menos interessante a experiência de assistir aos jogos no estádio.
O diretor-superintendente da WTorre Empreendimentos, Solano Neiva, planeja alcançar uma rentabilidade de ao menos 15% ao ano com o estádio. Nos jogos em que o mando de campo é do Palmeiras, toda a bilheteria será do clube, com exceção da parcela da renda destinada a cobrir as despesas de utilização (cerca de 25 mil reais por partida).
Nos jogos de outros times, o aluguel entrará no caixa da construtora. Outra forma de a WTorre levantar receitas será com a construção de 200 camarotes com capacidade para abrigar um total de 2.000 pessoas. O direito de se sentar nesses locais seria comercializado com empresas. Também haverá 10 mil cadeiras cativas que poderiam ser adquiridas por torcedores, gerando receitas para a construtora.
O nome do estádio também será negociado com alguma empresa, como foi feito na Europa com a Allianz Arena (um acordo entre a seguradora Allianz e o clube alemão Bayern de Munique) e o Emirates Stadium (nome adquirido pela companhia aérea Emirates junto ao time inglês Arsenal).
Atual patrocinadora do Palmeiras, a fabricante de eletroeletrônicos Samsung tem o direito de preferência para atrelar sua marca ao estádio. O advogado Ivandro Sanchez, especialista em contratos de futebol no escritório Machado, Meyer, Sendacz e Opice, afirma que batizar o estádio com uma marca só funciona quando o nome é dado logo a partir da primeira partida. "Seria impossível mudar o nome do estádio do Morumbi hoje, 50 anos após sua construção. Ninguém falaria o novo nome", afirma.
A WTorre também seguirá a recomendação da própria Fifa de construir uma arena multiuso, que possa ser utilizada para partidas de outros esportes ou para shows musicais. Atrás do campo, haverá uma estrutura coberta para shows com capacidade para abrigar até 15 000 pessoas sem prejudicar o gramado.
"Essa é uma forma de viabilizar financeiramente o empreendimento. São necessários cerca de cem eventos por ano para tornar o investimento lucrativo - e o Palmeiras só mandará ali umas 50 partidas por ano", afirma Ivandro Sanchez.
A construtora também espera abrigar sob as arquibancadas do estádio e nas imediações outros estabelecimentos comerciais, como restaurante panorâmico, auditório e estacionamento com 1.400 vagas. O plano diretor da cidade de São Paulo, no entanto, estabelece um limite para a área construída equivalente a 30% do terreno total.
Solano Neiva, da WTorre, defende que a Câmara dos Vereadores de São Paulo aumente esse teto para 50%. "Isso já foi feito para hotéis e hospitais e deveria ser estendido para estádios, como acontece em outras cidades do mundo", afirma.
"Fica impossível cumprir todas as exigências da Fifa, ampliar as áreas de circulação, ter arquibancadas sem pontos cegos, destinar 2.000 lugares para a imprensa, ter rotas de fuga para evacuação em no máximo oito minutos e ainda construir outros equipamentos no estádio com essa legislação arcaica."
Neiva diz que a Câmara pode colocar em votação um projeto que faria essa mudança nos próximos meses, mas que, por enquanto, vai tocar o projeto respeitando a normas atuais. A construção de novos estabelecimentos comerciais e a realização de um número maior de eventos seriam bastante importantes para viabilizar o projeto da WTorre, principalmente nesse momento de crise.
Com o crédito caro e escasso, os custos de captação de dinheiro para a construção do estádio deverão ser elevados. A WTorre garante que o projeto continua de pé apesar da mudança do cenário econômico. A meta de obter uma rentabilidade de 15% ao ano, no entanto, ficou mais distante.
2 - Ampliação e modernização dos aeroportos
A Copa pode servir como uma grande justificativa para São Paulo resolver seu antigo gargalo aeroportuário. A cidade foi palco do maior acidente da história da aviação brasileira em 2007, quando um Airbus da TAM atravessou a pista do aeroporto de Congonhas e colidiu com um prédio, matando 199 pessoas.
A tragédia mostrou a necessidade da ampliação da capacidade aeroportuária da cidade, com a construção de um novo aeroporto ou a ampliação de Cumbica (Guarulhos) ou Viracopos (Campinas), permitindo que Congonhas seja desafogado. Cerca de um ano e meio após o acidente, no entanto, nenhum projeto saiu do papel.
Os governos federal e estadual sonham em ampliar o aeroporto de Cumbica com a construção de uma terceira pista de pousos e decolagens. A obra permitiria aumentar a capacidade anual de transporte de 20 milhões para 30 milhões de passageiros.
A localização também favorece o investimento em Cumbica. O aeroporto está localizado a pouco menos de 30 km do Centro de São Paulo e, em cerca de três anos, poderá já estar ligado à região central da cidade por meio de um Trem Expresso.
No entanto, por descuido dos governos nas últimas décadas, a área onde seria construída a terceira pista foi invadida. Hoje seria necessário desapropriar cerca de 30 mil pessoas que não querem deixar o local. Disputas judiciais em torno da posse do terreno poderiam levar anos para serem resolvidas.
Além disso, o projeto da terceira pista também enfrentaria dificuldades na obtenção de licenças ambientais. Esses dois obstáculos podem ser vencidos, mas dificilmente até 2014. A data também parece apertada para a construção de um novo aeroporto nos arredores da cidade. Diversas cidades gostariam de abrigar o novo aeroporto - entre elas, Jundiaí e Itapecerica da Serra - mas nenhuma possui um projeto pronto e com licenças ambientais garantidas.
Por isso, especialistas apostam que o governo deverá investir suas fichas em Viracopos. O aeroporto serve hoje principalmente para aviões de carga. O projeto de ampliação, entretanto, prevê o aumento da capacidade de transporte de passageiros dos atuais 1,5 milhão de pessoas para 8 milhões. O governo poderia atender ao pedido da Fifa de concluir a ampliação do aeroporto até 2013, quando ocorrerá a Copa das Confederações.
As principais vantagens de Viracopos são a existência do espaço necessário para a ampliação sem a necessidade de desapropriações, o aproveitamento da infra-estrutura já existente e a excelente visibilidade da pista - onde dificilmente há neblina, ao contrário de Cumbica. Já os principais obstáculos seriam:
1) acostumar os paulistanos a utilizar um aeroporto localizado a mais de 90 km do centro da cidade;
2) adequar a malha aérea nacional e internacional, bastante concentrada em Congonhas e Cumbica. O governo poderia vencer esse obstáculo com a inclusão de uma perna para Campinas no projeto de trem-bala que vai ligar São Paulo ao Rio de Janeiro, diz o presidente do Sindicato da Arquitetura e da Engenharia (Sinaenco), José Roberto Bernasconi. Por enquanto, no entanto, nem o próprio projeto do trem-bala está fechado.
Já o aeroporto de Congonhas deverá ser ampliado nos próximos anos, mas sem o aumento da atual capacidade de transporte de passageiros. A Prefeitura de São Paulo e o Governo do Estado negociam com o Ministério da Defesa e a Infraero (empresa que administra os aeroportos) a ampliação das duas pistas em cerca de 1.100 metros, com maiores áreas de escape. A obra custaria cerca de 400 milhões de reais e aumentaria a segurança nos pousos e decolagens. A prefeitura faria as desapropriações e o governo federal seria responsável pela construção das pistas.
3 - Construção do Expresso Aeroporto
O governo paulista espera que até 2012 esteja em operação a linha de trem que vai ligar o Centro de São Paulo ao aeroporto de Cumbica (Guarulhos). Com a ferrovia de 28 km, o paulistano conseguirá chegar ao aeroporto em apenas 20 minutos - e sem o risco de perder o embarque no avião devido a congestionamentos de vias.
O projeto do Expresso Aeroporto, como vem sendo chamado, já está pronto e prevê que a obra será erguida por uma empresa privada. A concessionária terá de investir 1,4 bilhão de reais na construção da linha. Em troca, o vencedor da licitação poderá cobrar até 35 reais por passagem entre a Estação da Luz, no Centro, e o aeroporto de Cumbica.
O governo estima que inicialmente 19 mil pessoas usarão o serviço por dia. A tarifa de 35 reais é superior ao que se cobra hoje pelo serviço de ônibus entre a região central da cidade e o aeroporto, mas é bem inferior ao que se pagaria para ir de táxi.
O Expresso Aeroporto terá uma linha subterrânea entre as estações Luz e Belém, na região central de São Paulo, e depois passará a ser de superfície. Na região do parque do Tietê, os trilhos serão construídos em uma via elevada com o objetivo de reduzir o impacto ambiental.
Pelo projeto atual, paralelamente à linha que chegará ao aeroporto haverá outra, que custará mais 1 bilhão de reais e ligará o centro de São Paulo aos bairros mais populosos de Guarulhos. Esse trem terá vagões mais populares, vai parar em diversas estações e não será tão rápido.
O sistema será gerido pela CPTM - e não pela empresa que vencer a licitação do trem para Cumbica. No entanto, a concessionária do Expresso Aeroporto vai subsidiar a construção da linha para Guarulhos com o investimento de 120 milhões de reais.
A licitação do Expresso Aeroporto deve acontecer no segundo semestre. O governo estadual já gostaria de já ter realizado o leilão, mas faltaram entendimentos com a União. O governo Lula prefere que o trem-bala que vai ligar São Paulo e Rio de Janeiro pudesse também ter ramais ligando os aeroportos de Viracopos (Campinas) e Cumbica (Guarulhos) às regiões centrais da capital paulista.
Já o governo de São Paulo acha que o Expresso Aeroporto deve ser um projeto independente do trem-bala por dois motivos:
1) As estações em aeroportos poderiam reduzir demais a velocidade das viagens com o trem-bala;
2) O projeto do Expresso Aeroporto está mais adiantado. No entanto, o governo Lula pode bloquear o projeto de trem para Guarulhos porque uma estatal federal, a Infraero (que administra aeroportos), será responsável pela construção da estação de desembarque dentro de Cumbica. Um acordo é esperado para os próximos meses, pelo bem da Copa e dos paulistanos.
4 - Revitalização do Centro
Caso seja confirmada como principal ponto de embarque e desembarque do Expresso Aeroporto e do trem-bala na cidade de São Paulo, a estação da Luz, no região central da cidade, terá de sair das trevas. "Executivos vão ser o principal público desses trens.
É um usuário que precisa se sentir seguro na chegada a São Paulo", afirma Fernando Leme Fleury, professor da Business School São Paulo e consultor em infra-estrutura. O sonho da Prefeitura de São Paulo é promover uma profunda transformação no bairro da Luz, assim como foi feito em Puerto Madero, uma antiga zona portuária de Buenos Aires remodelada na década passada.
O projeto Nova Luz prevê a revitalização de 2,25 milhões de metros quadrados em plena "Cracolândia". A Prefeitura aprovou em 2005 a legislação que declarou a área de utilidade pública e criou as condições para o início das desapropriações.
Empresas privadas, principalmente as ligadas às áreas de cultura e tecnologia, ganharam enormes incentivos fiscais para instalar escritórios no local. A legislação permite às empresas transformar até 80% do valor investido em imóveis na região da Luz em créditos tributários que poderão ser utilizados para o abatimento de parcelas representativas dos tributos municipais - como o Imposto Predial Territorial Urbano (IPTU) e o Imposto sobre Serviços (ISS).
Apesar da agressividade dos incentivos fiscais, o projeto de revitalização da Luz ainda não deslanchou. Apenas 16 empresas já assinaram contratos para se instalar na região. Entre elas, estão a IBM, a Microsoft e a Atento. A Prefeitura tem enfrentado dificuldades para retirar os atuais moradores da região.
Para atacar o problema, o secretário municipal das Subprefeituras, Andrea Matarazzo, afirma que vai negociar com a Câmara dos Vereadores a aprovação de uma nova lei de concessões urbanas. A proposta é permitir a venda para empresas privadas de áreas que ainda não foram desapropriadas.
O comprador ganharia o poder de desapropriação da Prefeitura e teria o direito de negociar diretamente com os moradores a desocupação dos imóveis. Entre as causas da própria lentidão, a Prefeitura aponta a necessidade de abrir licitação para a contratação dos peritos que farão a avaliação dos imóveis e as restrições impostas por lei para fechar acordos com os proprietários - por exemplo, pagando valores pouco superiores ao do laudo de avaliação.
Desde 2005, a Prefeitura só conseguiu desapropriar cerca de 10% da área planejada. "Ninguém no mundo faz um projeto como esse em menos de dez anos", afirma Matarazzo."Com a aprovação dessa lei, queremos desapropriar toda a região até o final do ano."
A primeira fase da revitalização do bairro já está sendo implementada por meio de ações do poder público. O policiamento foi reforçado para combater o tráfico de drogas. Autoridades também têm fechado dezenas de bares, hotéis e empresas de ônibus que funcionam irregularmente na região.
Nos próximos anos, a Prefeitura instalará na região as novas sedes para a Subprefeitura da Sé e a Secretaria de Serviços, o Museu da Criança, a base da Guarda Civil Metropolitana, a Prodam (Empresa de Tecnologia da Informação e Comunicação do Município), uma escola técnica e um parque.
A região já abriga importantes atrações culturais, como a Sala São Paulo, a Pinacoteca do Estado, a Estação Júlio Prestes e o Museu da Língua Portuguesa. A Prefeitura promete também reformar as calçadas, trocar os sistemas de iluminação pública e plantar árvores.
Para garantir a ocupação do local também durante a noite, a Prefeitura negocia com incorporadoras a construção de imóveis residenciais na região. Por meio da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU), do Governo do Estado, serão erguidos dois prédios destinados a abrigar famílias com renda entre três e seis salários mínimos. "Vamos transformar essa zona, que estava abandonada há 30 anos, em um dos melhores bairros da cidade", garante Matarazzo. Que a Luz esteja com ele.
5 - Avenida perimetral sul
A principal obra viária nas proximidades do estádio do Morumbi será a construção da avenida perimetral sul. A via correrá paralela à avenida Giovanni Gronchi e vai ligar o estádio à ponte João Dias (na marginal Pinheiros), cruzando a favela de Paraisópolis.
A Prefeitura de São Paulo deve investir cerca de 50 milhões de reais na obra. O projeto já está pronto e inclui a reurbanização de favelas, a remoção de famílias em áreas de risco e a canalização de córregos. "A prefeitura deve aproveitar para resolver o problema de enchentes no bairro", diz o presidente do Sindicato da Arquitetura e da Engenharia (Sinaenco), José Roberto Bernasconi.
O início das obras ainda depende do avanço da atual fase de desapropriações. A expectativa é de que a avenida esteja pronta em 2013 - portanto, antes da Copa das Confederações. Em sua lista de recomendações para a Copa, a Fifa lembra que todo o público vai chegar e sair dos estádios praticamente ao mesmo tempo nos dias de jogos. A avenida perimetral sul é a grande aposta para que as quase 70 000 pessoas que assistirão aos jogos não fiquem estancadas em congestionamentos.
Fonte: http://portalexame.abril.com.br/economia/cinco-obras-copa-estao-projeto-pronto-execucao-indefinida-421284.html
Não há data certa para o início da construção da Arena Palestra Itália, do Expresso Aeroporto e da avenida perimetral nem para a ampliação dos aeroportos e a revitalização do Centro - mas os projetos já estão prontos
1 - Arena Palestra Itália
O Palmeiras planeja construir um dos estádios mais modernos do Brasil no mesmo local onde está hoje o Parque Antarctica. O clube já não alimenta esperanças de abrigar um jogo da Copa de 2014 após a Prefeitura de São Paulo, o governo paulista e a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) terem indicado para a Fifa o estádio do Morumbi como palco das partidas na cidade.
Dirigentes palestrinos, no entanto, ficariam bastante contentes se o novo estádio, batizado provisoriamente de Arena Palestra Itália, fosse escolhido para abrigar jogos da Copa das Confederações em 2013 ou servisse de centro de treinamento para alguma seleção de futebol - de preferência, a italiana.
Dentro do raio de 100 km de distância da capital, há cinco estádios aptos a comportar treinos e amistosos das seleções visitantes: Pacaembu (São Paulo), Jundiaí, Barueri, Campinas e Santos.
Se a Arena Palestra Itália sair do papel, o estádio será o favorito para abrigar os treinamentos do cabeça-de-chave que jogar em São Paulo. O novo Palestra custará cerca de 250 milhões de reais e terá sua capacidade aumentada para 42 000 pessoas.
A execução da obra ficará a cargo da WTorre Empreendimentos, uma das maiores construtoras de imóveis comerciais do Brasil. O contrato assinado em julho de 2008 prevê que o Palmeiras cederá o uso da superfície por 30 anos à construtora, que, em troca, terá de arcar com todo o investimento para a construção e a administração do estádio. O projeto é assinado pelo arquiteto português Tomás Taveira, que desenhou três estádios em Portugal construídos para a Eurocopa de 2004.
A WTorre espera iniciar a construção da arena no final deste ano. A conclusão demoraria mais 28 meses, período em que o Palmeiras deverá mandar seus jogos em estádios como o Pacaembu, o Morumbi e a Arena Barueri. As atuais arquibancadas, em forma de ferradura, serão fechadas, passando a constituir um círculo completo.
Em cima, será construído um segundo anel sobre o qual haverá uma cobertura. Só o gramado permaneceria descoberto, conforme aconselha a Fifa. Não haverá pista de atletismo, que afasta o público dos gramados e torna menos interessante a experiência de assistir aos jogos no estádio.
O diretor-superintendente da WTorre Empreendimentos, Solano Neiva, planeja alcançar uma rentabilidade de ao menos 15% ao ano com o estádio. Nos jogos em que o mando de campo é do Palmeiras, toda a bilheteria será do clube, com exceção da parcela da renda destinada a cobrir as despesas de utilização (cerca de 25 mil reais por partida).
Nos jogos de outros times, o aluguel entrará no caixa da construtora. Outra forma de a WTorre levantar receitas será com a construção de 200 camarotes com capacidade para abrigar um total de 2.000 pessoas. O direito de se sentar nesses locais seria comercializado com empresas. Também haverá 10 mil cadeiras cativas que poderiam ser adquiridas por torcedores, gerando receitas para a construtora.
O nome do estádio também será negociado com alguma empresa, como foi feito na Europa com a Allianz Arena (um acordo entre a seguradora Allianz e o clube alemão Bayern de Munique) e o Emirates Stadium (nome adquirido pela companhia aérea Emirates junto ao time inglês Arsenal).
Atual patrocinadora do Palmeiras, a fabricante de eletroeletrônicos Samsung tem o direito de preferência para atrelar sua marca ao estádio. O advogado Ivandro Sanchez, especialista em contratos de futebol no escritório Machado, Meyer, Sendacz e Opice, afirma que batizar o estádio com uma marca só funciona quando o nome é dado logo a partir da primeira partida. "Seria impossível mudar o nome do estádio do Morumbi hoje, 50 anos após sua construção. Ninguém falaria o novo nome", afirma.
A WTorre também seguirá a recomendação da própria Fifa de construir uma arena multiuso, que possa ser utilizada para partidas de outros esportes ou para shows musicais. Atrás do campo, haverá uma estrutura coberta para shows com capacidade para abrigar até 15 000 pessoas sem prejudicar o gramado.
"Essa é uma forma de viabilizar financeiramente o empreendimento. São necessários cerca de cem eventos por ano para tornar o investimento lucrativo - e o Palmeiras só mandará ali umas 50 partidas por ano", afirma Ivandro Sanchez.
A construtora também espera abrigar sob as arquibancadas do estádio e nas imediações outros estabelecimentos comerciais, como restaurante panorâmico, auditório e estacionamento com 1.400 vagas. O plano diretor da cidade de São Paulo, no entanto, estabelece um limite para a área construída equivalente a 30% do terreno total.
Solano Neiva, da WTorre, defende que a Câmara dos Vereadores de São Paulo aumente esse teto para 50%. "Isso já foi feito para hotéis e hospitais e deveria ser estendido para estádios, como acontece em outras cidades do mundo", afirma.
"Fica impossível cumprir todas as exigências da Fifa, ampliar as áreas de circulação, ter arquibancadas sem pontos cegos, destinar 2.000 lugares para a imprensa, ter rotas de fuga para evacuação em no máximo oito minutos e ainda construir outros equipamentos no estádio com essa legislação arcaica."
Neiva diz que a Câmara pode colocar em votação um projeto que faria essa mudança nos próximos meses, mas que, por enquanto, vai tocar o projeto respeitando a normas atuais. A construção de novos estabelecimentos comerciais e a realização de um número maior de eventos seriam bastante importantes para viabilizar o projeto da WTorre, principalmente nesse momento de crise.
Com o crédito caro e escasso, os custos de captação de dinheiro para a construção do estádio deverão ser elevados. A WTorre garante que o projeto continua de pé apesar da mudança do cenário econômico. A meta de obter uma rentabilidade de 15% ao ano, no entanto, ficou mais distante.
2 - Ampliação e modernização dos aeroportos
A Copa pode servir como uma grande justificativa para São Paulo resolver seu antigo gargalo aeroportuário. A cidade foi palco do maior acidente da história da aviação brasileira em 2007, quando um Airbus da TAM atravessou a pista do aeroporto de Congonhas e colidiu com um prédio, matando 199 pessoas.
A tragédia mostrou a necessidade da ampliação da capacidade aeroportuária da cidade, com a construção de um novo aeroporto ou a ampliação de Cumbica (Guarulhos) ou Viracopos (Campinas), permitindo que Congonhas seja desafogado. Cerca de um ano e meio após o acidente, no entanto, nenhum projeto saiu do papel.
Os governos federal e estadual sonham em ampliar o aeroporto de Cumbica com a construção de uma terceira pista de pousos e decolagens. A obra permitiria aumentar a capacidade anual de transporte de 20 milhões para 30 milhões de passageiros.
A localização também favorece o investimento em Cumbica. O aeroporto está localizado a pouco menos de 30 km do Centro de São Paulo e, em cerca de três anos, poderá já estar ligado à região central da cidade por meio de um Trem Expresso.
No entanto, por descuido dos governos nas últimas décadas, a área onde seria construída a terceira pista foi invadida. Hoje seria necessário desapropriar cerca de 30 mil pessoas que não querem deixar o local. Disputas judiciais em torno da posse do terreno poderiam levar anos para serem resolvidas.
Além disso, o projeto da terceira pista também enfrentaria dificuldades na obtenção de licenças ambientais. Esses dois obstáculos podem ser vencidos, mas dificilmente até 2014. A data também parece apertada para a construção de um novo aeroporto nos arredores da cidade. Diversas cidades gostariam de abrigar o novo aeroporto - entre elas, Jundiaí e Itapecerica da Serra - mas nenhuma possui um projeto pronto e com licenças ambientais garantidas.
Por isso, especialistas apostam que o governo deverá investir suas fichas em Viracopos. O aeroporto serve hoje principalmente para aviões de carga. O projeto de ampliação, entretanto, prevê o aumento da capacidade de transporte de passageiros dos atuais 1,5 milhão de pessoas para 8 milhões. O governo poderia atender ao pedido da Fifa de concluir a ampliação do aeroporto até 2013, quando ocorrerá a Copa das Confederações.
As principais vantagens de Viracopos são a existência do espaço necessário para a ampliação sem a necessidade de desapropriações, o aproveitamento da infra-estrutura já existente e a excelente visibilidade da pista - onde dificilmente há neblina, ao contrário de Cumbica. Já os principais obstáculos seriam:
1) acostumar os paulistanos a utilizar um aeroporto localizado a mais de 90 km do centro da cidade;
2) adequar a malha aérea nacional e internacional, bastante concentrada em Congonhas e Cumbica. O governo poderia vencer esse obstáculo com a inclusão de uma perna para Campinas no projeto de trem-bala que vai ligar São Paulo ao Rio de Janeiro, diz o presidente do Sindicato da Arquitetura e da Engenharia (Sinaenco), José Roberto Bernasconi. Por enquanto, no entanto, nem o próprio projeto do trem-bala está fechado.
Já o aeroporto de Congonhas deverá ser ampliado nos próximos anos, mas sem o aumento da atual capacidade de transporte de passageiros. A Prefeitura de São Paulo e o Governo do Estado negociam com o Ministério da Defesa e a Infraero (empresa que administra os aeroportos) a ampliação das duas pistas em cerca de 1.100 metros, com maiores áreas de escape. A obra custaria cerca de 400 milhões de reais e aumentaria a segurança nos pousos e decolagens. A prefeitura faria as desapropriações e o governo federal seria responsável pela construção das pistas.
3 - Construção do Expresso Aeroporto
O governo paulista espera que até 2012 esteja em operação a linha de trem que vai ligar o Centro de São Paulo ao aeroporto de Cumbica (Guarulhos). Com a ferrovia de 28 km, o paulistano conseguirá chegar ao aeroporto em apenas 20 minutos - e sem o risco de perder o embarque no avião devido a congestionamentos de vias.
O projeto do Expresso Aeroporto, como vem sendo chamado, já está pronto e prevê que a obra será erguida por uma empresa privada. A concessionária terá de investir 1,4 bilhão de reais na construção da linha. Em troca, o vencedor da licitação poderá cobrar até 35 reais por passagem entre a Estação da Luz, no Centro, e o aeroporto de Cumbica.
O governo estima que inicialmente 19 mil pessoas usarão o serviço por dia. A tarifa de 35 reais é superior ao que se cobra hoje pelo serviço de ônibus entre a região central da cidade e o aeroporto, mas é bem inferior ao que se pagaria para ir de táxi.
O Expresso Aeroporto terá uma linha subterrânea entre as estações Luz e Belém, na região central de São Paulo, e depois passará a ser de superfície. Na região do parque do Tietê, os trilhos serão construídos em uma via elevada com o objetivo de reduzir o impacto ambiental.
Pelo projeto atual, paralelamente à linha que chegará ao aeroporto haverá outra, que custará mais 1 bilhão de reais e ligará o centro de São Paulo aos bairros mais populosos de Guarulhos. Esse trem terá vagões mais populares, vai parar em diversas estações e não será tão rápido.
O sistema será gerido pela CPTM - e não pela empresa que vencer a licitação do trem para Cumbica. No entanto, a concessionária do Expresso Aeroporto vai subsidiar a construção da linha para Guarulhos com o investimento de 120 milhões de reais.
A licitação do Expresso Aeroporto deve acontecer no segundo semestre. O governo estadual já gostaria de já ter realizado o leilão, mas faltaram entendimentos com a União. O governo Lula prefere que o trem-bala que vai ligar São Paulo e Rio de Janeiro pudesse também ter ramais ligando os aeroportos de Viracopos (Campinas) e Cumbica (Guarulhos) às regiões centrais da capital paulista.
Já o governo de São Paulo acha que o Expresso Aeroporto deve ser um projeto independente do trem-bala por dois motivos:
1) As estações em aeroportos poderiam reduzir demais a velocidade das viagens com o trem-bala;
2) O projeto do Expresso Aeroporto está mais adiantado. No entanto, o governo Lula pode bloquear o projeto de trem para Guarulhos porque uma estatal federal, a Infraero (que administra aeroportos), será responsável pela construção da estação de desembarque dentro de Cumbica. Um acordo é esperado para os próximos meses, pelo bem da Copa e dos paulistanos.
4 - Revitalização do Centro
Caso seja confirmada como principal ponto de embarque e desembarque do Expresso Aeroporto e do trem-bala na cidade de São Paulo, a estação da Luz, no região central da cidade, terá de sair das trevas. "Executivos vão ser o principal público desses trens.
É um usuário que precisa se sentir seguro na chegada a São Paulo", afirma Fernando Leme Fleury, professor da Business School São Paulo e consultor em infra-estrutura. O sonho da Prefeitura de São Paulo é promover uma profunda transformação no bairro da Luz, assim como foi feito em Puerto Madero, uma antiga zona portuária de Buenos Aires remodelada na década passada.
O projeto Nova Luz prevê a revitalização de 2,25 milhões de metros quadrados em plena "Cracolândia". A Prefeitura aprovou em 2005 a legislação que declarou a área de utilidade pública e criou as condições para o início das desapropriações.
Empresas privadas, principalmente as ligadas às áreas de cultura e tecnologia, ganharam enormes incentivos fiscais para instalar escritórios no local. A legislação permite às empresas transformar até 80% do valor investido em imóveis na região da Luz em créditos tributários que poderão ser utilizados para o abatimento de parcelas representativas dos tributos municipais - como o Imposto Predial Territorial Urbano (IPTU) e o Imposto sobre Serviços (ISS).
Apesar da agressividade dos incentivos fiscais, o projeto de revitalização da Luz ainda não deslanchou. Apenas 16 empresas já assinaram contratos para se instalar na região. Entre elas, estão a IBM, a Microsoft e a Atento. A Prefeitura tem enfrentado dificuldades para retirar os atuais moradores da região.
Para atacar o problema, o secretário municipal das Subprefeituras, Andrea Matarazzo, afirma que vai negociar com a Câmara dos Vereadores a aprovação de uma nova lei de concessões urbanas. A proposta é permitir a venda para empresas privadas de áreas que ainda não foram desapropriadas.
O comprador ganharia o poder de desapropriação da Prefeitura e teria o direito de negociar diretamente com os moradores a desocupação dos imóveis. Entre as causas da própria lentidão, a Prefeitura aponta a necessidade de abrir licitação para a contratação dos peritos que farão a avaliação dos imóveis e as restrições impostas por lei para fechar acordos com os proprietários - por exemplo, pagando valores pouco superiores ao do laudo de avaliação.
Desde 2005, a Prefeitura só conseguiu desapropriar cerca de 10% da área planejada. "Ninguém no mundo faz um projeto como esse em menos de dez anos", afirma Matarazzo."Com a aprovação dessa lei, queremos desapropriar toda a região até o final do ano."
A primeira fase da revitalização do bairro já está sendo implementada por meio de ações do poder público. O policiamento foi reforçado para combater o tráfico de drogas. Autoridades também têm fechado dezenas de bares, hotéis e empresas de ônibus que funcionam irregularmente na região.
Nos próximos anos, a Prefeitura instalará na região as novas sedes para a Subprefeitura da Sé e a Secretaria de Serviços, o Museu da Criança, a base da Guarda Civil Metropolitana, a Prodam (Empresa de Tecnologia da Informação e Comunicação do Município), uma escola técnica e um parque.
A região já abriga importantes atrações culturais, como a Sala São Paulo, a Pinacoteca do Estado, a Estação Júlio Prestes e o Museu da Língua Portuguesa. A Prefeitura promete também reformar as calçadas, trocar os sistemas de iluminação pública e plantar árvores.
Para garantir a ocupação do local também durante a noite, a Prefeitura negocia com incorporadoras a construção de imóveis residenciais na região. Por meio da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU), do Governo do Estado, serão erguidos dois prédios destinados a abrigar famílias com renda entre três e seis salários mínimos. "Vamos transformar essa zona, que estava abandonada há 30 anos, em um dos melhores bairros da cidade", garante Matarazzo. Que a Luz esteja com ele.
5 - Avenida perimetral sul
A principal obra viária nas proximidades do estádio do Morumbi será a construção da avenida perimetral sul. A via correrá paralela à avenida Giovanni Gronchi e vai ligar o estádio à ponte João Dias (na marginal Pinheiros), cruzando a favela de Paraisópolis.
A Prefeitura de São Paulo deve investir cerca de 50 milhões de reais na obra. O projeto já está pronto e inclui a reurbanização de favelas, a remoção de famílias em áreas de risco e a canalização de córregos. "A prefeitura deve aproveitar para resolver o problema de enchentes no bairro", diz o presidente do Sindicato da Arquitetura e da Engenharia (Sinaenco), José Roberto Bernasconi.
O início das obras ainda depende do avanço da atual fase de desapropriações. A expectativa é de que a avenida esteja pronta em 2013 - portanto, antes da Copa das Confederações. Em sua lista de recomendações para a Copa, a Fifa lembra que todo o público vai chegar e sair dos estádios praticamente ao mesmo tempo nos dias de jogos. A avenida perimetral sul é a grande aposta para que as quase 70 000 pessoas que assistirão aos jogos não fiquem estancadas em congestionamentos.
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sábado, 21 de fevereiro de 2009
As dez obras para a Copa que podem mudar a cara de São Paulo
As dez obras para a Copa que podem mudar a cara de São Paulo
Fonte: http://portalexame.abril.com.br/economia/dez-obras-copa-podem-mudar-cara-sao-paulo-421263.html
Governos prometem evitar erros do Pan-2007 e deixar como legado da Copa obras que ajudarão a resolver os problemas da cidade
O Pan-2007 é o exemplo de tudo o que o Brasil não deve fazer nos preparativos para a Copa de 2014. Cálculos preliminares do Tribunal de Contas da União mostram que o gasto público para a realização dos jogos no Rio de Janeiro chegaram a 3,6 bilhões de reais - ou 500% a mais que o previsto inicialmente. O Pan mais caro da história não trouxe as benfeitorias que se previa à cidade. O dinheiro foi gasto principalmente na construção de novas instalações esportivas - mesmo quando era possível reformar as existentes.
Considerado o maior "elefante branco" do Pan, o estádio João Havelange (também conhecido como Engenhão), por exemplo, consumiu 380 milhões de reais. O estádio foi construído a poucos quilômetros do Maracanã, em uma zona considerada pouco segura pelos cariocas. Após o Pan-2007, o Engenhão foi concedido ao Botafogo por um prazo de 20 anos em troca de um aluguel mensal de 36 mil reais.
Por esse valor, o poder público levará cerca de 880 anos para recuperar o dinheiro investido. Com a priorização da construção de instalações esportivas, faltou dinheiro para obras importantes para a cidade, como a despoluição da baía de Guanabara e a construção de uma linha de metrô.
Trem-bala e trecho leste do Rodoanel vão exigir enorme esforço As cidades que abrigarão os jogos da Copa só serão confirmadas em 20 de março, mas cinco sedes já são consideradas óbvias: Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre e Brasília. Ao menos em São Paulo, o poder público diz ter aprendido a lição do Pan-2007.
O estádio do Morumbi será reformado com o investimento de 135 milhões pelo São Paulo Futebol Clube e por empresas parceiras - sem a utilização de dinheiro público. Como o projeto aproveita a estrutura já existente, a reforma do Morumbi tem o menor orçamento entre as 17 arenas que ainda concorrem para abrigar partidas da Copa.
Sem a necessidade de gastar com instalações esportivas, o governador José Serra (PSDB) tem afirmado que só vai colocar dinheiro em projetos para a Copa que beneficiem a população, antes e depois do evento. O prefeito Gilberto Kassab (DEM) diz que os investimentos públicos em infra-estrutura na cidade devem alcançar 20 bilhões de reais até 2014.
A maior parte desse dinheiro será utilizada na melhoria da mobilidade urbana, um do grandes defeitos da cidade, segundo a Fifa. "A melhoria da mobilidade urbana é melhor legado que a cidade de São Paulo pode ter da Copa porque aumentaria dramaticamente a produtividade dos trabalhadores e das empresas", diz Fernando Leme Fleury, professor da Business School São Paulo e consultor na área de infra-estrutura.
São Paulo ainda disputa com Brasília e Belo Horizonte o direito de abrigar a partida de abertura da Copa - a final deve ocorrer no Maracanã, principalmente para que o Brasil tenha a chance de sepultar o trauma de perder em casa na final da Copa de 1950.
Entre os pontos fortes de São Paulo, estão a rede hoteleira e hospitalar, a existência de um aeroporto internacional, a maior malha de voos do país, uma polícia treinada para grandes eventos, um centro de negócios importante para patrocinadores e uma mão-de-obra no setor de serviços bastante qualificada. Ainda a favor de São Paulo estão as boas chances de José Serra vencer a eleição presidencial em 2010 e ocupar o cargo de presidente durante a Copa de 2014.
Por outro lado, Brasília não tem problemas de mobilidade urbana comparáveis aos de São Paulo e, como capital do país, abriga o centro de poder político. Por esse motivo, São Paulo apresentou à Fifa um dossiê com 34 cadernos e 28 DVDs em que se compromete a ampliar um de seus aeroportos, construir uma nova avenida nas proximidades do Morumbi e terminar a construção da linha 4-Amarela do Metrô, cuja estação final estará localizada a cerca de 1 km do estádio.
Outras obras que poderão ficar prontas até 2014 e que de alguma forma poderão tornar São Paulo mais preparada para receber a Copa são o Rodoanel, o Expresso Aeroporto, o trem-bala entre Rio e São Paulo, a revitalização da região central da cidade e a Arena Palestra Itália. "É uma grande oportunidade para resolvermos nossos problemas de infra-estrutura", diz o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf.
Além dos ganhos de produtividades gerados pela redução dos congestionamentos, São Paulo também pode ficar com uma boa parte do enorme faturamento que uma Copa costuma trazer a uma cidade. Na Alemanha, apenas o faturamento da Fifa chegou a 8 bilhões de euros. Na África do Sul, os pacotes para assistir a todas as fases do Mundial custam cerca de 30 mil dólares. O dinheiro dos ingressos, da venda dos direitos de transmissão das partidas e das cotas de patrocínio são da Fifa.
As cidades podem faturar alto com o turismo e com a organização das "fan fests" - ou festas em locais públicos onde milhares de pessoas assistem aos jogos em telões. Na Copa da Alemanha, estima-se que 18 milhões de pessoas assistiram aos jogos em "fan fests" - enquanto apenas 3,3 milhões compraram ingressos para os estádios. Em São Paulo, a prefeitura analisa realizar esses eventos no vale do Anhangabaú, avenida Paulista, parque do Ibirapuera ou praça Campos de Bagatelle.
Se São Paulo obtiver o direito de sediar a partida de abertura, a cidade teria a chance de se mostrar para o mundo como uma centro turístico e cultural. Nos dias que antecedem o Mundial, a imprensa do mundo inteiro estará na cidade sem partidas oficiais para cobrir e terá tempo para mostrar atrações da cidade, como restaurantes, teatros, museus, cinemas e shoppings.
Outro legado para a cidade - e para o Brasil também - seria a valorização do futebol brasileiro. Estádios maiores e mais confortáveis poderiam atrair um número maior de pessoas, aumentar a receita dos clubes e ajudar a reter craques que hoje migram muito jovens para o exterior.
Os direitos de transmissão dos jogos e os patrocínios aos clubes têm crescido exponencialmente nos últimos anos - e poderiam ter um novo impulso. "A Copa é a grande oportunidade de darmos um novo salto", diz o advogado Ivandro Sanchez, especialista em contratos de futebol do escritório Machado, Meyer, Sendacz e Opice.
O grande obstáculo a ser vencido é a falta de organização do poder público. O Brasil foi confirmado como sede da Copa de 2014 em outubro de 2007 e, de lá para cá, poucos avanços foram vistos. O presidente da CBF, Ricardo Teixeira, esbanja otimismo: "Ainda temos tempo.
A seis anos da Copa, nenhum país no mundo já tinha tudo pronto para o evento." Ele tem razão, mas não há tempo a perder, principalmente em tempos de crise e escassez do crédito.
Fonte: http://portalexame.abril.com.br/economia/dez-obras-copa-podem-mudar-cara-sao-paulo-421263.html
Governos prometem evitar erros do Pan-2007 e deixar como legado da Copa obras que ajudarão a resolver os problemas da cidade
O Pan-2007 é o exemplo de tudo o que o Brasil não deve fazer nos preparativos para a Copa de 2014. Cálculos preliminares do Tribunal de Contas da União mostram que o gasto público para a realização dos jogos no Rio de Janeiro chegaram a 3,6 bilhões de reais - ou 500% a mais que o previsto inicialmente. O Pan mais caro da história não trouxe as benfeitorias que se previa à cidade. O dinheiro foi gasto principalmente na construção de novas instalações esportivas - mesmo quando era possível reformar as existentes.
Considerado o maior "elefante branco" do Pan, o estádio João Havelange (também conhecido como Engenhão), por exemplo, consumiu 380 milhões de reais. O estádio foi construído a poucos quilômetros do Maracanã, em uma zona considerada pouco segura pelos cariocas. Após o Pan-2007, o Engenhão foi concedido ao Botafogo por um prazo de 20 anos em troca de um aluguel mensal de 36 mil reais.
Por esse valor, o poder público levará cerca de 880 anos para recuperar o dinheiro investido. Com a priorização da construção de instalações esportivas, faltou dinheiro para obras importantes para a cidade, como a despoluição da baía de Guanabara e a construção de uma linha de metrô.
Trem-bala e trecho leste do Rodoanel vão exigir enorme esforço As cidades que abrigarão os jogos da Copa só serão confirmadas em 20 de março, mas cinco sedes já são consideradas óbvias: Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre e Brasília. Ao menos em São Paulo, o poder público diz ter aprendido a lição do Pan-2007.
O estádio do Morumbi será reformado com o investimento de 135 milhões pelo São Paulo Futebol Clube e por empresas parceiras - sem a utilização de dinheiro público. Como o projeto aproveita a estrutura já existente, a reforma do Morumbi tem o menor orçamento entre as 17 arenas que ainda concorrem para abrigar partidas da Copa.
Sem a necessidade de gastar com instalações esportivas, o governador José Serra (PSDB) tem afirmado que só vai colocar dinheiro em projetos para a Copa que beneficiem a população, antes e depois do evento. O prefeito Gilberto Kassab (DEM) diz que os investimentos públicos em infra-estrutura na cidade devem alcançar 20 bilhões de reais até 2014.
A maior parte desse dinheiro será utilizada na melhoria da mobilidade urbana, um do grandes defeitos da cidade, segundo a Fifa. "A melhoria da mobilidade urbana é melhor legado que a cidade de São Paulo pode ter da Copa porque aumentaria dramaticamente a produtividade dos trabalhadores e das empresas", diz Fernando Leme Fleury, professor da Business School São Paulo e consultor na área de infra-estrutura.
São Paulo ainda disputa com Brasília e Belo Horizonte o direito de abrigar a partida de abertura da Copa - a final deve ocorrer no Maracanã, principalmente para que o Brasil tenha a chance de sepultar o trauma de perder em casa na final da Copa de 1950.
Entre os pontos fortes de São Paulo, estão a rede hoteleira e hospitalar, a existência de um aeroporto internacional, a maior malha de voos do país, uma polícia treinada para grandes eventos, um centro de negócios importante para patrocinadores e uma mão-de-obra no setor de serviços bastante qualificada. Ainda a favor de São Paulo estão as boas chances de José Serra vencer a eleição presidencial em 2010 e ocupar o cargo de presidente durante a Copa de 2014.
Por outro lado, Brasília não tem problemas de mobilidade urbana comparáveis aos de São Paulo e, como capital do país, abriga o centro de poder político. Por esse motivo, São Paulo apresentou à Fifa um dossiê com 34 cadernos e 28 DVDs em que se compromete a ampliar um de seus aeroportos, construir uma nova avenida nas proximidades do Morumbi e terminar a construção da linha 4-Amarela do Metrô, cuja estação final estará localizada a cerca de 1 km do estádio.
Outras obras que poderão ficar prontas até 2014 e que de alguma forma poderão tornar São Paulo mais preparada para receber a Copa são o Rodoanel, o Expresso Aeroporto, o trem-bala entre Rio e São Paulo, a revitalização da região central da cidade e a Arena Palestra Itália. "É uma grande oportunidade para resolvermos nossos problemas de infra-estrutura", diz o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf.
Além dos ganhos de produtividades gerados pela redução dos congestionamentos, São Paulo também pode ficar com uma boa parte do enorme faturamento que uma Copa costuma trazer a uma cidade. Na Alemanha, apenas o faturamento da Fifa chegou a 8 bilhões de euros. Na África do Sul, os pacotes para assistir a todas as fases do Mundial custam cerca de 30 mil dólares. O dinheiro dos ingressos, da venda dos direitos de transmissão das partidas e das cotas de patrocínio são da Fifa.
As cidades podem faturar alto com o turismo e com a organização das "fan fests" - ou festas em locais públicos onde milhares de pessoas assistem aos jogos em telões. Na Copa da Alemanha, estima-se que 18 milhões de pessoas assistiram aos jogos em "fan fests" - enquanto apenas 3,3 milhões compraram ingressos para os estádios. Em São Paulo, a prefeitura analisa realizar esses eventos no vale do Anhangabaú, avenida Paulista, parque do Ibirapuera ou praça Campos de Bagatelle.
Se São Paulo obtiver o direito de sediar a partida de abertura, a cidade teria a chance de se mostrar para o mundo como uma centro turístico e cultural. Nos dias que antecedem o Mundial, a imprensa do mundo inteiro estará na cidade sem partidas oficiais para cobrir e terá tempo para mostrar atrações da cidade, como restaurantes, teatros, museus, cinemas e shoppings.
Outro legado para a cidade - e para o Brasil também - seria a valorização do futebol brasileiro. Estádios maiores e mais confortáveis poderiam atrair um número maior de pessoas, aumentar a receita dos clubes e ajudar a reter craques que hoje migram muito jovens para o exterior.
Os direitos de transmissão dos jogos e os patrocínios aos clubes têm crescido exponencialmente nos últimos anos - e poderiam ter um novo impulso. "A Copa é a grande oportunidade de darmos um novo salto", diz o advogado Ivandro Sanchez, especialista em contratos de futebol do escritório Machado, Meyer, Sendacz e Opice.
O grande obstáculo a ser vencido é a falta de organização do poder público. O Brasil foi confirmado como sede da Copa de 2014 em outubro de 2007 e, de lá para cá, poucos avanços foram vistos. O presidente da CBF, Ricardo Teixeira, esbanja otimismo: "Ainda temos tempo.
A seis anos da Copa, nenhum país no mundo já tinha tudo pronto para o evento." Ele tem razão, mas não há tempo a perder, principalmente em tempos de crise e escassez do crédito.
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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
O fetiche da grana
O fetiche da grana
Fonte: http://www.cartacapital.com.br/app/coluna.jsp?a=2&a2=5&i=3435
Por Sócrates, na Carta Capital
A dificuldade de administrar equipes com muitos craques de mesmo nível de excelência, como o Real Madrid de alguns anos atrás, é desnudada a cada tentativa de criação de esquadrões por meio da simples avaliação da capacidade individual dos jogadores a serem contratados. O resultado em geral é muito distante do imaginado; uma realidade que a maioria insiste em não ver, ainda que de tão flagrante torne-se difícil não perceber: não basta um cofre cheio de dinheiro para montar um time imbatível.
Primeiro, porque não existe time sempre vencedor em futebol, mas principalmente porque, para chegar perto desse objetivo, é necessário uma série de fatores conjuntos. Muitos deles estão impossíveis de ser monitorados por quem quer que seja. São fenômenos decorrentes da própria falibilidade humana.
Todos nós sofremos incontáveis influências capazes de nos transformar cotidianamente, o que nos coloca a cada momento em confronto com os sentimentos vividos em um instante imediatamente anterior. Se hoje estamos bem e em paz, amanhã poderemos estar irritadiços, destilando agressividade.
O mesmo acontece em um time de futebol. Podemos ter, em teoria, um excepcional time, o qual, na prática, não deslancha. Até porque isso depende de como os colegas de trabalho se relacionam. E o bem-estar coletivo exige doação de todos os envolvidos. Sem ela, nada feito. Nem com todos os dólares produzidos pela casa da moeda americana até hoje.
Por outro lado, quando se reúnem em um mesmo time atletas com ambições semelhantes e espírito comunitário em alta, vemos um resultado muito bom. Existe um real altruísmo que passa a comandar as relações interpessoais, gerando bem-estar e, consequentemente, uma extraordinária produção técnica, compatível com o desejável para a instituição.
É o que vejo na atual equipe do Palmeiras. Comparando-se os elencos de 2008 e 2009, percebe-se uma brutal diferença de comportamento. O time do ano passado era individualista e egoísta, características que destroem qualquer sonho de grandes realizações. O atual parece unido o suficiente para conquistar o que quer que se pretenda. Respeitando-se, é claro, a capacidade técnica dos adversários, que, quando superior, aumentará a dificuldade de que isso ocorra ou mesmo a impossibilidade.
É necessário, entretanto, estar atento a uma das maiores fraquezas humanas, a de acharmos que podemos ser Deus ou nos aproximar do que Ele representa. Quando nos encontramos em situação superior, por qualquer motivo nem sempre palpável, temos a inclinação de menosprezar, desprezar, intimidar e minimizar o restante da humanidade. Perdemos, nesse momento, a capacidade de discernir exatamente quem somos e o que representamos. Além de nos aflorar o direito de achar que somos diferentes e melhores que os demais.
Nada mais cego do que esse tipo de sentimento. Felizmente, o passo a passo da vida, invariavelmente, nos devolve os pés ao chão com uma rapidez impressionante. Por nos tirar a vitória que achávamos conquistada e expor a nossa mediocridade e insensatez. Todos estamos sujeitos a isso e no esporte não é diferente. O time do Palmeiras não pode cair nessa armadilha. Deve ficar de olhos e ouvidos bem atentos. A soberba atropela quem a veste.
::
Carnaval, a nossa festa maior
Carnaval é sempre uma festa. A alegria deste período compensa razoavelmente o sofrimento por que passa boa parte de nossa gente. Gente essa que, na verdade, é quem faz a folia deslanchar ao contaminar todo mundo.
É uma festa democrática que permite a plena integração de todas as classes sociais – absurdamente desproporcionais em nossa terra. Nela, demonstramos tudo o que somos. Criatividade, alegria, descontração e muita disposição para enfrentar os dias de farra. Pena que o período de festas seja curto e logo voltemos à realidade.
Há sempre uma correlação possível entre futebol e o carnaval. Correm mais ou menos juntos. Quase todos os anos há algum enredo de escola de samba a se referir ao futebol. São partes principais de nossa cultura. Neles nos identificamos e nos irmanamos.
Minhas lembranças mais fortes da iniciação social vêm dos bailes de carnaval. Era o ponto de encontro mais importante de minha juventude. As fortes relações sociais advindas desse tempo se perpetuaram. No futebol, não foi diferente. Grandes amizades e amores nascem nesses poucos dias. Temos todos de aproveitar o melhor desta nossa festa maior.
Fonte: http://www.cartacapital.com.br/app/coluna.jsp?a=2&a2=5&i=3435
Por Sócrates, na Carta Capital
A dificuldade de administrar equipes com muitos craques de mesmo nível de excelência, como o Real Madrid de alguns anos atrás, é desnudada a cada tentativa de criação de esquadrões por meio da simples avaliação da capacidade individual dos jogadores a serem contratados. O resultado em geral é muito distante do imaginado; uma realidade que a maioria insiste em não ver, ainda que de tão flagrante torne-se difícil não perceber: não basta um cofre cheio de dinheiro para montar um time imbatível.
Primeiro, porque não existe time sempre vencedor em futebol, mas principalmente porque, para chegar perto desse objetivo, é necessário uma série de fatores conjuntos. Muitos deles estão impossíveis de ser monitorados por quem quer que seja. São fenômenos decorrentes da própria falibilidade humana.
Todos nós sofremos incontáveis influências capazes de nos transformar cotidianamente, o que nos coloca a cada momento em confronto com os sentimentos vividos em um instante imediatamente anterior. Se hoje estamos bem e em paz, amanhã poderemos estar irritadiços, destilando agressividade.
O mesmo acontece em um time de futebol. Podemos ter, em teoria, um excepcional time, o qual, na prática, não deslancha. Até porque isso depende de como os colegas de trabalho se relacionam. E o bem-estar coletivo exige doação de todos os envolvidos. Sem ela, nada feito. Nem com todos os dólares produzidos pela casa da moeda americana até hoje.
Por outro lado, quando se reúnem em um mesmo time atletas com ambições semelhantes e espírito comunitário em alta, vemos um resultado muito bom. Existe um real altruísmo que passa a comandar as relações interpessoais, gerando bem-estar e, consequentemente, uma extraordinária produção técnica, compatível com o desejável para a instituição.
É o que vejo na atual equipe do Palmeiras. Comparando-se os elencos de 2008 e 2009, percebe-se uma brutal diferença de comportamento. O time do ano passado era individualista e egoísta, características que destroem qualquer sonho de grandes realizações. O atual parece unido o suficiente para conquistar o que quer que se pretenda. Respeitando-se, é claro, a capacidade técnica dos adversários, que, quando superior, aumentará a dificuldade de que isso ocorra ou mesmo a impossibilidade.
É necessário, entretanto, estar atento a uma das maiores fraquezas humanas, a de acharmos que podemos ser Deus ou nos aproximar do que Ele representa. Quando nos encontramos em situação superior, por qualquer motivo nem sempre palpável, temos a inclinação de menosprezar, desprezar, intimidar e minimizar o restante da humanidade. Perdemos, nesse momento, a capacidade de discernir exatamente quem somos e o que representamos. Além de nos aflorar o direito de achar que somos diferentes e melhores que os demais.
Nada mais cego do que esse tipo de sentimento. Felizmente, o passo a passo da vida, invariavelmente, nos devolve os pés ao chão com uma rapidez impressionante. Por nos tirar a vitória que achávamos conquistada e expor a nossa mediocridade e insensatez. Todos estamos sujeitos a isso e no esporte não é diferente. O time do Palmeiras não pode cair nessa armadilha. Deve ficar de olhos e ouvidos bem atentos. A soberba atropela quem a veste.
::
Carnaval, a nossa festa maior
Carnaval é sempre uma festa. A alegria deste período compensa razoavelmente o sofrimento por que passa boa parte de nossa gente. Gente essa que, na verdade, é quem faz a folia deslanchar ao contaminar todo mundo.
É uma festa democrática que permite a plena integração de todas as classes sociais – absurdamente desproporcionais em nossa terra. Nela, demonstramos tudo o que somos. Criatividade, alegria, descontração e muita disposição para enfrentar os dias de farra. Pena que o período de festas seja curto e logo voltemos à realidade.
Há sempre uma correlação possível entre futebol e o carnaval. Correm mais ou menos juntos. Quase todos os anos há algum enredo de escola de samba a se referir ao futebol. São partes principais de nossa cultura. Neles nos identificamos e nos irmanamos.
Minhas lembranças mais fortes da iniciação social vêm dos bailes de carnaval. Era o ponto de encontro mais importante de minha juventude. As fortes relações sociais advindas desse tempo se perpetuaram. No futebol, não foi diferente. Grandes amizades e amores nascem nesses poucos dias. Temos todos de aproveitar o melhor desta nossa festa maior.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
Milhões pegos por um fio
Milhões pegos por um fio
Por MARCELO DAMATO
http://blogs.lancenet.com.br/alemdojogo/
O presidente do Palmeiras, Luiz Gonzaga Belluzzo, mandou o Conselho de Fiscalização apurar responsabilidades de um contrato que poderia causar um gasto milionário aos cofres do Palmeiras.
Membros da comissão de obras do estádio, um deles vice-presidente, outro diretor e outro ex-presidente, firmaram um contrato com um sócio para que ele prestasse “consultoria de obra” durante a reforma do Parque Antártica.
Pelo contrato, o sócio João Carlos Mansur, que foi intermediário na negociação entre o Palmeiras e a WTorre, iria receber R$ 25 mil por mês do clube até o início das obras, o que deve ocorrer daqui a seis meses, e R$ 75 mil por mês durante os trabalhos, cuja duração prevista é de 30 meses.
No total, deveria receber cerca de R$ 2,4 milhões. O contrato, entretanto, não foi assinado pelo presidente do clube na época, Affonso Della Monica, e assim, segundo a atual diretoria, não tem validade.
Mesmo com o contrato sem a assinatura do presidente do clube, Mansur já recebeu o primeiro pagamento, de R$ 25 mil, em janeiro, ainda no mandato de Affonso Della Monica. Quem autorizou o pagamento foram então diretor administrativo (hoje no planejamento) José Ciryllo Júnior e o então diretor financeiro Salvador Palaia, ambos membros da comissão do estádio.
Belluzzo descobriu o acordo quando foi apresentada a segunda nota, que não foi paga. Nesta segunda-feira, o caso foi remetido pelo presidente para o Conselho de Orientação e Fiscalização, o COF.
Segundo Mansur, o contrato foi fechado com Palaia, Ciryllo e com o ex-presidente Carlos Facchina Nunes, o outro membro da comissão. A explicação dos diretores é que eles acham que tinham autonomia para fazer esse acordo e realizar essa despesa.
Mansur, por sua vez, não quis dar nenhum detalhe do acordo, nem quis confirmar se recebeu o dinheiro. Alegou que o contrato era sigiloso.
O acordo parece mesmo ter sido sigiloso. Segundo o blog apurou, além de Belluzzo, Della Monica tampouco sabia oficialmente sobre ele. Ele chegou a ser informado de que havia uma negociação em andamento, mas a desautorizou. E, para ele, depois o caso morreu.
Belluzzo disse que o que foi feito é irregular.
“Eu não estou fazendo ilação nenhuma de que tenha havido desonestidade nesse contrato. Apenas digo que não se poderia mandar pagar num contrato sem assinatura do presidente. E esse contrato não interessa ao Palmeiras. Portanto, não será assinado”, disse Belluzzo.
Belluzzo disse que tomará providências para recuperar o dinheiro já pago.
E afirmou que contratará uma auditoria para rever todos os contratos assinados nos últimos dois anos.
OUTRO LADO
O vice-presidente Salvador Palaia deu “parabéns” à decisão de Belluzzo de levar o caso ao COF. Palaia disse que o contrato é legal é que foi assinado mesmo por ele, Facchina e Cyrillo. Afirma que a comissão tem poder para isso.
Palaia confirma que mandou pagar a primeira nota, mas disse que além dele a nota foi assinada por Ebem Gualtieri, ex-quarto vice-presidente.
Palaia, para deixar enfatizar que não se sente ameaçado pelo exame do contrato pelo COF, declarou. “O contrato foi levado para o COF, não para a polícia”.
O blog não conseguiu contactar Cyrillo e Facchina até este momento.
Por MARCELO DAMATO
http://blogs.lancenet.com.br/alemdojogo/
O presidente do Palmeiras, Luiz Gonzaga Belluzzo, mandou o Conselho de Fiscalização apurar responsabilidades de um contrato que poderia causar um gasto milionário aos cofres do Palmeiras.
Membros da comissão de obras do estádio, um deles vice-presidente, outro diretor e outro ex-presidente, firmaram um contrato com um sócio para que ele prestasse “consultoria de obra” durante a reforma do Parque Antártica.
Pelo contrato, o sócio João Carlos Mansur, que foi intermediário na negociação entre o Palmeiras e a WTorre, iria receber R$ 25 mil por mês do clube até o início das obras, o que deve ocorrer daqui a seis meses, e R$ 75 mil por mês durante os trabalhos, cuja duração prevista é de 30 meses.
No total, deveria receber cerca de R$ 2,4 milhões. O contrato, entretanto, não foi assinado pelo presidente do clube na época, Affonso Della Monica, e assim, segundo a atual diretoria, não tem validade.
Mesmo com o contrato sem a assinatura do presidente do clube, Mansur já recebeu o primeiro pagamento, de R$ 25 mil, em janeiro, ainda no mandato de Affonso Della Monica. Quem autorizou o pagamento foram então diretor administrativo (hoje no planejamento) José Ciryllo Júnior e o então diretor financeiro Salvador Palaia, ambos membros da comissão do estádio.
Belluzzo descobriu o acordo quando foi apresentada a segunda nota, que não foi paga. Nesta segunda-feira, o caso foi remetido pelo presidente para o Conselho de Orientação e Fiscalização, o COF.
Segundo Mansur, o contrato foi fechado com Palaia, Ciryllo e com o ex-presidente Carlos Facchina Nunes, o outro membro da comissão. A explicação dos diretores é que eles acham que tinham autonomia para fazer esse acordo e realizar essa despesa.
Mansur, por sua vez, não quis dar nenhum detalhe do acordo, nem quis confirmar se recebeu o dinheiro. Alegou que o contrato era sigiloso.
O acordo parece mesmo ter sido sigiloso. Segundo o blog apurou, além de Belluzzo, Della Monica tampouco sabia oficialmente sobre ele. Ele chegou a ser informado de que havia uma negociação em andamento, mas a desautorizou. E, para ele, depois o caso morreu.
Belluzzo disse que o que foi feito é irregular.
“Eu não estou fazendo ilação nenhuma de que tenha havido desonestidade nesse contrato. Apenas digo que não se poderia mandar pagar num contrato sem assinatura do presidente. E esse contrato não interessa ao Palmeiras. Portanto, não será assinado”, disse Belluzzo.
Belluzzo disse que tomará providências para recuperar o dinheiro já pago.
E afirmou que contratará uma auditoria para rever todos os contratos assinados nos últimos dois anos.
OUTRO LADO
O vice-presidente Salvador Palaia deu “parabéns” à decisão de Belluzzo de levar o caso ao COF. Palaia disse que o contrato é legal é que foi assinado mesmo por ele, Facchina e Cyrillo. Afirma que a comissão tem poder para isso.
Palaia confirma que mandou pagar a primeira nota, mas disse que além dele a nota foi assinada por Ebem Gualtieri, ex-quarto vice-presidente.
Palaia, para deixar enfatizar que não se sente ameaçado pelo exame do contrato pelo COF, declarou. “O contrato foi levado para o COF, não para a polícia”.
O blog não conseguiu contactar Cyrillo e Facchina até este momento.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
O diabo não é Deus
O diabo não é Deus
Por SÓCRATES
http://www.cartacapital.com.br/app/coluna.jsp?a=2&a2=5&i=3382
Certa vez, ao ver determinado bigode no Palácio do Planalto, com a naturalidade que lhe é peculiar, não sei exatamente por que, lembrei de outra figura que adorou usar aquele espaço. Em vinte anos, esses dois personagens de nossa história protagonizaram momentos marcantes da nação.
Um, o presidente Collor, parece ter surgido do nada. Com um discurso populista, aproveitando o vazio provocado pelo então recente processo de redemocratização do País, soube como encantar os donos do poder desta República, tão dados à preservação de seus privilégios e responsáveis por nossos fantásticos índices de exclusão social. Arregimentou os mais importantes eleitores, que tudo fizeram para colocá-lo no Planalto. Grana e mídia, infelizmente, ainda continuam fazendo presidentes por aqui (ainda que hoje tenhamos por lá um ex-torneiro mecânico).
Além disso, sua absoluta insensatez o fez utilizar todas as formas de golpes baixos para derrotar nossos sonhos de um país melhor. A primeira aparição, nos idos de 1990, com a faixa verde-amarela, já mostrava a sua personalidade. Uma aposta que dera certo. Aposta mesmo, pois ninguém sabia do que ele seria (in)capaz. No fundo, bastava afastar o “perigo” que se avizinhara (o mesmo Lula hoje presidente). Com os olhos alterados por excesso de adrenalina, bradava ao infinito.
O primeiro ato foi fruto de uma loucura extemporânea, corroborada pela cegueira de nossos parlamentares, os quais não se deram ao luxo de analisar o conteúdo e a profundidade do descalabro. Pobre povo brasileiro, nem representado é! Ficamos com os nossos parcos 50 dinheiros, enquanto os poderosos se deliciavam com as sobras que ofertamos.
Cercou-se do que mais bruto possuíamos. Outro bigode maltratado passava insistentemente o chapéu por todas as nossas esquinas industriais. O cofre, como o seu dono, não parava de engordar.
Naqueles poucos anos, o País foi usado para fins tão escusos que mais parecia um bordel. Dos de mais baixo nível. Gradativamente, seus avalistas se deram conta de que a sangria era muito maior do que estavam preparados para suportar. Como a bancarrota era coisa de tempo, resolveram afastá-lo. E assim se fez. Desmascarado em toda a sua essência, desceu a rampa como se fosse um mártir, acusando-nos de crueldade. Como se nada de mal houvera feito.
O outro, Felipão, surgiu alguns anos depois e se fez respeitado. Desde longa data, era tido como um dos mais capazes para comandar a seleção nacional. Depois do naufrágio de duas gestões discutíveis, foi alçado à condição de comandante, com plena sanção popular – ah, se conhecesse de política como conhece de futebol! Pegou um rabo de foguete que parecia sem solução.
Depois de alguns sofridos meses em que se deparou com inúmeros problemas, viu-se tão perdido que resolveu utilizar os seus próprios métodos. Com isso, tocou em alguns interesses, que tentaram reagir de forma sôfrega. A campanha sofrida para reavaliar as suas convicções foi até certo ponto irracional. Bancada pelos mesmos donos do poder que levaram tanta gente ao purgatório quando não atendidos. Manteve-se firme, mas quase caiu do posto.
Felipão havia detectado a solução e colocara em prática um plano que passava ao largo da pequenez de algumas figuras até então soberanas. Cercado de jovens para irrigar de pureza a acomodação e aspereza dos mais antigos. Criou uma nova sociedade. Com a sua cara, o seu jeito e caráter. Apostou nessa determinada qualidade. Por isso, relevou algumas outras potencialidades clamadas pelos que conhecem do assunto.
Escolheu o caminho mais difícil, talvez o único. Pelo menos em suas teses. Quem poderá, agora, saber das possíveis consequências de outras opções? Mesmo com todas as limitações do que tinha em mãos, foi maior do que os demais. Não importa que estivessem em péssimas condições. Ele também esteve, mas conseguiu encontrar uma saída e venceu o grande desafio.
Hoje, o destino se inverte: muitos anos após, aquele que foi apeado do poder volta ao Parlamento pelo voto popular. O outro acaba de ser demitido por um clube que raramente demite seus técnicos, mesmo depois de ter tido sucesso em todas as estruturas por onde passou. O que mudou? Será que alguém se transforma como por encanto em outra pessoa absolutamente diferente? Não creio. Acredito sim na nossa eterna incapacidade de avaliar o ser humano em sua plenitude: o santo não pode virar diabo, assim como o diabo não é Deus.
Por SÓCRATES
http://www.cartacapital.com.br/app/coluna.jsp?a=2&a2=5&i=3382
Certa vez, ao ver determinado bigode no Palácio do Planalto, com a naturalidade que lhe é peculiar, não sei exatamente por que, lembrei de outra figura que adorou usar aquele espaço. Em vinte anos, esses dois personagens de nossa história protagonizaram momentos marcantes da nação.
Um, o presidente Collor, parece ter surgido do nada. Com um discurso populista, aproveitando o vazio provocado pelo então recente processo de redemocratização do País, soube como encantar os donos do poder desta República, tão dados à preservação de seus privilégios e responsáveis por nossos fantásticos índices de exclusão social. Arregimentou os mais importantes eleitores, que tudo fizeram para colocá-lo no Planalto. Grana e mídia, infelizmente, ainda continuam fazendo presidentes por aqui (ainda que hoje tenhamos por lá um ex-torneiro mecânico).
Além disso, sua absoluta insensatez o fez utilizar todas as formas de golpes baixos para derrotar nossos sonhos de um país melhor. A primeira aparição, nos idos de 1990, com a faixa verde-amarela, já mostrava a sua personalidade. Uma aposta que dera certo. Aposta mesmo, pois ninguém sabia do que ele seria (in)capaz. No fundo, bastava afastar o “perigo” que se avizinhara (o mesmo Lula hoje presidente). Com os olhos alterados por excesso de adrenalina, bradava ao infinito.
O primeiro ato foi fruto de uma loucura extemporânea, corroborada pela cegueira de nossos parlamentares, os quais não se deram ao luxo de analisar o conteúdo e a profundidade do descalabro. Pobre povo brasileiro, nem representado é! Ficamos com os nossos parcos 50 dinheiros, enquanto os poderosos se deliciavam com as sobras que ofertamos.
Cercou-se do que mais bruto possuíamos. Outro bigode maltratado passava insistentemente o chapéu por todas as nossas esquinas industriais. O cofre, como o seu dono, não parava de engordar.
Naqueles poucos anos, o País foi usado para fins tão escusos que mais parecia um bordel. Dos de mais baixo nível. Gradativamente, seus avalistas se deram conta de que a sangria era muito maior do que estavam preparados para suportar. Como a bancarrota era coisa de tempo, resolveram afastá-lo. E assim se fez. Desmascarado em toda a sua essência, desceu a rampa como se fosse um mártir, acusando-nos de crueldade. Como se nada de mal houvera feito.
O outro, Felipão, surgiu alguns anos depois e se fez respeitado. Desde longa data, era tido como um dos mais capazes para comandar a seleção nacional. Depois do naufrágio de duas gestões discutíveis, foi alçado à condição de comandante, com plena sanção popular – ah, se conhecesse de política como conhece de futebol! Pegou um rabo de foguete que parecia sem solução.
Depois de alguns sofridos meses em que se deparou com inúmeros problemas, viu-se tão perdido que resolveu utilizar os seus próprios métodos. Com isso, tocou em alguns interesses, que tentaram reagir de forma sôfrega. A campanha sofrida para reavaliar as suas convicções foi até certo ponto irracional. Bancada pelos mesmos donos do poder que levaram tanta gente ao purgatório quando não atendidos. Manteve-se firme, mas quase caiu do posto.
Felipão havia detectado a solução e colocara em prática um plano que passava ao largo da pequenez de algumas figuras até então soberanas. Cercado de jovens para irrigar de pureza a acomodação e aspereza dos mais antigos. Criou uma nova sociedade. Com a sua cara, o seu jeito e caráter. Apostou nessa determinada qualidade. Por isso, relevou algumas outras potencialidades clamadas pelos que conhecem do assunto.
Escolheu o caminho mais difícil, talvez o único. Pelo menos em suas teses. Quem poderá, agora, saber das possíveis consequências de outras opções? Mesmo com todas as limitações do que tinha em mãos, foi maior do que os demais. Não importa que estivessem em péssimas condições. Ele também esteve, mas conseguiu encontrar uma saída e venceu o grande desafio.
Hoje, o destino se inverte: muitos anos após, aquele que foi apeado do poder volta ao Parlamento pelo voto popular. O outro acaba de ser demitido por um clube que raramente demite seus técnicos, mesmo depois de ter tido sucesso em todas as estruturas por onde passou. O que mudou? Será que alguém se transforma como por encanto em outra pessoa absolutamente diferente? Não creio. Acredito sim na nossa eterna incapacidade de avaliar o ser humano em sua plenitude: o santo não pode virar diabo, assim como o diabo não é Deus.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
Estudo sobre jogadores emigrantes
Estudo sobre jogadores emigrantes
http://www.ufv.br/des/futebol/noticia_0120.html
Foi divulgado um trabalho sobre os jogadores de futebol brasileiro classificados como emigrantes que merece uma análise bem criteriosa.
Segue o texto:
Agência Fapesp
Especiais Emigrantes de chuteiras
3/11/2008
*Por Alex Sander Alcântara*
*Agência FAPESP* – Entre os milhões de brasileiros atualmente residem no exterior, há cerca de 5 mil jogadores de futebol. Um estudo feito na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) traçou o perfil dos emigrantes de chuteiras e constatou que eles vivem em condições tão especiais que não chegam a ser considerados imigrantes nos países de destino.
A pesquisa, publicada na revista *Horizontes Antropológicos*, aponta ainda que os jogadores emigram cada vez mais jovens, normalmente são os caçulas da família e, em grande parte, são evangélicos. A autora, Carmen Silvia Rial, é professora do Departamento de Antropologia da UFSC
O ato de emigrar para jogar em clubes do exterior – ou "rodar", na linguagem futebolística, é classificado como "circulação" no estudo, já que os jogadores estão em outros países de passagem, de acordo com a antropóloga. "Eles não se consideram e não são considerados como imigrantes. Suas referências de fronteiras simbólicas não são as nacionais ou locais, mas as dos clubes", disse Carmen à *Agência FAPESP*. Segundo ela, essa circulação ocorre em circuitos particulares, que podem abranger diversos Estados-nações, sem que suas fronteiras sejam especialmente relevantes. A primeira característica que se diferencia esse grupo dos emigrantes é o registro, mais preciso do que nos casos de emigração convencional.
"Não há dados precisos sobre a emigração no Brasil, porque grande parte das pessoas sai sem declarar. No caso dos jogadores de futebol isso não ocorre. Todo esse fluxo é registrado. Embora esses jogadores venham, em grande parte, das camadas médias e subalternas, com perfil parecido dos emigrantes que normalmente saem do país, eles não são vistos como imigrantes lá fora, mas contam com um estatuto especial", disse.
De acordo com Carmen, o perfil desses jogadores em nada se aproxima do imigrante que aparece na mídia estrangeira – rótulo geralmente impingido com teor pejorativo. Normalmente, segundo ela, o termo é empregado para designar os trabalhadores braçais e é associado ao crime e à ilegalidade. "Em reportagens sobre imigração, os jogadores são invisíveis nas matérias. Nem os próprios jogadores se identificam como imigrantes nos países onde estão jogando", afirmou.
"Há uma grande distância entre o estatuto do jogador de futebol e o que se considera imigrante nos países de destino, mas, por outro lado, há uma proximidade com outros tipos de circulação hoje no mundo. Intelectuais e estudantes que vão fazer doutorado e pós-doutorado no exterior não são vistos como imigrantes e eles também não se representam de modo", disse.
A idéia de emigração hoje, afirma a pesquisadora, "precisa ser repensada para incluir essas pessoas que circulam pelo planeta sem corresponder ao perfil daqueles que rompem vínculos e referências familiares e nacionais".
A pesquisa, iniciada em 2003, partiu da perspectiva dos jogadores brasileiros no exterior. Participaram cerca de 40 jogadores que viviam ou haviam vivido e exercido sua profissão no exterior – muitos deles em mais de dois países. De acordo com a pesquisadora, o estudo etnográfico se concentrou nas cidades de Sevilha (Espanha) e Eindhoven, na Holanda.
"Também conversei com muitos de seus familiares, amigos, empresários, técnicos e secretários diversos, realizei entrevistas, assisti a treinos e a jogos, visitei seus restaurantes preferidos e algumas de suas casas no Canadá, Holanda, Japão e também no Brasil. E mantive longas conversas telefônicas com jogadores e seus familiares na França, Mônaco e Bélgica", explica Carmen, que atualmente escreve um livro sobre o tema.
*Caçulas e evangélicos*
O estudo aponta que cerca de 90% dos entrevistados que migraram são provenientes de camadas com menores faixas de renda. A maioria dos jogadores entrevistados tinha apenas o primário, e uma parcela de cerca de 10%
conseguiu terminar o secundário. Apenas duas entre as esposas concluíram o terceiro grau, mas segundo o estudo "há uma tendência de que as mulheres apresentem uma escolaridade maior do que a dos jogadores".
O perfil identifica ainda que os jogadores receberam apoio familiar e, em geral, são os caçulas da casa. Um dado que chamou a atenção, segundo Carmen, diz respeito à prática religiosa. "É interessante como Deus – e não a religião – é um valor central na vida deles, em sua grande maioria, evangélicos."
De acordo com a pesquisadora, uma das hipóteses para explicar a centralidade da fé é que a situação de vida do jogador muda radicalmente em pouco tempo.
"Eles precisam de algum tipo de auxílio externo que os ajude a elaborar esse tipo de situação, que dêem alguma explicação. Eles encontram na religião esse campo onde se sentem amparados", apontou.
Segundo o estudo, é no consumo cotidiano em que se percebe mais claramente a dimensão da "identidade nacional" nesses jogadores. Os altos salários recebidos pelos jogadores na Europa e no Japão não se refletem em consumos ostentatórios. Seus hábitos, afirma o artigo, "aproximam-se mais os de uma camada média-alta do que da faixa dos milionários, que são efetivamente. Não transitam em aviões particulares, não possuem iates, não passam as férias em ilhas particulares, nem freqüentam restaurantes de luxo."
"Eles moram em casas espaçosas localizadas em bairros nobres – geralmente os
que concentram grande número de jogadores de futebol –, mas não vi na decoração das casas nenhuma grande extravagância. Continuam a vestir-se como os jovens de sua idade, com tênis, jeans e camisetas, a comer em casa ou em restaurantes que sirvam comida próxima da brasileira", disse.
Os únicos consumos de luxo recorrentes entre eles, acrescenta, são "os automóveis, sempre carros novos de luxo, mas às vezes fornecidos pelo próprio clube, os brincos de diamantes ou as invariáveis *trousses de toilette* Louis Vuitton".
A autora diz que, ao contrário do que se vê um pouco na mídia ou do que torcedores brasileiros imaginam, esses jogadores não se europeizaram.
"Eles
continuam sendo muito nacionalistas, tendo o Brasil como principal referência, e no seu cotidiano o país é extremamente presente".
A pesquisadora destaca a efemeridade de suas permanências nas instituições de trabalho e nos países no exterior e caracteriza essa emigração como uma "circulação", que poderia ser chave explicativa para a manutenção desse sentimento nacional. Segundo ela, o estudo terá continuidade. Mas com outro
foco.
"Trabalhei muito com celebridades, com jogadores que tiveram carreiras de sucesso no exterior em clubes globais, e menos com os desconhecidos, que estão em outra faixa salarial. Quero agora focar nesse grupo que está no exterior, mas que não tem a mesma trajetória de sucesso, anônimos para nós brasileiros, que estão em clubes menores e periféricos. E também focar nos que já retornaram", disse.
Para ler o artigo *Rodar: a circulação dos jogadores de futebol brasileiros no exterior *, de Carmen Silvia Rial, disponível na biblioteca on-line
SciELO (Bireme/FAPESP), *clique aqui: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-71832008000200002&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt
http://www.ufv.br/des/futebol/noticia_0120.html
Foi divulgado um trabalho sobre os jogadores de futebol brasileiro classificados como emigrantes que merece uma análise bem criteriosa.
Segue o texto:
Agência Fapesp
Especiais Emigrantes de chuteiras
3/11/2008
*Por Alex Sander Alcântara*
*Agência FAPESP* – Entre os milhões de brasileiros atualmente residem no exterior, há cerca de 5 mil jogadores de futebol. Um estudo feito na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) traçou o perfil dos emigrantes de chuteiras e constatou que eles vivem em condições tão especiais que não chegam a ser considerados imigrantes nos países de destino.
A pesquisa, publicada na revista *Horizontes Antropológicos*, aponta ainda que os jogadores emigram cada vez mais jovens, normalmente são os caçulas da família e, em grande parte, são evangélicos. A autora, Carmen Silvia Rial, é professora do Departamento de Antropologia da UFSC
O ato de emigrar para jogar em clubes do exterior – ou "rodar", na linguagem futebolística, é classificado como "circulação" no estudo, já que os jogadores estão em outros países de passagem, de acordo com a antropóloga. "Eles não se consideram e não são considerados como imigrantes. Suas referências de fronteiras simbólicas não são as nacionais ou locais, mas as dos clubes", disse Carmen à *Agência FAPESP*. Segundo ela, essa circulação ocorre em circuitos particulares, que podem abranger diversos Estados-nações, sem que suas fronteiras sejam especialmente relevantes. A primeira característica que se diferencia esse grupo dos emigrantes é o registro, mais preciso do que nos casos de emigração convencional.
"Não há dados precisos sobre a emigração no Brasil, porque grande parte das pessoas sai sem declarar. No caso dos jogadores de futebol isso não ocorre. Todo esse fluxo é registrado. Embora esses jogadores venham, em grande parte, das camadas médias e subalternas, com perfil parecido dos emigrantes que normalmente saem do país, eles não são vistos como imigrantes lá fora, mas contam com um estatuto especial", disse.
De acordo com Carmen, o perfil desses jogadores em nada se aproxima do imigrante que aparece na mídia estrangeira – rótulo geralmente impingido com teor pejorativo. Normalmente, segundo ela, o termo é empregado para designar os trabalhadores braçais e é associado ao crime e à ilegalidade. "Em reportagens sobre imigração, os jogadores são invisíveis nas matérias. Nem os próprios jogadores se identificam como imigrantes nos países onde estão jogando", afirmou.
"Há uma grande distância entre o estatuto do jogador de futebol e o que se considera imigrante nos países de destino, mas, por outro lado, há uma proximidade com outros tipos de circulação hoje no mundo. Intelectuais e estudantes que vão fazer doutorado e pós-doutorado no exterior não são vistos como imigrantes e eles também não se representam de modo", disse.
A idéia de emigração hoje, afirma a pesquisadora, "precisa ser repensada para incluir essas pessoas que circulam pelo planeta sem corresponder ao perfil daqueles que rompem vínculos e referências familiares e nacionais".
A pesquisa, iniciada em 2003, partiu da perspectiva dos jogadores brasileiros no exterior. Participaram cerca de 40 jogadores que viviam ou haviam vivido e exercido sua profissão no exterior – muitos deles em mais de dois países. De acordo com a pesquisadora, o estudo etnográfico se concentrou nas cidades de Sevilha (Espanha) e Eindhoven, na Holanda.
"Também conversei com muitos de seus familiares, amigos, empresários, técnicos e secretários diversos, realizei entrevistas, assisti a treinos e a jogos, visitei seus restaurantes preferidos e algumas de suas casas no Canadá, Holanda, Japão e também no Brasil. E mantive longas conversas telefônicas com jogadores e seus familiares na França, Mônaco e Bélgica", explica Carmen, que atualmente escreve um livro sobre o tema.
*Caçulas e evangélicos*
O estudo aponta que cerca de 90% dos entrevistados que migraram são provenientes de camadas com menores faixas de renda. A maioria dos jogadores entrevistados tinha apenas o primário, e uma parcela de cerca de 10%
conseguiu terminar o secundário. Apenas duas entre as esposas concluíram o terceiro grau, mas segundo o estudo "há uma tendência de que as mulheres apresentem uma escolaridade maior do que a dos jogadores".
O perfil identifica ainda que os jogadores receberam apoio familiar e, em geral, são os caçulas da casa. Um dado que chamou a atenção, segundo Carmen, diz respeito à prática religiosa. "É interessante como Deus – e não a religião – é um valor central na vida deles, em sua grande maioria, evangélicos."
De acordo com a pesquisadora, uma das hipóteses para explicar a centralidade da fé é que a situação de vida do jogador muda radicalmente em pouco tempo.
"Eles precisam de algum tipo de auxílio externo que os ajude a elaborar esse tipo de situação, que dêem alguma explicação. Eles encontram na religião esse campo onde se sentem amparados", apontou.
Segundo o estudo, é no consumo cotidiano em que se percebe mais claramente a dimensão da "identidade nacional" nesses jogadores. Os altos salários recebidos pelos jogadores na Europa e no Japão não se refletem em consumos ostentatórios. Seus hábitos, afirma o artigo, "aproximam-se mais os de uma camada média-alta do que da faixa dos milionários, que são efetivamente. Não transitam em aviões particulares, não possuem iates, não passam as férias em ilhas particulares, nem freqüentam restaurantes de luxo."
"Eles moram em casas espaçosas localizadas em bairros nobres – geralmente os
que concentram grande número de jogadores de futebol –, mas não vi na decoração das casas nenhuma grande extravagância. Continuam a vestir-se como os jovens de sua idade, com tênis, jeans e camisetas, a comer em casa ou em restaurantes que sirvam comida próxima da brasileira", disse.
Os únicos consumos de luxo recorrentes entre eles, acrescenta, são "os automóveis, sempre carros novos de luxo, mas às vezes fornecidos pelo próprio clube, os brincos de diamantes ou as invariáveis *trousses de toilette* Louis Vuitton".
A autora diz que, ao contrário do que se vê um pouco na mídia ou do que torcedores brasileiros imaginam, esses jogadores não se europeizaram.
"Eles
continuam sendo muito nacionalistas, tendo o Brasil como principal referência, e no seu cotidiano o país é extremamente presente".
A pesquisadora destaca a efemeridade de suas permanências nas instituições de trabalho e nos países no exterior e caracteriza essa emigração como uma "circulação", que poderia ser chave explicativa para a manutenção desse sentimento nacional. Segundo ela, o estudo terá continuidade. Mas com outro
foco.
"Trabalhei muito com celebridades, com jogadores que tiveram carreiras de sucesso no exterior em clubes globais, e menos com os desconhecidos, que estão em outra faixa salarial. Quero agora focar nesse grupo que está no exterior, mas que não tem a mesma trajetória de sucesso, anônimos para nós brasileiros, que estão em clubes menores e periféricos. E também focar nos que já retornaram", disse.
Para ler o artigo *Rodar: a circulação dos jogadores de futebol brasileiros no exterior *, de Carmen Silvia Rial, disponível na biblioteca on-line
SciELO (Bireme/FAPESP), *clique aqui: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-71832008000200002&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt
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domingo, 1 de fevereiro de 2009
LEIA O RELATÓRIO DO MINISTÉRIO PÚBLICO SOBRE A MSI
LEIA O RELATÓRIO DO MINISTÉRIO PÚBLICO SOBRE A MSI
Leia a seguir o relatório elaborado pelo Ministério Público de São Paulo sobre a atuação do criminoso russo Boris Berezovski na MSI, empresa que firmou uma parceria com o Corinthians.
Caso MSI - Media Sport Investiment
Relatório de Investigação
Vistos, etc.
O procedimento administrativo criminal teve início por portaria baixada pelos subscritores no âmbito do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO), do Ministério Público do Estado de São Paulo (fls. 02/03), cumprindo determinação do Procurador-Geral de Justiça do Estado de São Paulo (fls. 05/06) e buscou esclarecer crime de lavagem de dinheiro (Lei Federal no. 9.613/98) e outros delitos conexos, ocorridos, em tese, na parceria celebrada entre MSI e Corinthians, tendo por base a representação formulada pelo Deputado Estadual Romeu Tuma. Em resumo, afirmou o autor da representação que a parceria veio celebrada mediante intermediação de Kiavash Joorabchian, com captação de recursos obtidos no exterior, provenientes da pessoa de Boris Berezovski, detentor de antecedentes criminais, acusado de envolvimento em negócios fraudulentos no ramo de petróleo, assassinatos, lavagem de dinheiro e financiamento de grupos guerrilheiros (fls. 06/09).Instaurado o procedimento, instruído com os documentos que acompanharam a representação inicial (fls. 06/163), o GAECO requisitou junto ao Corinthians a apresentação do contrato relativo à parceria, tendo sido atendido a fls. 221/238. Da mesma forma, foram solicitadas e recebidas informações oriundas do Conselho de Controle de Atividades Financeiras -COAF (fls. 341/342). Documento do Veirano Advogados (fls. 382) trouxe dados acerca de Reza Irani Kermani, pessoa mencionada na investigação.
Sobre a existência da investigação, deu-se notícia formal à Agência Brasileira de Informações - ABIN (fls. 410), ao Banco Central do Brasil (fls. 411), ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras - COAF (fls. 413/414) e ao Presidente do Bradesco S.A. (fls. 412), instituições que, após, interagiram no procedimento (fls. 429 - ABIN; fls. 454- BACEN e 479-BRADESCO).
Solicitação de auxílio do Governo Russo, foi inicialmente dirigida à Embaixada Russa no Brasil (fls. 451/452), e, posteriormente, com correção, encaminhada ao Governo daquele país por intermédio do Ministério das Relações Exteriores (fls. 450, 456 e 457/458), vindo, então, aos autos notícia do encaminhamento realizado em forma de pedido de cooperação jurídica internacional (fls. 496).
Em três apensos numerados, produziu-se documentação relativa à constituição e desconstituição de empresas situadas no Brasil e no Exterior - utilizadas como apoio na concretização da parceria (apenso I). Foram reunidos, também, contratos de aquisição de direitos financeiros e federativos relativos a jogadores brasileiros e estrangeiros relacionados à parceria (apensos II e III).
Com o auxílio da INTERPOL (fls. 468 e 469), foi possível de se obter cópia do pedido de prisão preventiva expedido em desfavor de Boris Berezovski (fls. 473/477).
Foi requisitada (fls. 445), apresentada (fls. 498) e transcrita (fls. 502/504), fita de áudio atribuído a Alberto Dualib, Presidente do Sport Club Corinthians Paulista, reproduzida em programa jornalístico da Rádio e Televisão Record S.A..
Foram ouvidos na investigação, como testemunhas, Rolando Wohlers (fls. 168/169), Antonio Roque Citadini (fls. 361/365) e Miguel Marques e Silva (fls. 393/396).
Foram ouvidos em declarações os advogados Alexandre Verri (fls. 351/354), Carlos Fernando Sampaio Marques (fls. 355/357) e Maurício Fleury Pereira Leitão (fls. 368/371), do escritório “Veirano Advogados”, contratado por Kia para viabilizar juridicamente seus negócios em território brasileiro. Da mesma forma, prestaram declarações Paulo Sérgio Scudiere Angioni (fls. 377/385), Alberto Dualib (fls. 401/406), Nesi Curi (fls. 422/425), Andrés Navarro Sanches (fls. 436/439) e Carlos Roberto de Mello (fls. 462/467), dirigentes do Sport Club Corinthians Paulista.
Por derradeiro, procedeu-se à oitiva de Kiavash Joorabchian (fls. 482/488), com o auxílio de interprete compromissada nos autos (fls. 481).
É O RELATÓRIO NECESSÁRIO.
CONSISTENTE O RESULTADO DA INVESTIGAÇÃO.
Cabia averiguar, em primeiro plano, a situação processual de Boris Berezovski, apontado na representação inicial como investidor “oculto” da parceria. Sobre ele, vieram afirmadas “condenações por fraudes e remessas ilegais de capitais ao exterior”. Mais. Foram relatados seus contatos com o “submundo do crime, através de Badri Patarkatsishvili, por meio de quem eram realizados contatos com as máfias tchetchenas e com a Fraternidade Soltntsevo, considerada a maior e mais importante organização criminosa russa”. Tais dados constam de minucioso relatório produzido pela Agência Brasileira de Informações - ABIN (fls. 11/16). Também se vê daquele documento a ligação de Boris Berezovski com sucessivos governos da antiga União Soviética e, posteriormente, da Rússia, fato que lhe propiciou a aquisição de empresas estatais a preços abaixo do valor real de mercado e, também, a acusação de ter representado “papel importante no desenvolvimento da ‘jihad’ islâmica ao financiar as ações de grupos ligados a Bin Laden na Tchetchênia em 1999″, assim, apontado como “banqueiro informal” dos movimentos tchetchenos, local que, nos dois anos seguintes, “se tornaria um centro para a ação de criminosos”, tendo sua capital, Grozny, listada como importante ponto para o “tráfico internacional de heroína”.
Nada obstante ter recebido asilo político do governo inglês ainda segundo o relatório ABIN (fls. 16), o fato é que, no curso da investigação, foi possível de se obter junto à INTERPOL cópia do pedido de prisão preventiva de Boris Berezovski (fls. 473/477). O documento, aqui reproduzido eletronicamente, dá conta de que tal pessoa mereceu duas condenações criminais em território russo, cada uma delas de dez (10) anos de prisão, somados, assim, vinte (20) anos de prisão, por crimes de lavagem de dinheiro, fraudes empresariais, remessa irregular de dinheiro ao exterior e participação em organização criminosa destinada à prática de fraudes em grade escala.
Há destaque, no documento INTERPOL para a menção de Boris Berezovski como membro de organização criminosa (fls. 476). Para o organismo internacional, Boris está incluído na chamada “Difusão Vermelha”, difundida pela Secretaria Geral da INTERPOL em Lion, na França, a pedido da Rússia (fls. 473) sendo, assim, procurado pela Justiça Russa em todo o mundo.
Para efeitos da lavagem de dinheiro, tipificada na Lei Federal no. 9.613/98, tal como evidenciado nos documentos obtidos no curso da investigação, Boris Berezovski está direta ou indiretamente ligado com crimes praticados contra o sistema financeiro da Rússia, delitos diversos praticados por organização criminosa, e, também, por acusações de financiamento de guerrilhas islâmicas, equivalentes a atos de terrorismo(1). O documento ABIN fala expressamente em “financiamento de ações de grupos ligados a Bin Laden na Tchetchênia em 1999″ (fls. 16). A questão, então, estava em saber se Boris Berezovski e Badri Patarkatsishvili, seu apontado companheiro de crimes, estavam ou não ligados à parceria MSI-Corinthians. Aqui, nada obstante a negativa formal de todos os envolvidos na parceria, sem exceção, o fato é que desde o início os indícios colhidos apontavam neste sentido.
A primeira evidência decorreu da própria constituição das empresas ligadas à parceria, sempre elaborada com o propósito de, em verdadeira cascata de “offshores”, tentar afastar qualquer ligação direta ou indiciária com aquelas duas pessoas mencionadas no início da investigação. Foi constituída na Inglaterra, quase que simultaneamente ao final das tratativas com os dirigentes corintianos, a MSI Inglesa (fls. 76 do apenso I). Tal empresa, antes desconhecida, associada a outras duas, a DEVETIA LIMITED e a JUST SPORT LIMITED, respectivamente constituídas nas Ilhas Virgens Britânicas em 10 de junho de 2004 (fls. 38 do apenso I) e 07 de junho de 2004 (fls. 133 do apenso I), tornaram-se as únicas proprietárias da MSI Brasileira (fls. 3/16 do apenso I), representadas pela pessoa de Paulo Sérgio Scudiere Angioni (fls. 11 do apenso I).
Em demonstração de que as empresas são utilizadas com único propósito de ocultar a identidade dos investidores e o ramo de atividade onde produzidos os recursos, Paulo Angioni foi ouvido nos autos e declarou, de forma surpreendente, não conhecer quaisquer dados das empresas estrangeiras das quais estava aceitando, com remuneração, ser procurador (Just, Devetia e MSI Londrina), bem como não saber por qual motivo havia assinado documentos bancários variados e desconhecidos, inclusive para possibilitar a continuidade de transferência de recursos financeiros da MSI Brasileira ao Corinthians (fls. 377/381). Pouco antes, um dos advogados do Veirano afirmou que as transações eram realizadas por determinação de Reza Irani Kermani, iraniano trazido em confiança por Kia Joorabchian, que de Londres geria a empresa brasileira por telefone ou e-mail (fls. 370/371), em uma demonstração evidente de que Paulo Angioni tinha papel decorativo trazido ao negócio com o único propósito de conferir aspecto de legalidade formal ao que estava sendo realizado. Vale dizer, Angioni era o representante das empresas estrangeiras, que, nada obstante, atuavam no Brasil a mando de um iraniano de confiança de Kia, que, para atingir sua finalidade - ordem de transferência de milhões e milhões de dólares - operava com o auxilio de uma conta de e-mail gratuito (hotmail), formalmente declinada a fls. 382. O expediente de utilização de provedor internacional gratuito é conhecido justamente por dificultar a quebra de sigilo por parte de autoridades brasileiras, constituindo forma segura e informal para transações clandestinas.
Ao mesmo tempo em que as operações financeiras se realizavam com a utilização de “offshores” situadas em paraísos fiscais, expediente bastante difundido entre organizações criminosas, quando da primeira remessa de dinheiro ao Corinthians, no valor de US$ 2.000.000,00 (dois milhões de dólares), a título de empréstimo ao clube brasileiro, surgiu como remetente a pessoa-física de ZAZA TOIDZE, oriundo o dinheiro de Tibilizi, Capital da Geórgia, base operacional de Badri Patarkatsishvili, apontado parceiro de Boris Berezovski. O fato não conferiu com as declarações inicialmente prestadas pela MSI Brasileira - que apontava o remetente como a DEVETIA -, e a operação, para não ficar perdida, teve que ser novamente declarada pelo Banco Bradesco S.A., instituição escolhida para o ingresso dos recursos. Assim, constou que ZAZA mandava os recursos direto de Tbilizi, a mando da DEVETIA, operação que acabou denunciada ao COAF (fls. 341/342).
Até onde foi possível investigar, não se localizou ZAZA TOIDZE, nem se chegou à sua identidade efetiva, havendo suspeita fundada de que tal pessoa sequer exista efetivamente(2) Kia, quando ouvido, declarou não conhecer tal pessoa, nem nunca dela ter ouvido falar (fls. 482/488), fato que, à evidência, somente corrobora a convicção de que apenas tenta, a todo custo, ocultar do conhecimento da investigação as pessoas e empreendimentos compreendidos nas transações, integralmente comandadas por ele próprio. Kia chegou a descrever a existência entre um contrato formal de empréstimo, com cláusulas de juros, entre a DEVETIA e ZAZA e, entretanto, preferiu omitir-se sobre a identidade misteriosa de tal pessoa. Foi muito além, declarou conhecer nomes e qualificações de pessoas que trabalhavam nas empresas estrangeiras e, ainda assim, optou por não revelá-los nos autos do procedimento.
De qualquer forma, a exposição acidental do remetente pessoa-física acabou relacionando a Geórgia com a origem dos recursos ocultados por trás das “offshores” das Ilhas Virgens Britânicas.
Desmontada a estrutura das empresas estrangeiras, foi possível saber que a DEVETIA é de propriedade de outra “offshore” (fls. 70 do apenso I - GGAW LIMITED). A JUST, de sua feita, teve seu certificado corporativo omitido na investigação, porém, segundo Kia, é dele próprio e de outras pessoas físicas e jurídicas (fls. 484) até agora omitidas das autoridades. Cobrada a MSI Brasileira, na pessoa de Paulo Angioni, veio a promessa de que o certificado será apresentado assim que se finalizar a tradução do certificado corporativo da JUST (fls. 490).
Sobre a transação de compra e venda de direitos federativos relativos a jogadores com recursos da parceria investigada, efetivamente realizada pelo Sport Club Corinthians Paulista, descobriu-se que a compra de jogadores brasileiros e estrangeiros no exterior não passou pelo território nacional, conforme afirmado pelo Vice-Presidente de Finanças do Corinthians, Carlos Roberto de Mello (fls. 465). Assim, Carlos Alberto Tevez foi adquirido pelo Corinthians diretamente do Boca Juniors da Argentina pela quantia de US$ 16.000.000,00 (dezesseis milhões de dólares - fls. 61 do apenso III). Ao mesmo tempo, foi celebrado entre os dois clubes um intercâmbio de jogadores nas categorias de base, no valor de outros US$ 2.000.000,00 (dois milhões de dólares - fls. 66 do apenso III), o que significa dizer que a transação total é representada por estes dois valores, somados a quinze por cento devidos ao jogador, dez por cento devidos aos intermediadores e outros U$ 400.000,00 (quatrocentos mil dólares) a título de impostos diversos, conforme declarado por Kia (fls. 486), ao mesmo tempo em que afirmava que o contrato apresentado pelo Corinthians em atendimento à requisição do Ministério Público (fls. 06 do apenso II) não tinha validade alguma, fato, por sinal, reconhecido pelo próprio Corinthians no dia da oitiva do iraniano (fls. 492 e 493).(3)
Efetivada a contratação, os direitos financeiros sobre Tevez foram cedidos pelo Corinthias à JUST SPORT LIMITED (65% - fls. 71 do apenso III) e 35% à MSI GROUP LIMITED, ambas as empresas sediadas nas Ilhas Virgens Britânicas. A MSI GROUP, até então desconhecida na investigação, não teve juntado nos autos seu certificado corporativo, nem cuidou Kia de esclarecer na investigação quem sejam seus reais proprietários.
Da mesma forma se procedeu com relação ao jogador Marcelo Mattos, adquirido junto ao São Caetano pela quantia de US$ 1.200.000,00 (hum milhão e duzentos mil dólares), pelo Corinthians, que, em seguida, tratou de ceder os direitos financeiros integralmente à empresa DEVETIA LIMITED (fls. 99 do apenso III).
Dominguez Sebastian foi adquirido pelo Corinthians do Club Atlético Newell’s Old Boys, da Argentina (fls. 106 do apenso III), por US$ 2.500.000,00 (dois milhões e quinhentos mil dólares) e os direitos financeiros sobre o contrato foram cedidos, na integralidade, à MSI GROUP LIMITED (fls. 111 do apenso III).
Pelos direitos federativos do jogador Carlos Alberto, o Corinthians pagou Euros 6.766.107,00 (seis milhões, setecentos e sessenta e seis mil e cento e sete euros - fls. 122 do apenso III). Os direitos financeiros sobre esse jogador foram cedidos à MSI GROUP (50% - fls. 125 do apenso III) e à GLOBAL SOCCER AGENCIES LIMITED (50% - fls. 130 do apenso III), empresa registrada em Gibraltar e escritórios localizados em Israel, até então desconhecida da investigação.
As evidências, assim, são no sentido de que a MSI Brasileira foi constituída apenas e exclusivamente para fazer receber no Brasil recursos oriundos das “offshores” sediadas em paraísos fiscais, conforme já mencionado. Tem como administrador remunerado a pessoa de Paulo Angioni, que, quando ouvido, não tinha nem a mais vaga idéia das operações que, em tese, seriam de responsabilidade de empresas por ele representadas no país. Enquanto isso, as transações envolvendo compra de jogadores estavam centradas na JUST SPORT, DEVETIA, MSI GROUP e GLOBAL SOCCER (as três primeiras das Ilhas Virgens Britânicas e, a última, de Gibraltar). Não foram localizadas movimentações financeiras oriundas da MSI Londrina, titular minoritária da MSI Brasileira.
Na verdade, há indícios de que a constituição da MSI Londrina teve como único propósito o de ocultar, ao menos por algum tempo, a existência da MSI GROUP LIMITED, nas Ilhas Virgens, de onde vieram efetivamente os recursos introduzidos na parceria, ao menos para aquisição de jogadores no exterior. Não houve investimento oriundo de Londres e os milhões de dólares transacionados vieram todos das Ilhas Virgens, Gibraltar e Geórgia.
Compreendida a dinâmica dos investimentos, a relação de Boris Berezovski com a parceria veio suficientemente demonstrada. Primeiro, por declarações prestadas pelo próprio Alberto Dualib à imprensa, depois negadas quando de suas declarações formais. A fita de áudio obtida junto à Rede Record de Televisão, transcrita a fls. 503/504, revela o dirigente corintiano relatando ao Conselho de Orientação do Clube (CORI), ainda antes da época da assinatura do contrato final da parceria, a ligação de Boris Berezovski com os investimentos no clube. Surpreendido por gravação de áudio, Dualib afirma as tratativas com o magnata russo que “gostaria de vir ao Brasil, mas como convidado oficial” (fls. 504). Demonstrando prévio conhecimento dos problemas penais de Boris, diz que ele “está escondido na Inglaterra, ele não pode voltar para a Rússia por enquanto” (fls. 504). Arremata, aos dirigentes presentes no CORI, ter ouvido do russo “…eu quero entrar no Brasil pelo Corinthians, espero que o Governo Brasileiro me faça esse convite para tratar de fazer alguns negócios em parceria com o governo” (fls. 504).
Segundo, porque em fato notório as identidades de Boris Berezovski e Badri Patarkatsishvili como integrantes da parceria nunca foram escondidas por Dualib de seus dirigentes
. A propósito, ouvido no procedimento, Antonio Roque Citadini, ex-vice-presidente de futebol do clube e Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo, esclareceu que o presidente Dualib afirmou em bom tom dentro do clube que Boris Berezovski e Badri Patarkatsishvili, investidores na parceria, eram pessoas de muito dinheiro. Também esclareceu ter ouvido de Dualib que a esposa de Boris veio ao Corinthians para conhecer o parceiro brasileiro, já que o marido não poderia sair do território inglês em razão de seus problemas criminais (fls. 362). Citadini esclareceu ainda ter se retirado das negociações e avisado o presidente do Corinthians acerca dos pontos obscuros da parceria que estava nascendo, em razão de pesquisas realizadas que mostravam péssima condição criminal daquelas pessoas na Rússia.
No mesmo teor veio o depoimento de outro dos dirigentes corintianos, Miguel Marques e Silva. Juiz de Direito em São Paulo e Conselheiro Vitalício do Clube, a testemunha, embora tenha ressalvado o aspecto formal e simples do contrato da parceria, recordou-se de reunião de vários dirigentes do Corinthians, onde se deu acesso ao relatório criminal de Boris Berezovski e Badri Patarkatsishvili elaborado pela Agência Brasileira de Informações - ABIN. Depois, relatou também ter ouvido, novamente do próprio Dualib, em reunião do Corinthians, que o presidente, os vice Nesi Curi e Andres Sanches e Carla Dualib, foram pessoalmente à Inglaterra e à Geórgia, para conhecer os parceiros internacionais, travando contato, ali, inclusive nas residências pessoais, com Boris Berezovski e Badri Patarkatsishvili (fls. 393/396). O presidente Dualib disse ao depoente que as despesas totais com a comitiva montaram US$ 500.000,00 (quinhentos mil dólares - fls. 395), arcadas justamente pelos tais anfitriões internacionais.
Não há dúvida alguma acerca da efetiva participação de Boris Berezovski e Badri Patarkatsishvili nos investimentos no Corinthians
. O fato foi admitido inicialmente por Alberto Dualib e confirmado pelas testemunhas que ouviram dele, no Corinthians, o relato da viagem da comitiva do clube ao encontro dos parceiros internacionais.
Depois disso, ainda sobreveio o depósito da primeira remessa de dólares(4), a título de empréstimo ao Corinthians, oriunda justamente de Tibilizi, terra de Badri Patarkatsishvili, para onde, aliás, voou a comitiva corintiana, em jato particular fornecido por Boris Berezovski.
Alberto Dualib (fls. 401/406), Nesi Curi (fls. 422/425), e Andrés Sanches (fls. 436/439), ouvidos, não puderam negar que, justamente após avançar nos detalhes da parceria com Kia, no Brasil, finalmente viajaram para Londres e Tbilizi, onde conheceram Boris Berezovski e Badri Patarkatsishvili, inclusive valendo-se de jato particular de Boris para a viagem à Geórgia, terra de Badri e de Zaza
. Embora tenham tentado minimizar as declarações iniciais do presidente corintiano, ficou evidente que os anfitriões internacionais (outros nomes não foram citados) eram justamente os investidores buscados.
Tanto é verdade que, mais recentemente, ouvido nos autos, Carlos Roberto de Mello confirmou que a esposa de Boris Berezovski veio realmente ao Brasil, conhecendo o Corinthians e sendo recepcionada pelo Presidente Dualib e por Nesi Curi, que, indagados a respeito, haviam tergiversado sobre o fato (fls. 466). Aliás, Dualib havia negado expressamente o contato.
Em suma, até onde avançaram as investigações somaram-se indícios suficientes à demonstração de que a parceria MSI-CORINTHIANS está sendo utilizada para prática de lavagem de dinheiro obtido principalmente de Boris Berezovski, pessoa condenada a vinte anos de prisão, e, que, hoje, é procurada pelos crimes contra o sistema financeiro russo, participação em organização criminosa e outras fraudes, sem prejuízo da existência de outros desconhecidos investidores. Deram conta de que tal pessoa opera com Kia, seu intermediário em transações suspeitas.(5) As operações são concretizadas com a utilização de diversas “offshores” que têm o único e conhecido propósito de distanciar o investidor e a origem ilícita dos recursos de seu destino final, no caso a aquisição e venda de jogadores e produtos em clube de futebol.
E os indícios apontam para Kia Jorabchian como principal responsável pela parceria investigada, atuando dentro do território brasileiro, contando com a participação direta de Reza Irani Kermani (hoje provavelmente domiciliado em Londres) e de Boris Berezovski (domiciliado em Londres e procurado pela INTERPOL) e Badri Patarkatsishvili (há notícia de que, com a morte do primeiro-ministro da Geórgia, ocorrida recentemente, Badri estaria deixando aquele país, rumo à Ucrânia - fls. 499/500). No Brasil, tais pessoas contaram com a colaboração direta de Paulo Sérgio Scudiere Angioni, que, ciente de suas responsabilidades, emprestou o nome para representar três “off shores” desconhecidas, para finalidades já declaradamente suspeitas. Da mesma forma, colaboraram com as operações os dirigentes do Corinthians Alberto Dualib, Nesi Curi e Andres Sanches que, mesmo após terem sido cientificados, por outros diretores, dos problemas criminais dos russos, prosseguiram tratando de assuntos relativos à parceria, posteriormente concretizada documentalmente em contrato, de forma que suas condutas, obviamente individualizadas, deverão ser objeto de análise pelo Ministério Público Federal. Diante do exposto, presentes indícios suficientes de crime de competência da Justiça Federal, porque a lavagem internacional aqui apurada tenta contra a ordem econômico-financeira e o sistema financeiro nacional, conforme se infere dos artigos 1º, incisos II, V, VII e 2o, inciso III, da Lei Federal 9.613/98, delibera-se, relatada a investigação:
a)submetê-la ao crivo do Procurador-Geral de Justiça, com sugestão de remessa dos autos, na via original, ao Procurador-Geral da República, a quem compete prosseguir atuando nas etapas supervenientes, mantendo-se, no Grupo de Atuação Especial, cópia integral do procedimento e de seus apensos e,
b)remeter cópia integral do procedimento, inclusive com os contratos relatados no anexo III, para conhecimento e providências administrativas eventualmente cabíveis no âmbito do Banco Central do Brasil.
SÃO PAULO, 08 DE ABRIL DE 2005.
JOSÉ REINALDO GUIMARÃES CARNEIRO
Promotor de Justiça - GAECO
ROBERTO PORTO
Promotor de Justiça GAECO
Leia a seguir o relatório elaborado pelo Ministério Público de São Paulo sobre a atuação do criminoso russo Boris Berezovski na MSI, empresa que firmou uma parceria com o Corinthians.
Caso MSI - Media Sport Investiment
Relatório de Investigação
Vistos, etc.
O procedimento administrativo criminal teve início por portaria baixada pelos subscritores no âmbito do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO), do Ministério Público do Estado de São Paulo (fls. 02/03), cumprindo determinação do Procurador-Geral de Justiça do Estado de São Paulo (fls. 05/06) e buscou esclarecer crime de lavagem de dinheiro (Lei Federal no. 9.613/98) e outros delitos conexos, ocorridos, em tese, na parceria celebrada entre MSI e Corinthians, tendo por base a representação formulada pelo Deputado Estadual Romeu Tuma. Em resumo, afirmou o autor da representação que a parceria veio celebrada mediante intermediação de Kiavash Joorabchian, com captação de recursos obtidos no exterior, provenientes da pessoa de Boris Berezovski, detentor de antecedentes criminais, acusado de envolvimento em negócios fraudulentos no ramo de petróleo, assassinatos, lavagem de dinheiro e financiamento de grupos guerrilheiros (fls. 06/09).Instaurado o procedimento, instruído com os documentos que acompanharam a representação inicial (fls. 06/163), o GAECO requisitou junto ao Corinthians a apresentação do contrato relativo à parceria, tendo sido atendido a fls. 221/238. Da mesma forma, foram solicitadas e recebidas informações oriundas do Conselho de Controle de Atividades Financeiras -COAF (fls. 341/342). Documento do Veirano Advogados (fls. 382) trouxe dados acerca de Reza Irani Kermani, pessoa mencionada na investigação.
Sobre a existência da investigação, deu-se notícia formal à Agência Brasileira de Informações - ABIN (fls. 410), ao Banco Central do Brasil (fls. 411), ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras - COAF (fls. 413/414) e ao Presidente do Bradesco S.A. (fls. 412), instituições que, após, interagiram no procedimento (fls. 429 - ABIN; fls. 454- BACEN e 479-BRADESCO).
Solicitação de auxílio do Governo Russo, foi inicialmente dirigida à Embaixada Russa no Brasil (fls. 451/452), e, posteriormente, com correção, encaminhada ao Governo daquele país por intermédio do Ministério das Relações Exteriores (fls. 450, 456 e 457/458), vindo, então, aos autos notícia do encaminhamento realizado em forma de pedido de cooperação jurídica internacional (fls. 496).
Em três apensos numerados, produziu-se documentação relativa à constituição e desconstituição de empresas situadas no Brasil e no Exterior - utilizadas como apoio na concretização da parceria (apenso I). Foram reunidos, também, contratos de aquisição de direitos financeiros e federativos relativos a jogadores brasileiros e estrangeiros relacionados à parceria (apensos II e III).
Com o auxílio da INTERPOL (fls. 468 e 469), foi possível de se obter cópia do pedido de prisão preventiva expedido em desfavor de Boris Berezovski (fls. 473/477).
Foi requisitada (fls. 445), apresentada (fls. 498) e transcrita (fls. 502/504), fita de áudio atribuído a Alberto Dualib, Presidente do Sport Club Corinthians Paulista, reproduzida em programa jornalístico da Rádio e Televisão Record S.A..
Foram ouvidos na investigação, como testemunhas, Rolando Wohlers (fls. 168/169), Antonio Roque Citadini (fls. 361/365) e Miguel Marques e Silva (fls. 393/396).
Foram ouvidos em declarações os advogados Alexandre Verri (fls. 351/354), Carlos Fernando Sampaio Marques (fls. 355/357) e Maurício Fleury Pereira Leitão (fls. 368/371), do escritório “Veirano Advogados”, contratado por Kia para viabilizar juridicamente seus negócios em território brasileiro. Da mesma forma, prestaram declarações Paulo Sérgio Scudiere Angioni (fls. 377/385), Alberto Dualib (fls. 401/406), Nesi Curi (fls. 422/425), Andrés Navarro Sanches (fls. 436/439) e Carlos Roberto de Mello (fls. 462/467), dirigentes do Sport Club Corinthians Paulista.
Por derradeiro, procedeu-se à oitiva de Kiavash Joorabchian (fls. 482/488), com o auxílio de interprete compromissada nos autos (fls. 481).
É O RELATÓRIO NECESSÁRIO.
CONSISTENTE O RESULTADO DA INVESTIGAÇÃO.
Cabia averiguar, em primeiro plano, a situação processual de Boris Berezovski, apontado na representação inicial como investidor “oculto” da parceria. Sobre ele, vieram afirmadas “condenações por fraudes e remessas ilegais de capitais ao exterior”. Mais. Foram relatados seus contatos com o “submundo do crime, através de Badri Patarkatsishvili, por meio de quem eram realizados contatos com as máfias tchetchenas e com a Fraternidade Soltntsevo, considerada a maior e mais importante organização criminosa russa”. Tais dados constam de minucioso relatório produzido pela Agência Brasileira de Informações - ABIN (fls. 11/16). Também se vê daquele documento a ligação de Boris Berezovski com sucessivos governos da antiga União Soviética e, posteriormente, da Rússia, fato que lhe propiciou a aquisição de empresas estatais a preços abaixo do valor real de mercado e, também, a acusação de ter representado “papel importante no desenvolvimento da ‘jihad’ islâmica ao financiar as ações de grupos ligados a Bin Laden na Tchetchênia em 1999″, assim, apontado como “banqueiro informal” dos movimentos tchetchenos, local que, nos dois anos seguintes, “se tornaria um centro para a ação de criminosos”, tendo sua capital, Grozny, listada como importante ponto para o “tráfico internacional de heroína”.
Nada obstante ter recebido asilo político do governo inglês ainda segundo o relatório ABIN (fls. 16), o fato é que, no curso da investigação, foi possível de se obter junto à INTERPOL cópia do pedido de prisão preventiva de Boris Berezovski (fls. 473/477). O documento, aqui reproduzido eletronicamente, dá conta de que tal pessoa mereceu duas condenações criminais em território russo, cada uma delas de dez (10) anos de prisão, somados, assim, vinte (20) anos de prisão, por crimes de lavagem de dinheiro, fraudes empresariais, remessa irregular de dinheiro ao exterior e participação em organização criminosa destinada à prática de fraudes em grade escala.
Há destaque, no documento INTERPOL para a menção de Boris Berezovski como membro de organização criminosa (fls. 476). Para o organismo internacional, Boris está incluído na chamada “Difusão Vermelha”, difundida pela Secretaria Geral da INTERPOL em Lion, na França, a pedido da Rússia (fls. 473) sendo, assim, procurado pela Justiça Russa em todo o mundo.
Para efeitos da lavagem de dinheiro, tipificada na Lei Federal no. 9.613/98, tal como evidenciado nos documentos obtidos no curso da investigação, Boris Berezovski está direta ou indiretamente ligado com crimes praticados contra o sistema financeiro da Rússia, delitos diversos praticados por organização criminosa, e, também, por acusações de financiamento de guerrilhas islâmicas, equivalentes a atos de terrorismo(1). O documento ABIN fala expressamente em “financiamento de ações de grupos ligados a Bin Laden na Tchetchênia em 1999″ (fls. 16). A questão, então, estava em saber se Boris Berezovski e Badri Patarkatsishvili, seu apontado companheiro de crimes, estavam ou não ligados à parceria MSI-Corinthians. Aqui, nada obstante a negativa formal de todos os envolvidos na parceria, sem exceção, o fato é que desde o início os indícios colhidos apontavam neste sentido.
A primeira evidência decorreu da própria constituição das empresas ligadas à parceria, sempre elaborada com o propósito de, em verdadeira cascata de “offshores”, tentar afastar qualquer ligação direta ou indiciária com aquelas duas pessoas mencionadas no início da investigação. Foi constituída na Inglaterra, quase que simultaneamente ao final das tratativas com os dirigentes corintianos, a MSI Inglesa (fls. 76 do apenso I). Tal empresa, antes desconhecida, associada a outras duas, a DEVETIA LIMITED e a JUST SPORT LIMITED, respectivamente constituídas nas Ilhas Virgens Britânicas em 10 de junho de 2004 (fls. 38 do apenso I) e 07 de junho de 2004 (fls. 133 do apenso I), tornaram-se as únicas proprietárias da MSI Brasileira (fls. 3/16 do apenso I), representadas pela pessoa de Paulo Sérgio Scudiere Angioni (fls. 11 do apenso I).
Em demonstração de que as empresas são utilizadas com único propósito de ocultar a identidade dos investidores e o ramo de atividade onde produzidos os recursos, Paulo Angioni foi ouvido nos autos e declarou, de forma surpreendente, não conhecer quaisquer dados das empresas estrangeiras das quais estava aceitando, com remuneração, ser procurador (Just, Devetia e MSI Londrina), bem como não saber por qual motivo havia assinado documentos bancários variados e desconhecidos, inclusive para possibilitar a continuidade de transferência de recursos financeiros da MSI Brasileira ao Corinthians (fls. 377/381). Pouco antes, um dos advogados do Veirano afirmou que as transações eram realizadas por determinação de Reza Irani Kermani, iraniano trazido em confiança por Kia Joorabchian, que de Londres geria a empresa brasileira por telefone ou e-mail (fls. 370/371), em uma demonstração evidente de que Paulo Angioni tinha papel decorativo trazido ao negócio com o único propósito de conferir aspecto de legalidade formal ao que estava sendo realizado. Vale dizer, Angioni era o representante das empresas estrangeiras, que, nada obstante, atuavam no Brasil a mando de um iraniano de confiança de Kia, que, para atingir sua finalidade - ordem de transferência de milhões e milhões de dólares - operava com o auxilio de uma conta de e-mail gratuito (hotmail), formalmente declinada a fls. 382. O expediente de utilização de provedor internacional gratuito é conhecido justamente por dificultar a quebra de sigilo por parte de autoridades brasileiras, constituindo forma segura e informal para transações clandestinas.
Ao mesmo tempo em que as operações financeiras se realizavam com a utilização de “offshores” situadas em paraísos fiscais, expediente bastante difundido entre organizações criminosas, quando da primeira remessa de dinheiro ao Corinthians, no valor de US$ 2.000.000,00 (dois milhões de dólares), a título de empréstimo ao clube brasileiro, surgiu como remetente a pessoa-física de ZAZA TOIDZE, oriundo o dinheiro de Tibilizi, Capital da Geórgia, base operacional de Badri Patarkatsishvili, apontado parceiro de Boris Berezovski. O fato não conferiu com as declarações inicialmente prestadas pela MSI Brasileira - que apontava o remetente como a DEVETIA -, e a operação, para não ficar perdida, teve que ser novamente declarada pelo Banco Bradesco S.A., instituição escolhida para o ingresso dos recursos. Assim, constou que ZAZA mandava os recursos direto de Tbilizi, a mando da DEVETIA, operação que acabou denunciada ao COAF (fls. 341/342).
Até onde foi possível investigar, não se localizou ZAZA TOIDZE, nem se chegou à sua identidade efetiva, havendo suspeita fundada de que tal pessoa sequer exista efetivamente(2) Kia, quando ouvido, declarou não conhecer tal pessoa, nem nunca dela ter ouvido falar (fls. 482/488), fato que, à evidência, somente corrobora a convicção de que apenas tenta, a todo custo, ocultar do conhecimento da investigação as pessoas e empreendimentos compreendidos nas transações, integralmente comandadas por ele próprio. Kia chegou a descrever a existência entre um contrato formal de empréstimo, com cláusulas de juros, entre a DEVETIA e ZAZA e, entretanto, preferiu omitir-se sobre a identidade misteriosa de tal pessoa. Foi muito além, declarou conhecer nomes e qualificações de pessoas que trabalhavam nas empresas estrangeiras e, ainda assim, optou por não revelá-los nos autos do procedimento.
De qualquer forma, a exposição acidental do remetente pessoa-física acabou relacionando a Geórgia com a origem dos recursos ocultados por trás das “offshores” das Ilhas Virgens Britânicas.
Desmontada a estrutura das empresas estrangeiras, foi possível saber que a DEVETIA é de propriedade de outra “offshore” (fls. 70 do apenso I - GGAW LIMITED). A JUST, de sua feita, teve seu certificado corporativo omitido na investigação, porém, segundo Kia, é dele próprio e de outras pessoas físicas e jurídicas (fls. 484) até agora omitidas das autoridades. Cobrada a MSI Brasileira, na pessoa de Paulo Angioni, veio a promessa de que o certificado será apresentado assim que se finalizar a tradução do certificado corporativo da JUST (fls. 490).
Sobre a transação de compra e venda de direitos federativos relativos a jogadores com recursos da parceria investigada, efetivamente realizada pelo Sport Club Corinthians Paulista, descobriu-se que a compra de jogadores brasileiros e estrangeiros no exterior não passou pelo território nacional, conforme afirmado pelo Vice-Presidente de Finanças do Corinthians, Carlos Roberto de Mello (fls. 465). Assim, Carlos Alberto Tevez foi adquirido pelo Corinthians diretamente do Boca Juniors da Argentina pela quantia de US$ 16.000.000,00 (dezesseis milhões de dólares - fls. 61 do apenso III). Ao mesmo tempo, foi celebrado entre os dois clubes um intercâmbio de jogadores nas categorias de base, no valor de outros US$ 2.000.000,00 (dois milhões de dólares - fls. 66 do apenso III), o que significa dizer que a transação total é representada por estes dois valores, somados a quinze por cento devidos ao jogador, dez por cento devidos aos intermediadores e outros U$ 400.000,00 (quatrocentos mil dólares) a título de impostos diversos, conforme declarado por Kia (fls. 486), ao mesmo tempo em que afirmava que o contrato apresentado pelo Corinthians em atendimento à requisição do Ministério Público (fls. 06 do apenso II) não tinha validade alguma, fato, por sinal, reconhecido pelo próprio Corinthians no dia da oitiva do iraniano (fls. 492 e 493).(3)
Efetivada a contratação, os direitos financeiros sobre Tevez foram cedidos pelo Corinthias à JUST SPORT LIMITED (65% - fls. 71 do apenso III) e 35% à MSI GROUP LIMITED, ambas as empresas sediadas nas Ilhas Virgens Britânicas. A MSI GROUP, até então desconhecida na investigação, não teve juntado nos autos seu certificado corporativo, nem cuidou Kia de esclarecer na investigação quem sejam seus reais proprietários.
Da mesma forma se procedeu com relação ao jogador Marcelo Mattos, adquirido junto ao São Caetano pela quantia de US$ 1.200.000,00 (hum milhão e duzentos mil dólares), pelo Corinthians, que, em seguida, tratou de ceder os direitos financeiros integralmente à empresa DEVETIA LIMITED (fls. 99 do apenso III).
Dominguez Sebastian foi adquirido pelo Corinthians do Club Atlético Newell’s Old Boys, da Argentina (fls. 106 do apenso III), por US$ 2.500.000,00 (dois milhões e quinhentos mil dólares) e os direitos financeiros sobre o contrato foram cedidos, na integralidade, à MSI GROUP LIMITED (fls. 111 do apenso III).
Pelos direitos federativos do jogador Carlos Alberto, o Corinthians pagou Euros 6.766.107,00 (seis milhões, setecentos e sessenta e seis mil e cento e sete euros - fls. 122 do apenso III). Os direitos financeiros sobre esse jogador foram cedidos à MSI GROUP (50% - fls. 125 do apenso III) e à GLOBAL SOCCER AGENCIES LIMITED (50% - fls. 130 do apenso III), empresa registrada em Gibraltar e escritórios localizados em Israel, até então desconhecida da investigação.
As evidências, assim, são no sentido de que a MSI Brasileira foi constituída apenas e exclusivamente para fazer receber no Brasil recursos oriundos das “offshores” sediadas em paraísos fiscais, conforme já mencionado. Tem como administrador remunerado a pessoa de Paulo Angioni, que, quando ouvido, não tinha nem a mais vaga idéia das operações que, em tese, seriam de responsabilidade de empresas por ele representadas no país. Enquanto isso, as transações envolvendo compra de jogadores estavam centradas na JUST SPORT, DEVETIA, MSI GROUP e GLOBAL SOCCER (as três primeiras das Ilhas Virgens Britânicas e, a última, de Gibraltar). Não foram localizadas movimentações financeiras oriundas da MSI Londrina, titular minoritária da MSI Brasileira.
Na verdade, há indícios de que a constituição da MSI Londrina teve como único propósito o de ocultar, ao menos por algum tempo, a existência da MSI GROUP LIMITED, nas Ilhas Virgens, de onde vieram efetivamente os recursos introduzidos na parceria, ao menos para aquisição de jogadores no exterior. Não houve investimento oriundo de Londres e os milhões de dólares transacionados vieram todos das Ilhas Virgens, Gibraltar e Geórgia.
Compreendida a dinâmica dos investimentos, a relação de Boris Berezovski com a parceria veio suficientemente demonstrada. Primeiro, por declarações prestadas pelo próprio Alberto Dualib à imprensa, depois negadas quando de suas declarações formais. A fita de áudio obtida junto à Rede Record de Televisão, transcrita a fls. 503/504, revela o dirigente corintiano relatando ao Conselho de Orientação do Clube (CORI), ainda antes da época da assinatura do contrato final da parceria, a ligação de Boris Berezovski com os investimentos no clube. Surpreendido por gravação de áudio, Dualib afirma as tratativas com o magnata russo que “gostaria de vir ao Brasil, mas como convidado oficial” (fls. 504). Demonstrando prévio conhecimento dos problemas penais de Boris, diz que ele “está escondido na Inglaterra, ele não pode voltar para a Rússia por enquanto” (fls. 504). Arremata, aos dirigentes presentes no CORI, ter ouvido do russo “…eu quero entrar no Brasil pelo Corinthians, espero que o Governo Brasileiro me faça esse convite para tratar de fazer alguns negócios em parceria com o governo” (fls. 504).
Segundo, porque em fato notório as identidades de Boris Berezovski e Badri Patarkatsishvili como integrantes da parceria nunca foram escondidas por Dualib de seus dirigentes
. A propósito, ouvido no procedimento, Antonio Roque Citadini, ex-vice-presidente de futebol do clube e Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo, esclareceu que o presidente Dualib afirmou em bom tom dentro do clube que Boris Berezovski e Badri Patarkatsishvili, investidores na parceria, eram pessoas de muito dinheiro. Também esclareceu ter ouvido de Dualib que a esposa de Boris veio ao Corinthians para conhecer o parceiro brasileiro, já que o marido não poderia sair do território inglês em razão de seus problemas criminais (fls. 362). Citadini esclareceu ainda ter se retirado das negociações e avisado o presidente do Corinthians acerca dos pontos obscuros da parceria que estava nascendo, em razão de pesquisas realizadas que mostravam péssima condição criminal daquelas pessoas na Rússia.
No mesmo teor veio o depoimento de outro dos dirigentes corintianos, Miguel Marques e Silva. Juiz de Direito em São Paulo e Conselheiro Vitalício do Clube, a testemunha, embora tenha ressalvado o aspecto formal e simples do contrato da parceria, recordou-se de reunião de vários dirigentes do Corinthians, onde se deu acesso ao relatório criminal de Boris Berezovski e Badri Patarkatsishvili elaborado pela Agência Brasileira de Informações - ABIN. Depois, relatou também ter ouvido, novamente do próprio Dualib, em reunião do Corinthians, que o presidente, os vice Nesi Curi e Andres Sanches e Carla Dualib, foram pessoalmente à Inglaterra e à Geórgia, para conhecer os parceiros internacionais, travando contato, ali, inclusive nas residências pessoais, com Boris Berezovski e Badri Patarkatsishvili (fls. 393/396). O presidente Dualib disse ao depoente que as despesas totais com a comitiva montaram US$ 500.000,00 (quinhentos mil dólares - fls. 395), arcadas justamente pelos tais anfitriões internacionais.
Não há dúvida alguma acerca da efetiva participação de Boris Berezovski e Badri Patarkatsishvili nos investimentos no Corinthians
. O fato foi admitido inicialmente por Alberto Dualib e confirmado pelas testemunhas que ouviram dele, no Corinthians, o relato da viagem da comitiva do clube ao encontro dos parceiros internacionais.
Depois disso, ainda sobreveio o depósito da primeira remessa de dólares(4), a título de empréstimo ao Corinthians, oriunda justamente de Tibilizi, terra de Badri Patarkatsishvili, para onde, aliás, voou a comitiva corintiana, em jato particular fornecido por Boris Berezovski.
Alberto Dualib (fls. 401/406), Nesi Curi (fls. 422/425), e Andrés Sanches (fls. 436/439), ouvidos, não puderam negar que, justamente após avançar nos detalhes da parceria com Kia, no Brasil, finalmente viajaram para Londres e Tbilizi, onde conheceram Boris Berezovski e Badri Patarkatsishvili, inclusive valendo-se de jato particular de Boris para a viagem à Geórgia, terra de Badri e de Zaza
. Embora tenham tentado minimizar as declarações iniciais do presidente corintiano, ficou evidente que os anfitriões internacionais (outros nomes não foram citados) eram justamente os investidores buscados.
Tanto é verdade que, mais recentemente, ouvido nos autos, Carlos Roberto de Mello confirmou que a esposa de Boris Berezovski veio realmente ao Brasil, conhecendo o Corinthians e sendo recepcionada pelo Presidente Dualib e por Nesi Curi, que, indagados a respeito, haviam tergiversado sobre o fato (fls. 466). Aliás, Dualib havia negado expressamente o contato.
Em suma, até onde avançaram as investigações somaram-se indícios suficientes à demonstração de que a parceria MSI-CORINTHIANS está sendo utilizada para prática de lavagem de dinheiro obtido principalmente de Boris Berezovski, pessoa condenada a vinte anos de prisão, e, que, hoje, é procurada pelos crimes contra o sistema financeiro russo, participação em organização criminosa e outras fraudes, sem prejuízo da existência de outros desconhecidos investidores. Deram conta de que tal pessoa opera com Kia, seu intermediário em transações suspeitas.(5) As operações são concretizadas com a utilização de diversas “offshores” que têm o único e conhecido propósito de distanciar o investidor e a origem ilícita dos recursos de seu destino final, no caso a aquisição e venda de jogadores e produtos em clube de futebol.
E os indícios apontam para Kia Jorabchian como principal responsável pela parceria investigada, atuando dentro do território brasileiro, contando com a participação direta de Reza Irani Kermani (hoje provavelmente domiciliado em Londres) e de Boris Berezovski (domiciliado em Londres e procurado pela INTERPOL) e Badri Patarkatsishvili (há notícia de que, com a morte do primeiro-ministro da Geórgia, ocorrida recentemente, Badri estaria deixando aquele país, rumo à Ucrânia - fls. 499/500). No Brasil, tais pessoas contaram com a colaboração direta de Paulo Sérgio Scudiere Angioni, que, ciente de suas responsabilidades, emprestou o nome para representar três “off shores” desconhecidas, para finalidades já declaradamente suspeitas. Da mesma forma, colaboraram com as operações os dirigentes do Corinthians Alberto Dualib, Nesi Curi e Andres Sanches que, mesmo após terem sido cientificados, por outros diretores, dos problemas criminais dos russos, prosseguiram tratando de assuntos relativos à parceria, posteriormente concretizada documentalmente em contrato, de forma que suas condutas, obviamente individualizadas, deverão ser objeto de análise pelo Ministério Público Federal. Diante do exposto, presentes indícios suficientes de crime de competência da Justiça Federal, porque a lavagem internacional aqui apurada tenta contra a ordem econômico-financeira e o sistema financeiro nacional, conforme se infere dos artigos 1º, incisos II, V, VII e 2o, inciso III, da Lei Federal 9.613/98, delibera-se, relatada a investigação:
a)submetê-la ao crivo do Procurador-Geral de Justiça, com sugestão de remessa dos autos, na via original, ao Procurador-Geral da República, a quem compete prosseguir atuando nas etapas supervenientes, mantendo-se, no Grupo de Atuação Especial, cópia integral do procedimento e de seus apensos e,
b)remeter cópia integral do procedimento, inclusive com os contratos relatados no anexo III, para conhecimento e providências administrativas eventualmente cabíveis no âmbito do Banco Central do Brasil.
SÃO PAULO, 08 DE ABRIL DE 2005.
JOSÉ REINALDO GUIMARÃES CARNEIRO
Promotor de Justiça - GAECO
ROBERTO PORTO
Promotor de Justiça GAECO
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