terça-feira, 30 de setembro de 2008

Boleiros do Cerrado - Indicação de Livro

Boleiros do cerrado – índios xavantes e o futebol
Fernando de Luiz Brito Vianna

Ao estudar, neste livro, os sentidos do futebol para uma parte do povo Xavante, habitante do cerrado do Mato Grosso, Fernando L. Brito Vianna cruza várias antropologias: a do esporte obviamente, mas também a da dinâmica entre o global e o local, a do famoso dualismo-temperado-com-faccionalismo xavante e a das relações dos índios com o estrangeiro, no bojo de suas histórias recentes e de seus projetos de futuro.O trabalho nos apresenta xavantes em cuja vida social o futebol é presença cotidiana, motivo para encontros interaldeias, foco de divertimento e de disputas, via de conexão com as cidades brasileiras – pela força de atração, entre outras coisas, da profissão de jogador. Historicamente, assistimos ao lado "boleiro" dos xavantes forjar-se no contato com a missão salesiana, sobretudo. E ainda vemos que muito da compreensão desses índios sobre o futebol dá-se por comparação com a corrida de toras, tradicional atividade física deles e de outros povos Jê.Encontra-se aqui obra marcada pela originalidade. De uma etnografia sobre tema pouco explorado, de uma reflexão perspicaz sobre seu vínculo pessoal com o grupo pesquisado, Fernando soube partir para a revisão de certas imagens fáceis acerca da relação entre indígenas e esporte, e, conjuntamente, para a discussão de algumas das mais candentes questões teóricas do estudo das sociedades xavante, jês e ameríndias em geral. Isso tudo num texto claro e bem-escrito, merecedor de atenção e leitura cuidadosa.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

IPHONE

No primeiro dia da comercialização do iPhone 3G no Brasil, a Vivo registrou em suas lojas próprias um aumento médio de 30% no volume de venda.

Segundo a empresa, esse desempenho deve-se à combinação de três fatores: atendimento – agendamento para local (residência ou loja) e horário escolhidos –, preço - aparelho a partir de R$ 899 – e abrangência de planos para o iPhone 3G.

A companhia começou a vender o iPhone 3G aos seus clientes a partir do primeiro minuto da madrugada desta sexta-feira, 26, em 11 Estados brasileiros.

OBSERVAÇÃO DO BLOGUEIRO: O MELHOR COMENTÁRIO FOI DE JOELMIR BETTING, NO JORNAL DA BAND, DIA 26/09/2008: "VOCÊ PRECISA DISSO? EU NÃO!!"

domingo, 28 de setembro de 2008

Corinthians comemora resultados

Fonte: http://www.ccsp.com.br/ultimas/noticia.php?id=34845

Assim que assumiu a presidência do Corinthians, um ano atrás, Andrés Sanchez convidou Luiz Paulo Rosemberg para a vice-presidência de marketing. Queria colocar a marca do Corinthians em evidência. Nesse período, o clube já lançou seis diferentes modelos de camisa, agência de turismo, filme (entra em cartaz no próximo ano), TV via internet, o programa Fiel Torcedor e segue na promessa de novidades pela frente. Resultado: lucrou cerca de R$ 3,5 milhões e comemora o sucesso da divulgação de seus produtos.

"Todo dia eu durmo pensando em criar algo que possa render dinheiro para o clube", revela Caio Campos, gerente de marketing.

Logo após a queda do time para a Série B, a equipe de marketing resolveu investir na estratégia de se aproximar da torcida, apelar para o amor do corintiano para reerguer a auto-estima o mais rapidamente possível. Foi aí que veio a idéia de lançar a camisa "Eu nunca vou te abandonar", aproveitando um refrão da torcida.

A camisa até hoje é recordista de vendas. Em 10 meses de lançamento, já rendeu aos cofres do clube impressionantes R$ 1,2 milhão. Num único dia, foram negociadas 20 mil peças. No total, mais de 200 mil. Atualmente, são entre 5 e 10 mil por mês. O problema é que gera lucro de apenas R$ 6 por peça comercializada. Seu preço sugerido nas lojas é de R$ 39,90.

Agora, o torcedor que quiser participar da campanha "O Timão é sua cara", terá de pagar R$ 1 mil para colocar sua foto em uma das 10 camisas do time, que serão utilizadas no dia 22 de novembro, diante do Avaí, o último jogo em casa na segunda divisão. Em cada venda, são R$ 680 de lucro. Até esta sexta-feira, pouco mais de 500 espaços haviam sido vendidos.

A camisa roxa também rendeu: hoje, por incrível que possa parecer, é mais vendida do que a branca e a preta. "Todos os torcedores perguntam quando vamos jogar com ela e se eu tenho uma para presenteá-los", conta o zagueiro e capitão William. "Ela não substituirá as cores tradicionais do clube, mas é bem bonita e acho legal jogar com ela." Até agora, foi usada em apenas duas partidas - contra o Fortaleza, na Copa do Brasil, e o Brasiliense, na última terça-feira.

Até o Timão Tur, um pouco sumido da mídia, segue dando lucro. O clube fechou em no máximo 40 pacotes por jogo, e passa dos 50% de retorno, levando entre 20 e 26 torcedores para as partidas.

Decepção ocorreu com a TV Timão. "Estipularam 100 mil assinaturas. Mas quem gosta de internet não se dispõe a pagar pelos serviços", lamenta Caio. Hoje, são 6 mil cadastrados e 2,6 mil assinantes. Cada um paga R$ 10 pelo serviço. Diante do fracasso, o projeto passará por reavaliação. No fim do ano, deixará de ser pago e passará para a grade de quem tem TV via satélite. "Vamos ganhar com os anunciantes", diz, em primeira mão, o gerente de marketing. No primeiro dia na rede, de graça, o TV Timão teve 1,2 milhão de acessos.

Três projetos estão na pauta e podem ser lançados ainda esta temporada: Nascer Fiel, Miss Fiel e miniaturas dos jogadores. O Nascer Fiel seria uma espécie de batismo corintiano, como já faz o São Paulo. A diferença é que o bebê seria realmente batizado no clube. "A iniciação seria na bica de São Jorge", conta Caio.

O Miss Fiel será um concurso para eleger a mais bela corintiana e o lucro viria dos SMS (mensagens de texto via celular) com os votos que o torcedor daria. A miniatura seria negociada nas lojas oficiais e apenas os direitos de imagem estão sendo analisados para que haja o lançamento. Os bonecos seriam confeccionados na China.

Responsável pela confecção de vários produtos oficiais do Corinthians, a Nike, em parceria com o marketing corintiano, vai lançar nos próximos dias uma linha de produtos a preços populares para tentar combater a pirataria. Tudo o que o clube lança, em poucos dias é possível encontrar, com qualidade inferior, mas preços convidativos, com marreteiros.

Veja mais em :
http://www.estadao.com.br/esportes/not_esp248795,0.htm

sábado, 27 de setembro de 2008

Kassab no 2º turno?

Kassab sobe 4 pontos e Alckmin pára a 10 dias do primeiro turno
Empatados, prefeito tem 25% das preferências contra 20% do tucano, segundo Ibope; Marta lidera com 35%

Carlos Marchi, de o Estado de S.Paulo
http://www.estadao.com.br/nacional/eleicoes2008/not_cid249051,0.shtm


SÃO PAULO - O prefeito Gilberto Kassab (DEM) subiu 4 pontos porcentuais e agora tem 25% das preferências do eleitorado na disputa pela segunda vaga para a disputa do segundo turno da eleição municipal de São Paulo, ante 20% do ex-governador Geraldo Alckmin, que oscilou 1 ponto para baixo, conforme pesquisa Ibope contratada pelo Estado e pela TV Globo. Os dois ainda estão tecnicamente empatados. A petista Marta Suplicy lidera a corrida, com os mesmos 35% que registrara na pesquisa anterior, há duas semanas.

Há pelo menos três semanas o tucano e o prefeito disputam a primazia de fazer companhia a Marta no segundo turno, já garantido em São Paulo, segundo o Ibope. Nesse período, Alckmin desfechou uma forte ofensiva contra Kassab, na tentativa de conter sua progressiva ascensão nas pesquisas de intenção de voto. Aparentemente, acabou vigorando a velha máxima das campanhas eleitorais - quem bate cai.

A trajetória de Alckmin tem sido descendente desde a primeira pesquisa Ibope contratada pelo Estado e pela TV Globo, divulgada no dia 19 de julho. Nessa sondagem, ele tinha 31% das preferências e estava empatado tecnicamente com Marta; no levantamento seguinte, publicado no dia 16 de agosto, o ex-governador caiu para 26%; na pesquisa divulgada no dia 30 de agosto, ele apareceu com 22%; duas semanas depois, estava com 21%, chegando agora a 20%.

ESPONTÂNEA
Na sondagem espontânea, em que os entrevistados informam seu candidato sem receber nenhum estímulo, a líder Marta apresentou os mesmos 30% do levantamento anterior; Alckmin oscilou 2 pontos para mais, chegando aos 16%, e Kassab oscilou 3 pontos para cima, atingindo agora os 20%. Os indecisos (os que não sabem ou prometem votar em branco ou anular o voto) eram 29% e agora são 26%.

Na liderança da intenção de voto para o primeiro turno, Marta demonstrou estar em momento de rigorosa estabilidade. Os poucos movimentos ocorridos com seus índices de intenção de voto se compensaram. Ela manteve os 25% que tem entre os que ganham mais de 5 salários mínimos, oscilou 3 pontos para menos (de 37% para 34%) entre os que ganham entre 2 e 5 salários e ganhou 4 pontos (de 45% para 49%) entre os que ganham até 2 salários mínimos, faixa em que o PT costuma predominar em todas as eleições.

Kassab voltou a subir em todas as faixas. Entre os que ganham mais de 5 salários, na qual o PSDB é forte, ele conquistou 5 pontos (de 23% para 28%); entre os que ganham entre 2 e 5 salários, subiu 4 pontos (de 21% para 25%) e, entre os que ganham até 2 salários, subiu outros 4 (de 16% para 20%). Alckmin manteve seus índices nas duas faixas extremas, mas oscilou 3 pontos para baixo (de 20% para 17%) entre os que ganham entre 2 e 5 salários.

A ascensão mais expressiva de Kassab deu-se na segmentação das faixas de escolaridade. Entre os que têm até a 4ª série do ensino fundamental, ele cresceu 11 pontos (de 14% para 25%); entre a 5ª e a 8ª séries, oscilou 2 pontos para mais (de 18% para 20%); nos que têm ensino médio, oscilou outros 3 (de 21% para 24%) e, entre os que têm ensino superior, oscilou mais 2 (de 28% para 30%).

Alckmin e Marta cumpriram trajetória irregular. O tucano caiu entre os que têm até a 4ª série (de 17% para 13%) e oscilou 2 pontos para baixo entre os de ensino médio (de 20% para 18%). No entanto, oscilou 3 pontos para cima entre os que têm entre a 5ª e a 8ª séries (de 16 para 19%) e ficou estável, com 29%, entre os que têm ensino médio. A petista perdeu, provavelmente para Kassab, 6 pontos entre os que têm até a 4ª série (de 45% para 39%), ganhou 4 (de 38% para 43%) entre os que têm entre a 5ª e a 8ª séries e ficou estável nas duas outras faixas.

REJEIÇÃO
A rejeição dos principais candidatos não mudou muito desde a última pesquisa. Marta teve uma oscilação de 1 ponto (de 31% para 32%), Kassab oscilou 2 pontos para mais (de 22% para 24%) e Alckmin, 1 ponto para mais (de 12% para 13%).

Na pesquisa estimulada, os indecisos (os que não sabem em quem votar ou prometem votar em branco ou anular o voto) oscilaram 3 pontos para menos: eram 11% na última pesquisa e agora são 8%. Dos outros candidatos, Paulo Maluf (PP) oscilou 1 ponto para baixo e agora tem 7%, Soninha Francine oscilou 1 ponto para cima e agora está com 4% e Ivan Valente (PSOL) manteve o 1% da pesquisa anterior. Os outros não atingiram 1%.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Assim caminha o futebol, com seus profissionais da bola, jogador, agente e clubes

Ribeiro ganhou R$ 7,2 milhões na transferência de Robinho
Ex-empresário do jogador ficou com parte do valor da transação do atleta para o inglês Manchester City

Sanches Filho - Especial para O Estado de S.Paulo
Petros Karadjias/AP
http://www.estadao.com.br/esportes/not_esp248723,0.htm


Robinho rompeu na quinta com Wagner Ribeiro
SANTOS - Fontes ligadas a Robinho negam que o rompimento do jogador com o empresário Wagner Ribeiro, depois de seis anos, foi em razão do recebimento de propina pelo empresário e agente Fifa para facilitar a sua contratação pelo Manchester City, da Inglaterra, sem esperar pelo limite do prazo para que o Chelsea chegasse aos 40 milhões de euros que o Real Madrid pedia. Na negociação, o agente, como era previsto em contrato, ficou com parte do valor da venda, no caso 3 milhões de euros (R$ 7,2 milhões).

Dê seu palpite no Bolão Vip do Limão

A notícia dada nesta sexta-feira em uma coluna do The Independent, da Inglaterra, de que agentes ficaram com 5,2 milhões de euros na transação, causou a estranheza de um dos assessores de jogador.

"O principal motivo foi que Ribeiro demorou a tirar Robinho do Real e também houve alguma coisa em relação a ele não ter esperado um pouco mais pela palavra final do Chelsea", confirmou o assessor. Ele explicou que Robinho reconhece a importância que Ribeiro teve na sua carreira, mas que agora pretende abrir um escritório em Londres e outro em São Paulo e deixar que o seu pai (Gilvan de Souza) cuide de seus negócios.

O último contrato entre Robinho e Ribeiro terminou há dois anos. Ultimamente o compromisso entre ambos era apenas verbal e há algum tempo o jogador vinha amadurecendo a idéia de seguir os passos de Kaká, desligando-se do empresário e passando a se encarregar dos seus interesses com apoio do pai.

Como aconteceu com Robinho no Santos, Ribeiro forçou a saída de Kaká do São Paulo, negociado com o Milan por US$ 8,5 milhões em 2003. A diferença é que o ex-são-paulino abandonou o empresário logo em seguida à mudança de clube e país, alegando que seu pai passaria a cuidar de sua carreira.

DESCONTENTAMENTO
Robinho ficou descontente com o comportamento de Ribeiro, permitindo que o seu desligamento do Real Madrid se arrastasse por muito tempo, provocando o desgaste de sua imagem de jogador. A partir do momento que o clube espanhol passou a fazer do português Cristiano Ronaldo o seu sonho de consumo, o brasileiro tornou-se moeda de troca. Mesmo assim Robinho tentou renovar o contrato com o Real. Seu pai foi pelo menos dez vezes tentar o acerto e os dirigentes não demonstraram interesse.

Enfrentando problemas particulares, Ribeiro quase nada fez, só entrando no circuito ao sentir a possibilidade de uma negociação milionária.

O que os amigos que Robinho em Santos dizem é que o fim do relacionamento era inevitável porque não havia mais motivo para que o empresário continuasse recebendo altas comissões sem contrapartida. Quando o atacante foi vendido pelo Santos ao Real Madrid por US$ 30 milhões, em 2005, Ribeiro engordou sua conta bancária com US$ 2 milhões e agora couberam a ele na negociação com o Manchester City R$ 7,2 milhões.

HISTÓRICO
Quando Robinho, com contrato em vigência, peitou o Santos, exigindo a venda de seus direitos federativos ao Real Madrid, foi considerado ingrato por uma parte da torcida santista, enquanto o seu empresário foi ameaçado de ser proibido de entrar no clube.

Houve até um movimento para que o Conselho Deliberativo votasse moção para que o empresário se tornasse persona non grata no Santos. A idéia não foi adiante e no começo deste ano Ribeiro voltou freqüentar até as concentrações, na condição de procurador do atacante Tiago Luís, que ele "vendeu" à imprensa de Madri como o Messi brasileiro.

O Santos se iludiu com uma suposta proposta milionária vinda da Espanha e deu um bom contrato a Tiago Luís, o que levou o ex-técnico Emerson Leão a brincar com a situação depois de um mês. "Ué, cadê a tal proposta de 10 milhões de euros que prometeram apresentar por Tiago Luís?"

Em represália, o agente colaborou com o movimento para derrubar o técnico, espalhando a informação que a levaria a Traffic para o clube, com o compromisso de investir altas somas na contratação de reforços, assim que Leão fosse mandado embora. O que não se confirmou.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

O Pan ainda não acabou

O Pan ainda não acabou

FONTE: http://www.atarde.com.br/esporte/noticia.jsf?id=968429

O Tribunal de Contas da União (TCU) deu prazo de 30 dias para que o Ministério do Esporte apresente as prestações de contas dos diversos convênios celebrados por ocasião dos Jogos Pan-americanos a Parapan-americanos do Rio de Janeiro, realizados no ano passado.

As informações foram divulgada nesta quarta-feira (24) pela assessoria do TCU e constam de relatório apresentado ao Plenário do tribunal pelo ministro Marcos Vilaça.Segundo o relatório, o ministério deverá enviar ao TCU a documentação referente à reforma do Complexo Esportivo do Maracanã, do Parque Aquático Maria Lenk, da pista do Velódromo, bem como das obras de infra-estrutura da Vila Pan-americana, entre outros.

Caso haja alguma irregularidade nesses convênios, o ministério deverá comprovar se tomou as providências relativas à instauração de tomadas de contas especiais.Ao analisar a documentação, o TCU poderá instaurar processos específicos para apurar eventuais indícios de irregularidades. Em seu relatório, o ministro Vilaça lamenta “o excessivo tempo que o Ministério dos Esportes tem levado na análise dos contratos e convênios do Pan. Essa demora embaraça o trabalho do TCU e impede o trâmite mais ágil dos processos”.

O TCU também determinou à Petrobras, à Caixa Econômica Federal e à Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos que apresentem, em até 15 dias, informações relativas aos patrocínios do Pan 2007, esclarecendo quais os valores envolvidos e as fontes dos recursos. FONTE:

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

A invasão corinthiana de 1976

A invasão corinthiana de 1976 - O dia em que 70 mil alvinegros assistiram no Rio ao fim de um recesso de 22 anos

Plínio Labriola Negreiros
http://www.revistadehistoria.com.br/v2/home/?go=detalhe&id=1628

É regra entre torcedores de futebol a memória de uma grande partida, com a lembrança das grandes epopéias. Tem valor especial quando o limite se impõe: no último minuto, no último segundo, a um passo da linha de fundo. A alegria do torcedor depende, normalmente, do que sua equipe foi capaz de fazer. Uma derrota humilhante é capaz de levá-lo à depressão enquanto a euforia pode ser o efeito imediato de uma vitória retumbante. O sucesso da equipe ou o fracasso dos adversários tornaram-se as únicas referências para júbilo.

Ao mesmo tempo, os torcedores contemporâneos mostram-se percorrendo caminhos inéditos: sentem-se personagens tão importantes quanto os jogadores e outros setores ligados ao futebol. É como se fosse possível a existência autônoma das torcidas, como se a torcida também tivesse uma história mais fascinante que a do próprio clube. De certa maneira, a torcida do Sport Club Corinthians Paulista permite isso.

É possível olhar para um importante evento da história do futebol brasileiro – senão mundial – que tem forte ligação com o contexto histórico: uma multidão de torcedores, principalmente de São Paulo, faz do Rio de Janeiro uma cidade “ocupada”. É a chamada “Invasão Corinthiana”, composta de torcedores que não comemoravam um título importante por 22 anos, injetados numa cidade desumanizada e governada pelo regime autoritário da ditadura militar. No meio disso tudo, São Paulo, senão o Brasil, torce pelo seu próprio sucesso através da cores alvinegras do Corinthians.

22 anos sem títulos
Para explicar o fenômeno corinthiano de dezembro de 1976 é preciso conhecer um pouco sobre a história do time e da sua torcida, em especial, na década anterior à Invasão. O ano de 1968 é fundamental, quando, no mês de março, aconteceu a grande festa pela “quebra do tabu” contra o Santos.

Desde 1957, o Corinthians não vencia a equipe de Pelé pelo Campeonato Paulista. Sem um título importante desde 1954, era essencial vencer o Santos e, no dia 6 de março, o alvinegro o venceu por dois gols a zero. Em 1969, aconteceu uma tragédia, quando dois jogadores titulares morreram em um acidente de automóvel. O time, que ia bem no Campeonato Paulista até o evento, perdeu fôlego e mais uma vez acabou sem o título.

No ano seguinte, veio a Copa do Mundo de 70, considerada um momento especial para o futebol do Brasil, pois a taça Jules Rimet era conquistada de maneira definitiva. Além do que, na equipe nacional, havia dois representantes: o titular Roberto Rivellino e o reserva Ado, goleiro. Em 1971, o clube do Parque São Jorge conquistou um título menor, o Torneio do Povo, que reunia as equipes mais populares do país, apesar dos fracassos que continuavam nas disputas mais importantes. No ano seguinte, aconteceram poucas grandes emoções e que não resultaram em título.

Em 1974, o título de campeão paulista quase veio, mas, depois de vencer o primeiro turno, o Corinthians perde a decisão final para o Palmeiras por 1 a 0. O maior jogador do clube, Roberto Rivellino, foi responsabilizado pela derrota e praticamente expulso do clube que havia defendido por 10 anos. O ano seguinte, de 1975, não foi muito diferente, trazendo apenas fracassos. No primeiro semestre de 1976, tudo parecia continuar igual. Mais uma vez o time fracassava no Campeonato Paulista, depois de um começo fulminante e mesmo sem grandes adversários pela frente, ficou em péssima colocação. Vinte e dois anos se completavam sem que o time ganhasse um título importante. Além do fracasso, a torcida estava cada vez mais impaciente, vaiava a equipe e pedia a saída do presidente Vicente Matheus. (GONDIM, p. 105.) No segundo semestre, o do Campeonato Brasileiro, um novo técnico, Duque, foi contratado, mas nada indicava que um grande fenômeno esportivo estaria por vir.

Campeonato Nacional de 1976
Na realidade, a participação corinthiana no Brasileiro de 1976 apontava para a reprodução de outros momentos. Eram inícios bons com resultados finais sempre aquém do esperado em um campeonato marcado pela confusão no regulamento.

Passadas as duas primeiras fases, a terceira teve um início marcado por três resultados frágeis e, apesar do apoio maciço dos seus torcedores, um forte limite apresentava-se para o Corinthians. Ele teria que vencer as cinco partidas restantes se desejasse chegar às finais. Se possível, eram necessárias vitórias por mais de um gol de diferença para a conquista de três pontos, conforme regra do campeonato. Com histórias diferentes, mas sempre marcadas por uma forte emoção e uma grande participação dos corinthianos, as cinco vitórias foram conquistadas: Botafogo de Ribeirão Preto, 2 a 1; Caxias, 4 a 1; Ponte Preta, 2 a 0; Internacional, 2 a 1 e Santa Cruz, 2 a 1.
Nestas partidas, a torcida aparecia como personagem fundamental. Além da boa campanha e a conseqüente classificação, a imprensa não cansava de repercutir a força, o tamanho e a paixão dos torcedores, colocando-os como capazes de grandes façanhas, quebrando recordes de renda e de público. Logo se reforçaria o apelido da torcida do Corinthians, conhecida como “Fiel”. Dois importantes periódicos de São Paulo dedicaram esforços dobrados para acompanhar os torcedores corinthianos na viagem para o Recife. O Jornal da Tarde, no seu caderno especial dedicado aos esportes publicado sempre às segundas-feiras, apresentou uma grande reportagem, “2.830 KM CORINTIANOS – Foram 49 horas de uma viagem emocionante, a mais longa excursão de uma torcida de futebol” no dia 29 de novembro. A Folha de São Paulo, que acompanhou a caravana da Gaviões da Fiel, também faz uma longa matéria no mesmo dia, cujo título era “Corinthians! Em 90 minutos”.

A viagem dos torcedores corinthianos para acompanhar a classificação da equipe para as finais do Campeonato Nacional de 1976, narrada pela imprensa como uma verdadeira epopéia, teria como desdobramento natural a “Invasão Corinthiana” ao Rio de Janeiro. Pode ser que os diversos personagens envolvidos nesse processo não tivessem uma idéia exata da forte presença da torcida paulistana em apoio ao time alvinegro. Depois de algumas décadas, São Paulo voltava a se unir.

A Invasão Corinthiana
No dia 5 de dezembro de 1976, os corinthianos vivenciaram o que ficou na memória menos por causa de uma vitória e mais pela forte presença de torcedores do clube paulista em terras cariocas. A chamada “Invasão do Maracanã” ou “Invasão Corinthiana” se coloca no complicado limiar entre memória e história.

Tratou-se de um imenso deslocamento de torcedores entre São Paulo e Rio de Janeiro. Setenta mil corinthianos assistiram, no estádio do Maracanã, a partida entre o Fluminense Futebol Clube e o Sport Club Corinthians Paulista, válida pelas semifinais do Campeonato Brasileiro de 1976 e à que atendeu um público de 146 mil pessoas. Nem na história do futebol brasileiro nem na do mundial, não se conhece outro evento esportivo com tamanho deslocamento humano.

Os paulistas estão chegando
O fascínio demonstrado pela imprensa paulista associava-se à perplexidade dos cariocas. O que seria a invasão? O que era a torcida do Corinthians? E paulista sabe fazer festa? Eram as preocupações dos veículos de comunicação cariocas em compreender o que estava acontecendo.
Apesar da Ponte Aérea, paulistanos e cariocas tinham, aparentemente, universos distantes. Ainda havia a forte idéia da descontração carioca por causa das praias e da cidade como um todo e São Paulo como um espaço essencialmente relacionado ao trabalho. Paulista trabalha, carioca desfruta dos prazeres da vida.

Quando as notícias sobre as movimentações da torcida do Corinthians começam a chegar ao Rio, as primeiras impressões foram delineadas. Tratava-se de uma dupla descoberta em que paulistas conheciam cariocas e vice-versa. A consciência de uma grande presença corinthiana no Rio apareceu rapidamente nas páginas dos jornais cariocas.

No entanto, o clima de euforia assumido pela imprensa foi quebrado por um artigo publicado pelo Jornal do Brasil, no qual o jornalista José Nêumanne Pinto apresenta e analisa o “fenômeno Corinthians”. A tese do jornalista é a de que a torcida do Corinthians estava ressentida por causa dos 22 anos sem títulos – fato que a tornou motivo de piada para os outros torcedores de São Paulo e, além disso, por conta de uma conjuntura favorável, a imprensa de São Paulo estava adotando o Corinthians como mais uma mercadoria e sucedendo nesse investimento. Rádio, jornal, revista e televisão entraram na onda corinthiana.

Se a presença da massa de torcedores corinthianos assustava parte dos cariocas, também as notícias que continuavam a chegar de São Paulo surpreendiam. Matérias com títulos sugestivos, como “Corinthiano só trabalha na terça-feira”, eram veiculadas o tempo todo na mídia.
Depois de uma semana de muita expectativa, veio o jogo. Parte das previsões se cumpriram. Provavelmente, se não fosse pela maciça presença da torcida corinthiana pelas terras cariocas, o evento não chamaria tanta atenção. Apesar de ser um jogo decisivo, a ocasião ficou, em grande parte, comprometida pela forte chuva. A decisão por pênaltis trouxe mais emoção à disputa, mas, de fato, não foi uma grande partida de futebol. Valeu, dessa maneira, mais pela presença dos torcedores.

Como não poderia deixar de ser, os jornais de segunda-feira foram invadidos: cada parte do jornal, fosse esporte ou não, falava do jogo e dos corinthianos. O Rio sentiu a invasão. Assim como já estava ocorrendo com os periódicos de São Paulo, o Corinthians e a sua torcida saíram das páginas esportivas e migraram para todas as outras seções.

Além disso, a participação da torcida e a concretização da “Invasão” só trouxeram dividendos para os que estavam no poder. A presença oportunista de dirigentes políticos da ditadura militar tentando tirar proveitos da euforia corinthiana não pode, porém, ser apresentada de forma absoluta. Os torcedores partiram para a ‘subversão da ordem’ – forma como gostavam de qualificar os generais de plantão – como, por exemplo, com o gasto de milhões de litros de combustíveis, enquanto o governo apresentava planos de racionamento.

No entanto, era mais do que isso: era também a subversão do prazer. A rigor, não havia nada de produtivo na invasão corinthiana. Muito pelo contrário, uma vez que muitos deixariam de trabalhar para acompanhar o Corinthians na capital fluminense. Um grande número de empresas de regiões industriais de São Paulo e do ABC paulista disponibilizaram transporte para os seus funcionários, em uma atitude de patronato que pode ser lida como mais um mecanismo de controle sobre os trabalhadores.

Em uma tentativa de contextualizar historicamente o acontecimento, é possível perguntar se não houve, a partir daquele momento de sociabilidade entre os torcedores a partir do futebol, uma maior possibilidade de organização para as lutas sindicais e trabalhistas. Ou seja, os mesmos trabalhadores que estiveram lado a lado para torcer e lutar por um sucesso corinthiano não poderiam estender esses laços para a luta pela democracia?

Pode-se notar que há também um ato de forte simbolismo presente nas manifestações de rua como o espaço público urbano voltando a ser ocupado. Ainda não era uma ocupação política – que pode ser compreendida como a luta pelo fim da ditadura militar –, mas mesmo que para torcer pelo Corinthians, saindo com seus carros buzinando pelas ruas da cidade, as ruas voltavam a ser ocupadas. Não eram mais as manifestações populares anteriores ao AI-5: era o povo que voltava a tomar de volta o ambiente que sempre fora seu.

É comum na história do Corinthians a convocação de especialistas no campo das humanidades para tentar desvendar pela ciência o que significa essa massa de apaixonados-torcedores. Por isso, vale destacar a conclusão apontada pelo sociólogo Sérgio Miceli, já que ainda era mais fácil tratar o futebol como um eficiente mecanismo de alienação popular. Na memória da intelectualidade ainda estava muito presente o uso político que a ditadura militar tinha feito – e continuava a fazer – do esporte mais popular do país.

“A esta altura, o Corinthians é menos um time do que uma militância, menos uma torcida desinteressante do que uma organização embrionária de anseios populares. Seria mesmo ocioso listar as inúmeras expressões com que os Gaviões se dispõem a “acordar a burguesia”. Sabem muito bem que estão embaixo, do lado do alambrado, nas gerais, têm consciência de que a segmentação da própria torcida corinthiana se inscreve num processo de luta interno e externo ao clube, envolvendo cartolas, técnicos, conselheiros”. (Sérgio Miceli, Os que sabem muito bem que estão embaixo, Jornal do Brasil, Caderno B, 13/12/1976, p. 1.)

Saiba mais:
No You Tube, imagens da invasão corintiana de 1976

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Brasil x Brasil na Copa de 2014

Brasil X Brasil na Copa de 2014

Mauricio Murad
http://www.revistadehistoria.com.br/v2/home/?go=detalhe&id=1183

A Copa de 2014 será no Brasil. Então, temos que nos preparar, porque o país escolhido hoje pode ser descredenciado amanhã.

Como organizar um megaevento esportivo, segundo os padrões internacionais, fixados a partir das Olimpíadas de 92, em Barcelona, marco divisor da história da capital da Catalunha? A primeira coisa é avaliar: 1) a última competição equivalente realizada, a Copa da Alemanha/2006; 2) o último grande torneio que o país sediou, o Pan-2007/RJ, e 3) suas outras pretensões, como as Olimpíadas de 2016. Diga-se que o COI já credenciou o Rio como cidade olímpica candidata. A segunda diz que as avaliações têm que ser científicas, para ajudar o planejamento, a execução e a gestão do legado. Então, vamos convocar uma pequena seleção de dados e informações de pesquisas feitas pela UERJ e pelo Mestrado da Universo, que podem auxiliar.

A Copa na Alemanha foi um projeto da sociedade alemã e uma ajuda à inclusão e ao desenvolvimento. Por mais de 5 anos o país investiu muito em infra-estrutura, turismo, pesquisa, cultura, educação, além de campanhas na mídia, nas ruas e nas escolas, mostrando o evento como uma grande oportunidade e o futebol como patrimônio cultural.
O lema dos quase 1 milhão de alemães, homens e mulheres, que cantaram e dançaram no último dia do Mundial, no Portão de Brandemburgo, não deixou dúvida: “a Itália ganhou uma Copa; a Alemanha ganhou uma alma”.

A segurança pública em megaeventos é sempre prioridade, para garantir os investimentos, a integridade das pessoas, a festa popular. Na Alemanha/2006 foi assim e o apoio das polícias internacionais deu exemplo e seguiu o previsto no planejamento. Segurança não pode se resumir a repressão: pesquisa, inteligência e prevenção, eis o que se faz necessário. E mais ainda em realidades como a brasileira, com práticas de violência estruturais e históricas, decorrentes de mais de 350 anos de escravidão e de uma sociedade altamente concentradora de riqueza, poder e oportunidade.

Na Alemanha, a lei foi aplicada com autoridade, rapidez e teve por base trabalhos científicos, como a restrição e controle na venda e consumo de álcool. Esta é causa da violência no país: 7000 delitos por alcoolismo na média mensal, com 875 feridos, sendo 200 policiais. Desenvolver a cooperação polícia-população e os fundamentos sócio-educacionais do esporte são pré-condições para os grandes eventos esportivos e devem ficar como legado, de acordo com a FIFA e o COI. Na Copa de 2006 e no Pan 2007, esses critérios foram considerados imprescindíveis. Lá, isto ocorreu. E aqui?

Para responder a esta indagação, durante o Pan foi feito um estudo sobre a segurança e o sentido pedagógico dos Jogos no Rio, com 2410 homens e mulheres de diferentes idades, classe social e escolaridade. Do total, 89% sabiam muito pouco do plano de segurança. Pior que a desinformação, para 72% dos entrevistados o objetivo de se criar um conceito novo de segurança não foi alcançado, e isto porque passou ao largo do envolvimento dos moradores para se construir uma rede de apoio à ação das autoridades que ficasse. Este envolvimento e esta rede de apoio estavam previstos como fatores de grande importância.

Pouco será o legado do Pan, para 83% dos pesquisados. A descrença nas autoridades e o sentimento de impunidade (traços históricos do país) foram muito freqüentes, quase unânimes entre os jovens (14 a 25 anos), o que é ainda mais grave, já que a juventude faz o futuro. Eis as razões: “isso é só pra gringo, depois a violência volta” e “não há uma política educacional para ocupar as áreas esportivas”. Importante: foi observado um aumento da descrença e do sentimento de impunidade, após o desastre aéreo, em Congonhas, SP, dia 17 de julho.

O policiamento ostensivo, maior ganho do Pan para 78%, deveria ficar, porque “ajuda a reduzir o clima de insegurança e mesmo a criminalidade”. Pedem também melhorias no transporte coletivo e no trânsito - “engarrafamento facilita arrastão”; na iluminação - “escuridão incentiva violência”; leis duras e ações preventivas; integração entre município, estado e união na área de segurança, considerada essencial (93%) para melhorar a qualidade de vida em todos os bairros estudados.

Houve propostas estruturais, como aumentar o emprego e a renda, melhorar educação e moradia. Sociologicamente interessante é que as sugestões imediatas predominaram nas classes mais altas. As de longo alcance, nas camadas mais baixas. Já entre os jovens de todas as classes houve coincidência na herança desejada: uma imediata – aplicação da lei – outra estrutural – mais emprego. Ambas vistas como complementares por 67% deles.

A Copa de 2006 foi um sucesso. O Rio não fez feio no Pan. Mas aqui deveríamos ter feito mais, controlado melhor os custos e mantido em plena atuação os mecanismos de segurança pública. Já que a Copa de 2014 bate à porta e já que queremos as Olimpíadas de 2016, que tal estudar, criticar e aprender com quem já fez?

Historicamente, esporte é atividade sócio-educativa, expressão de identidade, fator de socialização. Não resolve questões básicas, mas pode agregar valores relevantes de “consciência social” e, assim, dar mais legitimidade aos projetos coletivos.


Mauricio Murad é sociólogo e professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e do mestrado da Universo (RJ). Seu livro mais recente é A violência e o futebol: dos estudos clássicos aos dias de hoje, Editora da FGV, RJ, 2007.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Do tamanho do Maracanã

Do tamanho do Maracanã
Passou em brancas nuvens o centenário de Mário Filho, pioneiro do jornalismo esportivo no país

Filipe Monteiro e Igor Mello
http://www.revistadehistoria.com.br/v2/home/?go=detalhe&id=1951

Nelson Rodrigues cunhou a pérola: “Mário Filho foi tão grande que deveria ter sido enterrado no Maracanã”. Vinda do irmão, a frase pode soar como um exagero. Mas o genial dramaturgo não estava sozinho em sua admiração. Mário Rodrigues Filho foi o inventor do jornalismo esportivo moderno no Brasil.

Tudo começou por um desses acasos do destino, no início da década de 1920. “O pai dele, Mário Rodrigues, deixou o fechamento de A Crítica em suas mãos. Sem ter notícias para completar a primeira página, resolveu colocar uma reportagem sobre o jogo entre Flamengo e Vasco que aconteceria nas Laranjeiras”, conta o também jornalista Mário Neto, que guarda em casa diversas lembranças do avô. Mário Rodrigues, que considerava o futebol uma atividade de malandros, ficou possesso com aquela decisão do filho. Mas o caminho estava aberto: no dia seguinte, não restou um exemplar do jornal nas bancas.

Em 1931, Mário Filho fundou aquele que é considerado o primeiro jornal inteiramente dedicado ao esporte em todo o planeta, O Mundo Sportivo. A partir daí, revolucionou o modo como a imprensa descrevia jogadores e partidas, usando um vocabulário mais popular e cunhando expressões que entrariam para a história, como “Fla-Flu”. Para Mário Neto, o grande feito do avô foi “transformar o jogador de futebol em ser humano”. Assim era sua famosa coluna no jornal O Globo, onde trabalhou com carta- branca do amigo Roberto Marinho até 1937. Naquele ano, ele comprou, em sociedade com Marinho, o Jornal dos Sports, referência na cobertura esportiva por décadas, ainda hoje na ativa.

Sua dedicação ao futebol ultrapassou as fronteiras do jornalismo esportivo. Com o livro O Negro no Futebol Brasileiro (1947), Mário Filho produziu uma das três obras fundamentais para se entender o país. Isso na opinião de ninguém menos que Gilberto Freyre.

Quando o governo decidiu construir o maior estádio do mundo, para servir de palco principal da Copa de 1950, seu nome ganhou a honra de batizá-lo: Mário Filho, vulgo Maracanã. “Meu avô era uma pessoa querida por todos”, relembra Mário Neto. “Tanto que dominava os ambientes onde chegava, fosse na redação ou em uma ocasião social”. No irmão famoso tinha um fã: “Ele era um verdadeiro ídolo para o Nelson. Os dois se encontravam todos os dias e se falavam por duas, três horas. Amigos como Armando Nogueira e João Saldanha também estavam sempre presentes”.

Nem só de futebol vivia Mário. Também de carnaval. Foi dele a idéia de organizar, em 1933, o primeiro concurso de escolas de samba, na Praça XI. No ano seguinte, o evento foi oficializado.
Se merecia ser enterrado no Maracanã, seu centenário certamente ocuparia um jornal inteiro. Não foi o que ocorreu. Falecido em 1966 de ataque cardíaco, Mário faria cem anos em junho último. A data passou em branco na imprensa. O que Nelson Rodrigues diria sobre tamanha injustiça? Talvez isto: “Não há nada mais relapso do que a memória”.

domingo, 21 de setembro de 2008

A charanga do Jaime

A charanga do Jaime

por Bernardo Borges Buarque de Hollanda e Melba Fernanda da Silva
http://www.revistadehistoria.com.br/v2/home/impressao.php?id=1051&pagina=3

“– Flamengo, Flamengo/ Tua glória é lutar/ Flamengo, Flamengo/ Campeão de terra e mar.”. Com este refrão adaptado do hino oficial do clube, a Charanga saudou por quase cinqüenta anos ininterruptos a entrada de seu time em campo. Nos famosos alçapões do subúrbio, com suas precárias arquibancadas de madeira, ou no maior estádio do mundo, o Maracanã, com sua engenhosa armação de concreto, a pequena orquestra musical fez-se presente com seus instrumentos, movida pela devoção ao clube, mas também pelos dez contos de réis e pela caninha oferecida a seus componentes nos intervalos dos jogos. À sua frente, Jaime Rodrigues de Carvalho, um simples funcionário público que no decorrer das décadas iria adquirir projeção nacional e internacional como chefe de torcida do Flamengo e da Seleção Brasileira.

Foi em 1942 que surgiu a Charanga Rubro-Negra, contribuindo decisivamente para a modificação do comportamento dos torcedores nos estádios de futebol. Foi depois da Charanga que marchinhas de carnaval passaram a ser tocadas durante os jogos, intercalando os solenes hinos dos clubes, que davam uma conotação épica e heróica às partidas. Foi também por causa da Charanga que as camisas dos times, até então de uso exclusivo dos atletas, passaram a vestir os torcedores. Se antes os espectadores dos jogos abanavam fitas e lenços coloridos durante a partida, depois que seus integrantes passaram a confeccionar artesanalmente as camisas do Flamengo, grupos compactos de torcedores com os uniformes de seus times começam a se destacar nos estádios. Até os anos 1940, a roupa dos espectadores de futebol não se distinguia da vestimenta das elegantes platéias de teatro, cinema e ópera, o habitual terno com gravata. A camisa do uniforme populariza a paisagem das arquibancadas. Em um setor reservado e separado dos demais por um

cordão de isolamento, as torcidas uniformizadas são convocadas a comparecer por rádios e jornais, em número que às vezes chega a mil integrantes. Após a realização de ensaios durante a semana, elas executam coreografias que usam painéis, cartões e sinalizadores luminosos, ainda mais atraentes nas partidas noturnas. Com o aparecimento da Charanga, o público do futebol transforma sua condição inicial de assistência. As torcidas assumiam um caráter ativo nas disputas, encorajando seus times ou intimidando seus adversários.


A Charanga foi idéia do baiano Jaime de Carvalho, um apaixonado por futebol que na final do Campeonato Carioca de 1942 chegou cedo ao estádio carregando a única bandeira do Flamengo existente na cidade – na véspera, ele conseguira tirar a bandeira do mastro da sede do clube. Ao lado de Jaime, quinze músicos com instrumentos de percussão, clarins, pistom e um trombone. A presença daquele grupo ruidoso instalado na arquibancada causou espanto, pois até aquele momento a música só fazia parte das comemorações fora do estádio, em cortejos de carros, em bondes e em passeatas que percorriam diversos pontos da cidade.

O sucesso da estréia do grupo levou a banda a acompanhar o time com regularidade. O apelido gaiato de “charanga” – que tanto quer dizer pequena orquestra de instrumentos de sopro e percussão quanto, na gíria, música desafinada – surgiu depois de um comentário do compositor – e locutor de futebol, além de torcedor do Flamengo – Ary Barroso, em seu programa de rádio: “Me desculpem, mas isso não é banda nem aqui nem no caixa-prego”. Em 1943, a Charanga enfrentaria resistências por parte do meio esportivo. Isso porque a tal desafinação do grupo revelou-se um recurso estratégico não só para prestar apoio ao Flamengo, mas, sobretudo, para atrapalhar a concentração dos adversários. Nos acanhados estádios de futebol da época, o público ficava muito próximo ao gramado. A Charanga se instalava atrás do gol para distrair e irritar os goleiros das equipes adversárias. Irritação que chegou aos tribunais desportivos, quando o São Cristóvão tentou impugnar o resultado de um jogo alegando que a Charanga tirava a concentração de seu goleiro – que não conseguiu defender quatro gols naquela partida. Foi o bastante para dirigentes de outros clubes tentarem banir a orquestra em definitivo. Não conseguiram, pois o então presidente da Federação Metropolitana de Futebol, Vargas Neto, achava que a música contribuía para atenuar as brigas entre os torcedores e para abafar os palavrões, cada vez mais ouvidos durante as partidas. Vargas Neto era cronista do Jornal dos Sports e compartilhava os mesmos princípios de seu diretor, Mário Filho, jornalista que se dedicava, desde a década de 1930, a promover as escolas de samba e o futebol profissional na cidade como verdadeiros espetáculos de massa. Para eventos de tal monta, era necessária a constituição de um público participante que assistisse às competições de maneira festiva e animada, sem arroubos ou excessos de conduta. A presença de um chefe de torcida que auxiliasse o trabalho do chefe de polícia era, portanto, bem-vinda. Em meio a críticas e a incentivos, o grupo de Jaime foi se firmando nos três primeiros anos de existência, graças também aos sucessivos triunfos do Flamengo, que se sagrou pela primeira vez tricampeão carioca, com a vitória de 1944 em seguida aos triunfos de 1942 e 43.


A inauguração do Maracanã em 1950 marca uma nova fase na participação de Jaime de Carvalho como torcedor: foi escolhido para assumir a chefia da torcida da Seleção Brasileira no estádio recém-inaugurado, construído especialmente, porque o Brasil iria sediar a Copa do Mundo naquele ano – o primeiro torneio depois de doze anos de intervalo, em virtude da Segunda Guerra Mundial.

O Brasil queria mostrar à Europa a capacidade de organização de uma nação. A preocupação em passar a imagem de um país pacífico e cordato fazia com que as autoridades esportivas delegassem a Jaime de Carvalho boa parte do encargo de orientar os torcedores no estádio. Uma intensa campanha desenvolvida pela imprensa ressaltava a inconveniência do arremesso de objetos no gramado, do uso de palavrões, e recomendava a chegada antecipada ao estádio, a fim de evitar tumultos na entrada. Os meios de comunicação davam inteiro aval à Charanga nos jogos do Brasil, que contava ainda com o patrocínio de uma loja de roupas a anunciar suas atividades, seus preparativos e suas surpresas para os dias de jogo. A reação pacífica do público na partida final da competição, após a inesperada derrota para o Uruguai, valeu aos torcedores inúmeros elogios, inclusive do presidente da Fifa. Em casa, os brasileiros haviam dado uma demonstração de espírito esportivo, sabendo perder com dignidade.

Tamanho foi o êxito de Jaime de Carvalho na organização dos torcedores brasileiros que ele foi convocado para acompanhar a Seleção Brasileira na Copa seguinte, na Suíça, em 1954, a pedido do jogador Didi e de outros membros da delegação. O Jornal dos Sports lançou uma campanha para custear a viagem, concedendo a Jaime não só a passagem como o status de “embaixador” da torcida brasileira no exterior. Ao desembarcar na Suíça, Jaime levava na bagagem vários apetrechos, entre eles dez couros para confeccionar surdos, trezentas gaitinhas, duas sirenes e um par de pratos de banda de música. Na estréia da Seleção, entrou em campo junto com os radialistas brasileiros e estendeu sobre o alambrado uma faixa verde-amarela que tinha, bordado em branco, o lema “Avante, Brasil!”, uma novidade em âmbito internacional.


Começava um ciclo de viagens internacionais de Jaime, sempre na condição de animador de torcidas – e de equipes – esportivas. No mesmo ano de 1954, Jaime participaria do Campeonato Sul-Americano, na Argentina. Sua mulher, Laura de Carvalho, ficou responsável pela confecção da maior bandeira do Brasil feita até então, com oito por dez metros, que seria desfraldada na entrada do time em campo. Outra inovação do líder da Charanga: a utilização da imensa bandeira para concentrar os torcedores de um país dentro de um estádio, fato inédito na época. A experiência das viagens se tornaria assim recorrente ao longo das décadas e perduraria até o fim da vida de Jaime de Carvalho. Sua participação se estenderia à Copa do Mundo do Chile, em 1962, quando o Brasil obteve o bicampeonato; às partidas eliminatórias no Paraguai, válidas para o Mundial do México, em 1970, quando o país torna-se tricampeão; e à Copa do Mundo da Alemanha, em 1974, onde assistiria aos treinos e organizaria várias passeatas pelas cidades alemãs. Jaime só não esteve na Copa da Suécia, em 1958, e na da Inglaterra, em 1966, por problemas de família.

O prestígio adquirido com a atuação nos jogos da Seleção Brasileira levou a Charanga a expandir suas atividades além do futebol profissional e aos embates do campeonato carioca. Jaime passaria a seguir o Flamengo de trem, nas partidas válidas pelo torneio Rio-São Paulo de clubes, campeonato instituído na década de 1950. A Charanga se integraria a diversas modalidades esportivas em que o Flamengo estivesse envolvido, como o remo, o vôlei e o basquete. Os esportes amadores também seriam alvo de interesse da agremiação, que marcaria presença ainda nos Jogos da Primavera e nos Jogos Infantis, eventos tradicionais da cidade. Nos anos 1960, o Jornal dos Sports relançou o Duelo de Torcidas – competição que já promovera em 1936 e também na década de 1950. Um júri reunido pelo jornal avaliava a performance dos torcedores nas arquibancadas com base em critérios estéticos que enfatizavam a qualidade e a vibração das baterias, a originalidade e a criatividade das fantasias, a quantidade e o tamanho das bandeiras, entre outros quesitos. Tratava-se de levar para a arquibancada o mesmo espírito esportivo vivenciado dentro de campo e de transferir para os estádios a lógica da competição dos desfiles das escolas de samba

Esses estímulos da imprensa esportiva acabariam por impregnar os jogos de uma ambiência carnavalesca. Os cronistas não mediriam esforços para descrever, por meio de metáforas, a beleza proporcionada pela agitação de sirenes, flâmulas, confetes, serpentinas, estandartes e balões multicoloridos. Em tom grandiloqüente, Mário Filho se referia ao “rumor oceânico da multidão” e aos “abalos sísmicos” provocados pelo frenesi da torcida. Já Vargas Neto salientava “as cachoeiras de papéis picados”, que produziam uma “cascata de arco-íris”. Nelson Rodrigues, por sua vez, imprimia à comemoração dos gols o timbre poético que lhe era característico: “no ar, por muito tempo, o grito em flor”; “no mar, uma flora de bandeiras flamengas”.


Para a produção de semelhante espetáculo, chefes de torcida como Jaime, Dulce Rosalina, Tarzã e Paulista se mobilizavam durante a semana inteira. Jaime arregimentava as crianças da vizinhança de sua casa em Niterói para fazer as bandeirinhas, comprava tecidos para as bandeiras e buscava subvenção junto aos dirigentes do clube para vencer os torneios entre as torcidas. No caso da Charanga, a preparação culminava na véspera da partida, quando dona Laura passava a noite fazendo refeições para receber, na manhã seguinte, os trinta músicos que compunham o grupo. Depois do lanche matutino, os integrantes da banda se encaminhavam para o Maracanã, a fim de demarcar o território, distribuir as tarefas, desfraldar as bandeiras, amarrar as faixas e afinar os instrumentos. Embora o jogo principal só começasse à tarde, a Charanga costumava chegar ao estádio às dez horas da manhã.

Essa rotina de campeonatos ficaria comprometida no final da década de 1960, quando Jaime de Carvalho adoeceu e precisou se tratar de problemas de saúde, como hipertensão e diabetes. O afastamento temporário de Jaime dos estádios criou um vácuo na liderança da torcida do Flamengo, levando ao surgimento de uma crise em seu interior. Um grupo de torcedores decidiu abandonar a Charanga e criar uma torcida organizada própria, que chamaram de Poder Jovem – e que mais tarde se transformaria na Torcida Jovem do Flamengo. Em uma época marcada pela rebeldia de jovens no mundo inteiro, destacando-se o movimento da juventude francesa em maio de 1968, a nova geração de torcedores também queria ter participação diferente nos estádios, protestando e criticando as atuações da equipe, procedimento inconcebível para Jaime de Carvalho, que não admitia vaias ou qualquer tipo de hostilidade aos jogadores. Com o questionamento de sua autoridade, o ato de torcer tomaria outros rumos, gerados pela cisão na unidade da torcida.

Naquela época, entretanto, Jaime era respeitado na cidade e se tornava um personagem célebre no meio esportivo, homenageado tanto pelos flamenguistas quanto por torcedores de outros times, que o consideravam o “chefe dos chefes” de torcida. Jaime de Carvalho viria a receber ainda o título de torcedor número um do Rio, outorgado pelo capitão de policiamento do Maracanã. Porta-voz dos alvinegros, Tarzã subiu ao palco no aniversário da Charanga com uma enorme bandeira do Botafogo, entregou a Jaime uma estatueta com a figura de um pescador e assim se pronunciou: “Comparo um chefe de torcida a um pescador, sempre pescando simpatias. Jaime é um pescador de simpatias”. A homenagem principal viria no ano de 1973, quando recebeu o título de cidadão honorário do Estado da Guanabara pelos serviços prestados ao “clube mais querido do Brasil”.


Jaime de Carvalho permaneceria no comando da Charanga até seu falecimento, em 1976. A chefia da torcida passou para sua mulher, Laura, que manteria ativa a Charanga durante a década de 1980. Sua retirada dos estádios ocorreu na década seguinte. As torcidas organizadas passam a usar a batida funk para embalar seus cantos e, com maior capacidade de mobilização, apropriam-se do espaço ocupado pela Charanga. Sem mais ecoar como outrora, a orquestra se deslocou para as cadeiras comuns do Maracanã e, pouco tempo depois, retirou-se do estádio, limitando sua atuação às partidas amadoras ou aos eventos sociais do clube.

Precursor de um movimento de aproximação entre a música e o futebol, elementos-chave na construção da imagem nacional, Jaime de Carvalho ajudou a formar uma platéia festiva e competitiva nos estádios do Rio de Janeiro durante as décadas de 1940, 1950 e 1960. Encarnou, assim, a abnegação por um clube, emblema de um cotidiano compartilhado por milhares de torcedores. Ao criar uma atmosfera comunitária, promoveu a integração de professores, advogados, escriturários, magistrados, médicos, operários, militares, até expoentes da Era do Rádio, como a cantora Ângela Maria e o cantor Blecaute. Embora não tenha pertencido ao grupo, seria Wilson Baptista o sambista que melhor exaltaria a profissão de fé do torcedor: “Pode chover,/ pode o sol me queimar/ que eu vou pra ver/ a Charanga do Jaime tocar:/ – Flamengo, Flamengo!/ tua glória é lutar,/ quando o Mengo perde/ eu não quero almoçar,/ eu não quero jantar.”.

Bernardo Borges Buarque de Hollanda é doutorando em História Social da Cultura na PUC-Rio. Autor do livro O descobrimento do futebol: modernismo, regionalismo e paixão esportiva em José Lins do Rego. Rio de Janeiro: Edições Biblioteca Nacional, 2004.

Melba Fernanda da Silva é historiadora e ex-pesquisadora do Patrimônio Histórico do Clube de Regatas do Flamengo.

sábado, 20 de setembro de 2008

Torcidas jovens: Da Rebeldia à violência nos Estádios

Torcidas jovens: da rebeldia à violência nos estádios

Em entrevista ao site da Revista de História da Biblioteca Nacional, o professor de História Social do Futebol na UFRJ Bernardo Buarque explica o fenômeno das torcidas organizadas ao longo das décadas

Marina Lemle
http://www.revistadehistoria.com.br/v2/home/?go=detalhe&id=1790


O olhar do historiador Bernardo Buarque para o seu objeto de estudo não é só de fora. Torcedor do Flamengo, ele está realmente por dentro quando o assunto é torcida.

Em maio, Buarque defendeu na PUC-Rio a tese de doutorado O clube como vontade e representação: o jornalismo esportivo e a formação das torcidas organizadas de futebol do Rio de Janeiro (1967-1988). As quase 800 páginas do trabalho deram prosseguimento aos seus estudos de mestrado, focados nos anos 40 e 50, que renderam o livro O descobrimento do futebol: modernismo, regionalismo e paixão esportiva em José Lins do Rego, editado pela Biblioteca Nacional em 2004.

Em entrevista ao site da Revista de História da Biblioteca Nacional, Buarque, professor do curso de História Social do Futebol na UFRJ, contextualizou a história das torcidas no Brasil.

Quando o futebol se torna um esporte de massa?

A popularização do futebol começa já no final da década de 1910, mas se consolida no imaginário nacional na década de 30, com o advento do profissionalismo, impulsionado por jornalistas como Mario Filho, que comprou o Jornal dos Sports, graças ao auxílio financeiro de Roberto Marinho, seu amigo em O Globo. Até a década anterior, os jornais traziam poucas notícias sobre esportes, limitando-se às regatas e corridas a cavalo. Mario Filho cria uma narrativa romanceada para a crônica esportiva e começa a publicar fotos e entrevistas com jogadores de futebol. Isso ajuda o futebol brasileiro a passar de esporte de elite, aristocrático, para esporte de massas. Com o incentivo dos jornalistas, o Flamengo se torna um time de grande apelo popular. Dissidente do Fluminense, o time treinava num campo aberto, na Glória, e depois, nos anos 30, quando se muda para a Gávea, começa a transmitir os jogos para o Brasil inteiro, por rádio, e a contratar jogadores negros que eram ídolos nacionais, como o artilheiro Leônidas da Silva. Surge o jogador assalariado. Antes, os jogadores utilizavam o futebol como hobby: eram estudantes de engenharia e bacharéis em direito, por exemplo. Com o profissionalismo, Mario Filho defende uma distinta mentalidade para o futebol, sua transformação em espetáculo de massas.

Como nasceram as torcidas no Brasil?

A primeira torcida organizada do Flamengo e do Rio de Janeiro foi a Charanga, criada em 1942 pelo baiano Jaime de Carvalho, que também era chefe da torcida do Brasil. Durante as Copas do Mundo, Jaime chegou a representar a torcida brasileira na Suíça, em 1954, e na Alemanha, em 1974. Foi ele quem trouxe para as torcidas os instrumentos rítmicos e de sopro, os metais. Ele carnavalizou a arquibancada. E o Mario Filho estimulava isso, criou um concurso de torcidas, que tocavam marchinhas e jogavam confete e serpentina.



Em 1942, Lamartine Babo compôs os hinos populares dos times, cantados até hoje. Cada clube passou a ter sua torcida e seu chefe de torcida, que era uma figura carismática: Tarzã do Botafogo, Dulce Rosalina do Vasco, Paulista do Fluminense. Antes da Era Maracanã, o futebol tinha ares mais provincianos, embora inúmeras brigas já se registrassem.

Como surgiram as Torcidas Jovens?

A primeira torcida jovem – Poder Jovem, criada em 1967 – é uma dissidência da Charanga. Jaime de Carvalho tinha se afastado temporariamente dos estádios por motivos de saúde. Neste vácuo, um grupo de jovens torcedores decidiu abandonar a Charanga e criar uma torcida organizada própria, a Poder Jovem, que em 1969 se transforma oficialmente na Torcida Jovem do Flamengo. Essa nova geração de torcedores queria protestar e criticar as atuações da equipe no estádio, o que era inconcebível para o Jaime de Carvalho. Ele não admitia vaias ou qualquer hostilidade aos jogadores. Mas a rebeldia da juventude marcou essa época no mundo inteiro e nas torcidas também. Em 1967, um grupo de artistas – Elis Regina, Ronaldo Bôscoli, Chico Buarque, Nelson Motta e Hugo Carvana, entre outros – fundam a Jovem Flu, como movimento independente do clube. Em 1968, com o AI-5, ela dispersa, mas volta em 1969. Em 1970, acaba de novo, mas surgem duas torcidas organizadas: a Young Flu e a Força Flu. Em 1974, um grupo recria a Jovem Flu, que dura até os anos 80.

Quais foram as principais mudanças nas torcidas nos anos 60?

O Maracanã foi construído na década de 1950 para 200 mil pessoas e seu projeto circular foi copiado pelos militares e estendido para o Brasil inteiro. Como a arquibancada do Maracanã ficava muito longe do campo de jogo, a idéia do coro, do canto coletivo, ganhou força. Mudou-se a estrutura musical: saem os pratos e sopros, fica só a percussão, a bateria. As torcidas começam a parodiar letras de sambas-enredo: “Pega no Ganzê”, do Salgueiro, “Domingo”, da União da Ilha. O coro em uníssono tem poder de influência, a letra longa e o refrão monótono têm impacto. As torcidas eram provincianas, de pequeno porte, mas passaram por mudanças sociais, culturais e econômicas. Junto com o futebol, se agigantaram, tornando-se um fenômeno de massas.

Por que o título “torcidas organizadas”?

Hoje as torcidas são registradas juridicamente como Grêmios Recreativos, tal como as Escolas de Samba, e se constituem como clubes dentro do clube. Existem em função dele, mas têm economia e sede próprias. No final dos anos 60, como não dependiam mais das torcidas oficiais e da diretoria dos clubes, as torcidas jovens fizeram críticas e protestos, reproduzindo no futebol a mesma contestação juvenil da música, do teatro e das artes, e tinham para isso o apoio da imprensa. O elo de fidelidade com os clubes se quebrava. O ano de 1968 foi marcado por manifestações e até passeatas no Maracanã.

E a partir dos anos 70?

Há um grande crescimento do número das torcidas ao longo dos anos 70. A cada jogo havia uma torcida nova, representado um bairro específico. Com isso, por um lado, há um aumento nas brigas, mas por outro há o reconhecimento das lideranças entre si e um incipiente processo de politização.

Em 1980, surge a Astorj - Associação das Torcidas Organizadas do Rio de Janeiro -, uma tentativa de agrupamento em torno de interesses comuns. Entre 1981 e 1984, torcedores fazem piquetes e boicotes pela redução do preço dos ingressos, entre outras reivindicações. Mas no fim da década a violência urbana explode e o futebol acompanha isso. A Astorj não consegue conter as rixas entre facções de torcidas e acaba se dissolvendo.

Por que tanta violência no futebol?

O futebol é uma leitura do que acontece no jogo da sociedade, já disse o antropólogo Roberto da Matta. Ele foi inventado para sublimar guerras e manter o conflito social em níveis toleráveis, variando de acordo com a conjuntura. Na Inglaterra, a partir da Copa de 1966, torcedores inflamados - jovens proletários em sua maioria subempregados - ganham visibilidade. Passam a instalar-se atrás do gol, apresentam um espírito combatente, almejam vencer o “inimigo”. A lógica da violência grupal nos estádios aqui começou nos anos 70, mas piorou em meados de 80. A violência dos Hooligans ficou marcada no jogo Juventus X Liverpool, na Bélgica, em 1985, que ficou no imaginário popular pelas trágicas imagens registradas pela televisão. No Brasil, a primeira morte intencional de um chefe de torcida, o Cleo, da Mancha Verde, do Palmeiras, ocorreu em 1988. Hoje, há membros de torcidas que têm relação com o crime organizado, são vinculados a facções. Repito: o futebol faz uma leitura muito própria e sintomática do que está acontecendo na sociedade.

E o que se faz diante disso?

A Inglaterra aumentou o preço dos ingressos, mas a violência não passa exclusivamente pela condição social. A nova era do futebol globalizado re-elitiza os estádios. Na nova infra-estrutura, há câmeras e monitoramento. É por isso que se tem a sensação de que o Maracanã está encolhendo. Não existe mais a Geral, as arquibancadas têm acentos, seguindo o paradigma do conforto, do consumo. O dinheiro do futebol não vem somente da capacidade de receber público pagante, então o ideal é ter estádios menores, sob controle e vigilância, para 50 mil pessoas, e ingressos a cem reais. E o povão ? Assiste pela TV. Isso é um problema para as torcidas organizadas, que são uma espécie de resistência a esse movimento elitizante. Os meios de comunicação e os clubes vêm incentivando novas torcidas, como a Legião Tricolor, os Guerreiros do Almirante, os Loucos pelo Botafogo, a Urubuzada, entre outras, que adotam o modelo de torcidas da Argentina, onde o princípio é o apoio incondicional ao time. Por isto, estas novas torcidas vêm crescendo nas cadeiras amarelas, roubando a cena dos antigos grupos. Hoje os clubes são punidos por torcidas que arremessam objetos o gramado e isso repercute no modo de comportamento do torcedor em geral.

Você acha que essa elitização dos estádios vai interferir na cultura do futebol?

Mesmo assistido pela TV, o futebol continua sendo uma paixão popular. A idéia de que as relações capitalistas vão acabar com a “genuína alma” do futebol não está bem colocada. Este esporte muda conforme a sociedade e, portanto, não deve haver nem maniqueísmo nem saudosismo. No mundo globalizado os jogadores são astros pagos pela sua performance e o capitalismo dá o maior valor ao alto rendimento, ao corpo olímpico. A TV está alterando o comportamento dos jogadores. A cobertura televisiva interfere na forma de torcer e jogar. No limiar do século XXI, a discussão sobre nacionalidade está posta em xeque: os jogadores vão para fora cada vez mais novos, não têm tanta relação com a camisa. É ruim ter telão? Não, o conforto é positivo. O projeto de demolir o Maracanã, defendido por Ricardo Teixeira, em imitação ao que os ingleses fizeram com Wembley, não vingou. O estádio vem sendo remodelado, atendendo às novas demandas do futebol internacional, mas é preservado como símbolo, como ícone nacional, como patrimônio cultural na memória brasileira.

Você é ou já foi de alguma torcida?

Nunca pertenci a nenhuma torcida organizada, embora possa me considerar simpatizante da
Raça Rubro-Negra, de onde costumava assistir aos jogos quando ia com mais freqüência. Nos anos 90, cheguei a viajar algumas vezes para Minas Gerais e para São Paulo, a fim de assistir a jogos decisivos do Flamengo pela Copa do Brasil.

Enquanto torcedor, o que você prefere? As torcidas jovens, críticas e às vezes violentas, ou as novas torcidas, bem comportadas e fiéis como a Charanga?

É difícil dizer, pois tenho admiração pelas torcidas de uma maneira geral, sejam as jovens sejam as charangas. É extremante louvável o reaparecimento das Charangas no cenário do futebol carioca. Trata-se de uma “reinvenção das tradições” no seio das torcidas, para usar o termo do historiador Hobsbawm, que aliás escreveu instigantes linhas sobre o futebol na Inglaterra e no mundo contemporâneo.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Copa 2014: lições a partir da Copa América da Venezuela

*Copa 2014: lições a partir da Copa América da Venezuela *

*O modelo de gestão de um evento futebolístico no país de Chávez, onde o beisebol é o esporte número 1*

*Autor: *Paulo Fávero*

http://www.cidadedofutebol.com.br/Universidade/Web/Site/index_area_estudossociais.asp?arq=artigo.asp&id_cont=1807


A Venezuela tem o beisebol como seu esporte mais popular. Mas o país sabe que não pode ignorar o esporte mais popular do mundo. Entre junho e julho de 2007, a Copa América foi realizada naquele país. Contou com todas as seleções pertencentes à Conmebol, além de Estados Unidos e México.
Primeiramente, é preciso entender a realização da Copa América em um país que não gosta de futebol – e também tirar algumas lições que podem ajudar o Brasil para organizar a Copa do Mundo de 2014. Além do beisebol, basquete, vôlei, rúgbi e boxe também são esportes comuns na rotina do venezuelano. A principal intenção foi popularizar o futebol no país e o interesse na Copa América foi mais por ser um evento esportivo grandioso do que pelo esporte e si. E, claro, por ser também um grande negócio.

Pensando nas questões de geopolítica, o presidente Hugo Chávez fez de tudo para conseguir um uso político da competição. Todas as cidades-sede passaram por processos de mudanças na infra-estrutura, cartazes com propagandas do governo eram vistos nas ruas e nos estádios e material político sobre o Socialismo Bolivariano foi distribuído para a imprensa estrangeira. Estava claro que a tentativa era usar o futebol como forma de popularizar o regime chavista.

Uma situação curiosa foi ver um banner do governador Tarek William Saab, do estado de Anzoátegui, que foi sede do Brasil na primeira fase da Copa América. Ele é muito amigo de Chávez, que o chama de "O Poeta da Revolução".
Tarek tinha fotos espalhadas por todos os lados e declarou: "Minha aprovação (pela população) é de 60%. Depois da Copa América, vai passar dos 70%". O banner abaixo ilustra bem o uso político do torneio.


*Ilustração 1* – Banner com o governador do estado de Anzoátegui, na Venezuela

Além do uso político, era nítida a intenção de usar a Copa América como negócio. Em alguns estados, a intenção era usar a competição para colocar a Venezuela no mapa turístico do mundo. Muito dinheiro foi envolvido para dar um padrão "europeu" para a competição, principalmente para os campos de jogo. O torneio contou com transmissão para 186 países (em três idiomas – espanhol, português e inglês) e público acumulado de 4 bilhões de pessoas para assistir aos jogos. Com o convite para os Estados Unidos participarem do torneio, o evento teve uma inserção no mercado norte-americano. No total, mais de 4 mil profissionais de imprensa estavam envolvidos na cobertura jornalística.

Para conseguir realizar a Copa América, a Venezuela teve de construir dois novos estádios e remodelou outros sete. Os gastos foram superiores a US$ 500 milhões para as obras dos estádios e todos foram considerados de nível europeu. Houve uma disputa política para ver quem seria sede de partidas importantes, mas a concentração das sedes ocorreu na parte norte do país.
Apesar do esforço, muitas obras estavam inacabadas durante a competição e os políticos fizeram a promessa de que espaços (estádio, campos de treinamento) serão usados para escolinhas de futebol para crianças carentes.

*Ilustração 2* – Sedes da Copa América 2007, na Venezuela

Algumas coisas interessantes podem ser relatadas pensando numa comparação com nosso País. A principal delas, grande diferencial em relação ao Brasil, é que a paisagem venezuelana apresenta poucos campos de futebol. Outro diferencial é em relação ao tratamento do torcedor. Apesar da venda problemática de ingressos, havia uma grande quantidade de bilhetes a preços populares e as tevês estatais transmitiram todos os jogos.

A ideologia chavista estava em toda parte, como já colocado. Inclusive em detalhes nos próprios estádios. Em Maracaibo, palco da final da Copa América entre Brasil e Argentina, as paredes estavam pintadas com desenhos de Che Guevara e Simon Bolívar, conforme imagens abaixo:


*Ilustração 3* – Pinturas na parede do estádio de Maracaíbo, palco da final da Copa América 2007

Ao final da competição, o presidente da Fifa, Joseph Blatter, elogiou a organização do torneio e prestigiou a decisão da Copa América. Sinal de status para a Venezuela e para a Confederação Sul-Americana de Futebol.
Aliás, para o projeto geopolítico da Conmebol, isso é fundamental. Assim como o convite para México e Estados Unidos. Outro fator importante é que o torneio foi realizado em ano diferente da Eurocopa, a principal competição de seleções da Europa. Mas a Copa América é o torneio de seleções mais antigo do mundo e uma excelente vitrine para mostrar o talento dos sul-americanos, ou seja, para a exportação de atletas. Milhares de empresários de jogadores estavam na Venezuela para tentar fazer negócio.

Até o presidente da Fifa pediu que as outras seleções olhassem para a Copa América como o exemplo de futebol bem jogado, que se mirassem no futebol ofensivo que foi apresentado na competição. Joseph Blatter até elogiou a final entre Brasil e Argentina: "não apenas deslumbraram os espectadores presentes no estádio, mas também a centenas de milhões de telespectadores, provando o valor do futebol sul-americano no mundo todo". Mesmo assim, no futebol globalizado, Brasil e Argentina continuarão exportando seus melhores atletas e os jogadores da Seleção Brasileira não terão identificação com a torcida, pelo fato de fazerem suas carreiras fora do país. E o caso da Venezuela serve de aprendizado, tanto erros quanto acertos, para um País que será sede da Copa do Mundo de 2014.

*BIBLIOGRAFIA
*
COSTA, Wanderley Messias da. Geografia Política e Geopolítica. Tese de Doutorado, São Paulo, 1990.
MASCARENHAS, Gilmar. A bola nas Redes: Futebol, Território e Conectividade no Brasil. Trabalho de Pós-Graduação, Rio de Janeiro, 1999.
VESENTINI, José William. Imperialismo e Geopolítica Global. São Paulo:
Papirus, 1990.

** Paulo Fávero é jornalista, geógrafo, mestrando em Geografia Humana na FFLCH-USP com apoio do CNPQ e participante do GIEF (Grupo Interdisciplinar de Estudos sobre Futebol)*

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

A vírgula

Vírgula pode ser uma pausa ou não.
Não, espere.
Não espere.

Ela pode sumir com seu dinheiro.
23,4.
2,34.

Pode ser autoritária.
Aceito, obrigado.
Aceito obrigado.

Pode criar heróis.
Isso só, ele resolve.
Isso só ele resolve.

E vilões.
Esse, juiz, é corrupto.
Esse juiz é corrupto.

Ela pode ser a solução.
Vamos perder, nada foi resolvido.
Vamos perder nada, foi resolvido.

A vírgula muda uma opinião.
Não queremos saber.
Não, queremos saber.

Uma vírgula muda tudo.

ABI: 100 anos lutando para que ninguém mude uma vírgula da sua informação.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

O País dos Paraolímpicos

Em nono, Brasil tem o melhor resultado da história nos Jogos

Delegação fecha participação em Pequim com 47 medalhas, um crescimento de 42% em relação a Atenas

André Rigue - estadao.com.br
Oliver Weiken/Efe
http://www.estadao.com.br/esportes/pequim2008/not_esp243220,0.shtm


Última medalha chegou no futebol de 5

SÃO PAULO - O Brasil encerrou sua participação nos Jogos Paraolímpicos de Pequim com o melhor rendimento da história. Ao todo, os atletas trouxeram para o País 47 medalhas, resultado que deixou a delegação na nona colocação. Foi a primeira vez que o País terminou no top 10 - clique aqui e veja os nomes de todos os medalhistas.

Até então, a melhor colocação brasileira havia acontecido nos Jogos de Atenas, em 2004, quando o Brasil conquistou 33 medalhas e terminou em 14.º lugar. Em Pequim, os brasileiros tiveram um crescimento de 42% no quadro de medalhas, conquistando 14 pódios a mais do que na edição grega.

O País somou 16 ouros no total (a última conquista foi nesta quarta-feira no futebol de cinco). Foram duas medalhas a mais do que em Atenas. O principal nome brasileiro em Pequim foi o do nadador Daniel Dias, que levou quatro ouros em nove pódios - André Brasil também venceu quatro provas na natação.

O rendimento por atleta brasileiro, no entanto, foi pior do que nos Jogos de 2004. Em Atenas, o Brasil teve 98 competidores, com uma média de uma medalha para cada três pessoas. Em Pequim, a delegação foi bem maior: 188 competidores, com uma média de um pódio para cada quatro integrantes.

Desde que começou a participar da Paraolimpíada, em 1972, na edição de Heidelberg (ALE), o Brasil apresenta uma evolução no quadro de medalhas. Nos Jogos Paraolímpicos de Londres, em 2012, a expectativa é de que a delegação supere a casa dos 200 integrantes e tenha muito mais conquistas.

Se na Paraolimpíada o Brasil se transforma numa potência, o mesmo não ocorre na Olimpíada. Em Pequim, no mês de agosto, os brasileiros conquistaram 15 medalhas, apenas três de ouro. A delegação terminou em 23.º lugar, uma queda de oito posições em comparação com o rendimento em Atenas, quando o País levou cinco medalhas douradas.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Nem aqui, nem na China

Nem aqui, nem na China

*O desempenho do futebol brasileiro em Pequim e a pressão em cima do técnico
Dunga*

Autor: Paulo Nascimento*


http://www.cidadedofutebol.com.br/Universidade/Web/Site/index_area_tecnicopedagogica.asp?arq=artigo.asp&id_cont=1804

Primeiro, foram os protestos pró-Tibete. Isso, em concomitância a um trágico terremoto. Em seguida, a espetaculosidade do evento chamou a atenção da maioria de modo que não conseguíamos pensar em muita coisa além de resultados, partidas, medalhas. Quadro de medalhas... Muito se falou sobre a mudança de critério dos americanos para apontar quem era o país de melhor desempenho dos Jogos, sobre as maracutaias da organização dos Jogos para a Cerimônia de Abertura, o sueco da luta greco-romana que abandonou sua medalha de bronze em protesto, sobre Phelps, Usain Bolt... Mas o que poderia servir de mote para discussões políticas e sociais acabou não acontecendo.

Fiquei impressionado como, ao menos aqui na mídia brasileira, pouco ou nada se falou de outros assuntos. Eram análises restritas aos acontecimentos nas piscinas, nas quadras, os recordes... e quase nada além disso. E isso porque estava acontecendo uma guerra simultaneamente à realização dos Jogos1! Com isso não quero dizer, de modo algum, que há uma alienação inerente aos Jogos Olímpicos ou a qualquer grande evento esportivo. Não é essa a questão que me chama a atenção. Acredito, inclusive, que a beleza atlética2 seja um atrativo bastante legítimo para que prestemos atenção às disputas esportivas de qualquer ordem, de qualquer alcance, e que, por conta da dimensão dos Jogos Olímpicos, acabam adquirindo uma repercussão enorme mundo afora.
Contudo, no que diz respeito aos recém-encerrados Jogos Olímpicos de Pequim, pouco se falou sobre questões de ordem geopolítica, social, econômica. Sendo que a China é, talvez hoje, a nação que chame mais a atenção da comunidade internacional globalizada, por conta de sua ascensão econômica concomitante à estagnação econômica norte-americana, por seu jeito comunista de fazer capitalismo, pelo pouco respeito a demandas da ordem dos direitos humanos e da liberdade de imprensa. Nem uma palavra sobre estes pontos polêmicos. E, aos atrevidos, foi relegado um discreto cala-boca. Afinal, o espetáculo não pode parar.

E como o futebol brasileiro ficou nessa história? A equipe feminina, à qual não irei me ater muito, teve um papel interessante, embora com um gosto de frustração ao final da participação, um paradoxal misto entre a consciência de que poderiam ter vencido, acompanhada da resignação de que, comparado ao apoio que recebem das instituições em seus países, o resultado que alcançaram foi excelente. Na terceira final seguida de um torneio importante, as brasileiras ficam com a prata, o segundo, o não-ouro, o vice, tão achincalhado por aqui. Triste, talvez, mas nada vergonhoso. Já a masculina...

Como era de se esperar, muita polêmica nos momentos pré-Jogos. A não-liberação de alguns atletas por seus clubes, o pouco respaldo dado pelos dirigentes brasileiros, a ínfima preparação, feita em poucos dias, para o torneio. Tudo isso somado ao ufanismo exagerado por parte dos brasileiros, que mantêm a torcida por seus atletas, seus times, sua nação, acreditando que, já que o brasileiro não desiste nunca, as chances de vitória sempre existem. Pois é, existirem, elas existem, mas raramente se efetivam quando desassociadas de uma preparação séria, realizada em longo prazo – predicados estes que, ao que me parece, são desconhecidos entre a maioria dos dirigentes esportivos brasileiros, aqueles mesmos que incharam o número da delegação brasileira em Pequim com poucos ou nenhum atributo para colaborarem com o desempenho dos atletas.

Quanto ao time olímpico de Dunga, com um jogo precário, a equipe foi dominada durante a maior parte do revés contra a Argentina. Embora alguns queiram pensar o contrário, não há, no esporte de alto rendimento, chance para o improviso: ou você se prepara seriamente, com afinco, para alcançar os melhores resultados, ou é se contentar com as sobras e com um desempenho mediano – ou, parafraseando nosso presidente (que inclusive acompanhou a partida semifinal olímpica no estádio, não escondendo sua frustração com o placar), um desempenho razoável. No caso do pretensioso time de Dunga, o razoável foi o bronze.

A partida contra a Argentina mostrou uma equipe frágil, sem conseguir valorizar sua posse de bola, cujo esquema ofensivo foi pouco eficiente, e ainda por cima excessivamente faltoso. Desnecessário jogo-sujo, que em se tratando de Jogos Olímpicos, soou como a exata antítese do alardeado fair-play. Festa para a Argentina, que depois comemoraria o bicampeonato, e subiria ao pódio para cumprir o ritual olímpico – não sem antes presenciar um descompromissado Ronaldinho Gaúcho, que, depois de ter sido flagrado de olhos vermelhos após a derrota na semifinal, mostrou ter superado bem (e
rápido) o trauma da eliminação à final e permitiu-se um papinho no celular em plena cerimônia de entrega das medalhas. Afinal, aquela era a hora daquela gente bronzeada mostrar o seu valor.

A redenção dourada não veio. Dunga permanecerá sob intensa pressão para seguir no cargo de técnico da seleção. E é bom o time mostrar ao que veio nas eliminatórias, pois, do contrário, a pressão (que já é grande) aumentará. Se tomarmos como exemplo o nada empolgante futebol apresentado ao longo do torneio olímpico, sobretudo o da semifinal contra a Argentina, fica difícil esperar muito dessa comissão técnica. Com esse futebol pouco empolgante, já experimentado nas eliminatórias e retificado em Pequim, não precisou muito para o povo brasileiro, que adora rir de si mesmo (inclusive em momentos trágicos) popularizar o chiste: Dunga não é técnico de futebol nem aqui, nem na China.

1 - Refiro-me, aqui, ao recente conflito no Cáucaso entre Rússia e Geórgia, pelo controle da região autônoma da Ossétia do Sul ("Confronto no Cáucaso faz 40 mil refugiados". FOLHA DE S. PAULO, São Paulo, 11/08/2008, Caderno "Mundo", p. A12).

2 - Tenho como referência para este conceito o livro "Elogio da Beleza Atlética", de Hans Ulrich-Gumbrecht (GRUMBRECHT, 2007).

* *Paulo Nascimento é membro do GIEF*

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Os Arquivos dos Campeonatos Brasileiros

Os Arquivos dos Campeonatos Brasileiros
José Renato Sátiro Santiago Jr.
1a. edição, 2006

"Os Arquivos dos Campeonatos Brasileiros" é o mais completo livro já publicado sobre o mais importante campeonato de futebol do país. A publicação conta toda a história do campeonato, elenca os grandes esquadrões e os maiores craques, reúne as curiosidades e os fatos inusitados de cada edição do torneio. Com 400 páginas, apresenta ainda todas as médias das três divisões, estatísticas e quadros de maneira totalmente inédita. Nenhuma pergunta fica sem resposta: quem mais venceu, todos os clubes que já jogaram, quantos gols foram marcados, os maiores artilheiros... O livro traz ainda toda a "pré-história" do Campeonato Brasileiro, incluindos os campeonatos disputados antes de 1971 como o Torneio Roberto Gomes Pedrosa e a Taça Brasil. Escrito pelo pesquisador José Renato Sátiro Santiago Jr., é um guia histórico indispensável para os torcedores dos maiores clubes do país.

Título: Os Arquivos dos Campeonatos Brasileiros
Autor: José Renato Sátiro Santiago Jr.
Edição: 1a. edição, 2006
Idioma: Português
Número de páginas: 400 páginas
Formato: 17 cm x 24 cm (largura x altura)
Especificação: Offset 75g, 1 cor, Brochura
Peso: 660 gramas
ISBN: 85-8753-793-8
Área: Outras Editoras
Série: Panda Books

domingo, 14 de setembro de 2008

Os lobbies desportivos de Brasília

Os lobbies desportivos de Brasília

Borny Cristiano So


Em 1993, a Lei se chamou Zico. Posteriormente, Lei Pelé em 1998, que tambémteve inúmeras alterações. E recentemente nos parece que estão discutindo um tal "Estatuto do Desporto" em Brasília.


É fato que tais leis que regem o Desporto Brasileiro, não são unânimes, o que é fruto da má técnica legislativa de nossos Parlamentos, mas também é decorrente dos profundos lobbies que transitam pela arquitetura criada por Oscar Niemeyer.


No caso específico da Lei Pelé, se, no começo, quando do início da sua vigência, a Lei nº 9.615/1998 viria inovar; a Lei nº 9.981/2000 que viria alterar dispositivos da lei anterior acabou se tornando um retrocesso e nasceu dos lobbies que dominaram os corredores do poder.


Tais ordenamentos regem a matéria do atleta profissional em geral. A partir do artigo 28 da Lei Pelé, é que o legislador passa a tratar especificamente da parte trabalhista. Naquela época, eram aplicados os preceitos dalegislação trabalhista e da seguridade social a todos os atletas profissionais e de quaisquer modalidades.Posteriormente, a Lei nº 9.981/2000 tornou a aplicação de inúmeros artigos da Lei Pelé facultativa. Nestes dispositivos legais que se tornaram facultativos, incluíram-se todas as previsões trabalhistas que protegiam os atletas dos outros esportes que não fossem do futebol. Trata-se de flagrante inconstitucionalidade da Lei Maguito Vilela. Os atletas profissionais da modalidade de futebol não podem ser privilegiados em detrimento das demais categorias, tais como o vôlei, o basquete, o handebol, o futebol de salão, apenas para citar os esportes coletivos.O princípio da isonomia e o da igualdade constitucional, previstos no artigo 5º. da Carta Magna, são atingidos com esta diferenciação, razão pela qual os atletas da demais modalidades devem ser amparados pela legislaçãotrabalhista e da seguridade social.


O equívoco é nítido, pois os atletas de outros esportes, em especial, os coletivos (vôlei, handebol, basquete, futebol de salão, etc) também são atletas profissionais, são trabalhadores como quaisquer outros e não podem ficar desamparados e à margem da lei. Existe vínculo empregatício entre tais atletas e seus respectivos empregadores, ou seja, os clubes desportivos. Todos os requisitos necessários previstos no artigo 3º da CLT se mostram presentes quando se analisa o caso concreto. Existe subordinação, habitualidade, pessoalidade eexclusividade, portanto, existe vínculo empregatício e os direitos dos atletas desportivos precisam ser protegidos. Já se foi o tempo em que um Nalbert, uma Fernanda Venturini, uma Janeth ou um Falcão viviam apenas de patrocínios. Hoje, são inúmeros os atletas que vivem do esporte, porém seu contrato de trabalho se transformou em um mero contrato de imagem.


Explico-me. O que se antes era obrigatório, ou seja, a existência de um contrato de trabalho com registro em CTPS era tida como obrigação legal para os clubes desportivos; agora se tornou facultativo, utilizando-se os clubes dos contratos de imagem para remunerar o atleta, que sai perdendo, pois deixa seus direitos como trabalhador de lado.


Esta discrepância entre uma modalidade e outra precisa ser resolvida. Inúmeras demandas trabalhistas pelo Brasil já questionam a camuflagem criada pela Lei nº 9.981/2000, mas é chegada a duodécima hora de um verdadeiro marco legal no Desporto Brasileiro. Somente quando tais discrepâncias forem corrigidas é que poderemos pensar no Brasil como uma potência olímpica e numa Administração Moderna nos clubes e entidades desportivas.

sábado, 13 de setembro de 2008

O atleta de futebol como produto

O atleta de futebol como produto
É indiscutível o fato do jogador brasileiro ser o talento mais valorizado no mercado do futebol mundial. Entretanto, alguns chamados “empresários” estão abusando desta vantagem competitiva, levando os jogadores brasileiros até para a Lua em troca de alguma comissão gorda para si e uma grande enrascada para o atleta.
A questão das transferências dos atletas para o exterior passa por agentes da Fifa, por empresários-piratas, por advogados, por diretores de clubes e por ex-atletas que trabalham para todos os anteriores ao mesmo tempo.
São reconhecidos pela Fifa como autorizados a intermediar negócios entre clubes e atletas aqueles que se credenciarem junto a sua confederação de futebol, no nosso caso a CBF, procuradores que tenham parentesco com atleta e advogados regularmente constituídos.
Quaisquer pessoas que não estas mencionadas podem ser caracterizadas como empresários- piratas do futebol.
Estabelecidas estas premissas, testemunhamos o caso dos jovens brasileiros que sonharam com a vida do Ronaldinho na Europa, mas simplesmente vestiram uma triste alegoria de arlequins num frio aeroporto de Frankfurt.
Vendo os pais desesperados com os meninos perdidos na Europa, nos lembrávamos do sonho de outros trabalhadores em vencerem na América. Entretanto, existiam as diferenças.
Enquanto a Sol tinha de atravessar fronteiras no deserto, chegando na América, trabalharia como ilegal. Nossos destemidos jogadores também foram convencidos a pagar as passagens aéreas para o paraíso, mas sem documentação necessária não poderiam exercer sua profissão.
Foi o que aconteceu, restando o incômodo de ser um pouco Tom Hanks, perdido num aeroporto, sem dinheiro e sem falar a língua daquele povo.
Moldávia, Romênia, Alemanha, seja qual fosse o destino, os jovens jogadores atravessaram o oceano com a promessa de um grande contrato num clube europeu, mas a realidade para o final da história seria a de um simples teste.
O resumo de tudo isso é que alguns meninos ficaram para jogar na terceira divisão de um futebol de segunda categoria na Europa; mas um deles retornou para contar as verdades dos fatos. Ocorre que o problema é muito maior do que esta triste aventura. O sonho de verão tinha terminado, mas a vontade de vencer ainda não.
Muitos outros jovens acreditarão no conto da Cinderela e se sujeitarão ao chamado “risco do negócio” de ser estrela esportiva ou um simples funcionário de uma grande empresa. O fato é que o futebol se transformou num novo mercado de escravos, no qual o jogador talentoso (brasileiro, africano) é o seu maior produto.
Não existem os navios negreiros, mas subsistem os mercadores do futebol que pegam a matériaprima nos países mais pobres e as vendem nos grandes centros econômicos desportivos.
Por isso, ao atleta e seu representante legal cabe (e resta) checar todas as informações pertinentes à proposta recebida. Descobrir a história do intermediário, do agente, do exatleta.
O mundo do futebol é anão e receber fax de clube, dizendo que fulano é representante exclusivo no país, não é atestado de boa conduta.
É preciso separar o joio do trigo, e, embora tenhamos bons e éticos profissionais na área, infelizmente predominam aqueles desleais, que vendem o jogador para atuar no Clube de Futebol Lunáticos, ganham gorda comissão da Nasa, mas quando o atleta chega ao destino final percebe que nem campos existem nas crateras lunares.
Enquanto muitos afirmar que a Lei Pelé foi uma carta de alforria dos atletas junto aos clubes, posso afirmar que ela apenas transferiu a “escravidão” para os chamados representantes, empresários em geral.
E, pelo que me consta, o projeto de lei que deverá instituir ainda este ano o Estatuto do Desporto regulamentará o que já acontece na prática, ou seja, dará poderes legais aos mercadores de atletas.
É preciso repensar muitos pilares do futebol brasileiro. A modernização do nosso futebol passa pela questão do atleta, sem o qual não existiria o futebol mais admirado do mundo.
E passa pela conscientização de que nem tudo que se fala pelos corredores é o que acontecerá dentro das salas. Que nos próximos verões, as fantasias sejam de Carnaval e que os sonhos da vitória não se tornem frios pesadelos.
Que esta molecada vença realmente, deixando os maus empresários cada vez mais sozinhos e desamparados com a queda de suas máscaras. Este é meu desejo e luta diária.
Advogado especializado em direito do trabalho e direito desportivo
Fonte: http://www.otempo.com.br/impressao/?idMateria=41529

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Alegorias de Aeroporto x Atleta como produto

Alegorias de Aeroporto x Atleta como produto

É indiscutível o fato do jogador brasileiro ser o talento mais valorizado no mercado do Futebol mundial. Entretanto, alguns chamados “empresários” estão abusando desta vantagem competitiva, levando os jogadores brasileiros até para a Lua em troca de alguma comissão gorda para si e uma grande enrascada para o atleta.

A questão das transferências dos atletas para o exterior passa pelos Agentes FIFA, pelos empresários-piratas, por advogados, por diretores dos clubes e por ex-atletas que trabalham para todos os anteriores ao mesmo tempo.

São reconhecidos pela FIFA como autorizados a intermediar negócios entre clubes e atletas, aqueles que se credenciarem junto a sua Confederação de Futebol (no nosso caso CBF), procuradores que tenham parentesco com atleta e advogados regularmente constituídos. Quaisquer pessoas que não estas mencionadas podem ser caracterizadas como empresários-piratas do futebol.

(...)

Leia mais em: http://noticias.cardiol.br/listanotsql.asp?P1=279741

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Justiça que tarda e falha

Justiça que tarda e falha
http://blogdojuca.blog.uol.com.br/arch2008-09-07_2008-09-13.html


A justiça esportiva manteve a condenação ao Palmeiras pelo episódio do gás.

Perda de um mando de jogo no Paulistinha e multa de R$ 10 mil.

Penas mais morais do que outra coisa porque se, de fato, se provasse a responsabilidade da direção alviverde, deveria ser muito mais pesada.

O que é estarrecedor é constatar que até hoje a polícia de São Paulo não concluiu seu inquérito a respeito do episódio, acontecido no dia 20 de abril, há quase cinco meses.

Talvez porque sobrem delegados de polícia na Federação Paulista de Futebol e em clubes de futebol.

Pior só o Tribunal de Contas da União, que até hoje não concluiu seu relatório sobre os gastos do Pan-2007, que terminou faz mais de um ano.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

50 anos da Primeira Conquista IV

Em elenco de estrelas, coadjuvantes de 58 foram espectadores privilegiados
RODRIGO BUENO
SÉRGIO RANGEL
da Folha de S.Paulo
http://www1.folha.uol.com.br/folha/esporte/ult92u416380.shtml

Time cheio de protagonistas, com craques em todas as posições. Era inevitável que a seleção de 58 tivesse coadjuvantes de luxo, em campo e fora dele.

"Eram 22 grandes jogadores. Os que entravam não iam sair nunca", diz Dino Sani, cerebral meio-campista que se contundiu na Copa e foi para a reserva.

"O Pelé entrou no lugar do Dida, o Garrincha entrou no lugar do Joel, eu me machuquei [atuou contra Áustria e Inglaterra], o De Sordi se contundiu no penúltimo jogo. Mas o Feola escolheu bem os jogadores", afirma Dino, ídolo de clubes como Boca Juniors e Milan, que vive hoje sozinho em São Paulo.

E Pepe, o "Canhão da Vila", o "maior artilheiro do Santos", pois Pelé não conta para ele?

"Disputava posição com Zagallo e Canhoteiro. Contra a Bulgária, entrei no lugar do Canhoteiro, jogador sensacional, e fui bem, fiz gol. Cheguei à Itália como titular. Mas veio o fatídico jogo com a Inter. Um loirinho, Bicicli, me pegou no pé de apoio. Desleal. Só me recuperei no quinto jogo da Copa, aí não tinha como tirar o Zagallo", fala Pepe em papo na Vila.

A famosa sorte de Zagallo quase o abandonou também pouco antes da Copa. Ele chegou a pedir o seu corte na véspera do embarque à Europa.

O drama de Zagallo começou no Maracanã no último coletivo da seleção no país. Ele e Pelé treinavam no gol. Os dois eram opções de Feola para substituir o goleiro Gilmar em caso de contusão (Castilho era o reserva genuíno da posição).

No fim do treino, Bellini chutou da entrada da área, e Zagallo pulou para defender. Sem experiência na posição, a bola bateu só no dedo indicador e abriu longa ferida na mão esquerda. Zagallo caiu aos berros.

"Foi um susto imenso. Quando vi o estado em que a minha mão ficou, o desespero aumentou. Dava para ver alguns ossos. No hospital, pedia ao médico para me tirar da viagem. Ele gritou, pediu para eu parar de falar bobagem e começou a costurar a minha mão'', lembra Zagallo, no salão de jogos do condomínio em que mora no Rio.

Assim como Dino e Pepe, Zagallo tem hoje vida tranqüila, não como a que teve até os anos 90, quando serviu a "amarelinha"' com fervor sem igual --é o único tetra de verdade do país.

"Por pouco não perdi a Copa de 58. Seria uma grande frustração", disse Zagallo, que recebeu 13 pontos e viajou com o braço na tipóia --a superstição, em especial com o 13, começou a marcá-lo já em 1958.

Até Zagallo, que cumpriu importante função tática, admite ter sido um coadjuvante em 58. "Teve hora que parei e fiquei vendo a partida, me tornei um torcedor privilegiado em campo", diz, sobre Pelé e Garrincha.

E o que dizer de Moacir, meia que mora no Equador? Grande nome do Flamengo, foi íntimo de Pelé: fora do campo, eram companheiros de quarto.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

50 anos da Primeira Conquista III

Dirigente da Conmebol numerou escrete e evitou eliminação do Brasil

ALEC DUARTE
da Folha de S.Paulo, enviado a Montevidéu
http://www1.folha.uol.com.br/folha/esporte/ult92u416124.shtml

Nem mesmo os uruguaios sabem dizer com detalhes quem foi Lorenzo J. Vilizio. Há registros dispersos, nenhum parente direto localizado, pouca informação disponível. Contador de ofício e dirigente esportivo por vocação, esse homem evitou que a seleção brasileira --que conquistou sua primeira Copa do Mundo há exatos 50 anos-- fosse desclassificada antes mesmo de o torneio começar.

Representante da Conmebol (Confederação Sul-Americana de Futebol) no comitê organizador da Fifa na Suécia, Vilizio foi o responsável pelo maior enigma do torneio: a numeração das camisas dos brasileiros.

Por que o goleiro Gilmar usava a camisa 3? Por qual motivo Garrincha, ponta-direita, vestia a 11, que deveria ser do colega Zagallo, ponta-esquerda que envergava a 7? Os jogadores não têm a menor idéia. Durante décadas, cartolas da CBD cultivaram a versão de que a Fifa impusera a esdrúxula decisão.

A verdade é que a CBD pensou em tudo (montou uma comissão técnica com profissionais pioneiros em suas especialidades), menos nos números da equipe.

Em parte, foi uma estratégia de Paulo Machado de Carvalho, chefe da delegação e supersticioso de primeira hora. Ele queria dissociar nomes de números, com medo da "tremedeira" --o Brasil vinha do trágico Maracanazo de 1950 e de uma doída derrota para a Hungria, quatro anos depois, na Suíça.

O técnico Vicente Feola chegou a dizer, semanas antes do início do Mundial, que pretendia usar outro critério para definir a numeração dos atletas do elenco, "talvez por ordem alfabética".

O fato é que simplesmente não houve critério: a ficha de inscrição da seleção chegou incompleta à Fifa, que no dia 1º de junho de 1958, em Estocolmo, iniciou os trabalhos do 31º Congresso, com 188 delegados de 69 países.

A primeira tarefa de Vilizio como membro da comissão de conflitos (uma corte suprema na Fifa naquela Copa do Mundo) foi deliberar sobre a eliminação do Brasil que, afinal, não havia preenchido corretamente o formulário de inscrição.

Em vez de debater o assunto (havia forte pressão européia, em especial do lendário Stanley Rous, membro da comissão e que se tornaria presidente da Fifa entre 1961 e 1974), o uruguaio resolveu o problema à sua maneira: pegou uma caneta e colocou, aleatoriamente, números na frente dos nomes dos jogadores brasileiros relacionados, que ele pouco conhecia. Acertaria só dois, o do ponta-esquerda reserva, Pepe (22), e do defensor Dino Sani (5).

Esse herói nacional incógnito e misterioso que teve participação indireta, mas fundamental, na conquista da Copa da Suécia é um desconhecido também em seu país.

Em Montevidéu, a Folha pesquisou centenas de documentos e jornais, além de entrevistar pessoas que, de alguma forma, conviveram com Vilizio, que morreu nos anos 80.

O quebra-cabeça começou a ser decifrado com uma nota do jornal "El País" de 3 de junho de 1958, no qual os afazeres de Vilizio na Suécia são descritos em detalhe. Até então, nem mesmo a AUF (Associação Uruguaia de Futebol) tinha sido capaz de confirmar a presença do cartola no Mundial.

Eduardo Rocca Couture, ex-vice-presidente da Fifa e destacado dirigente do país vizinho, acrescentou mais um fato: que durante anos Vilizio deu expediente, como contador, na diretoria do Nacional, time mais antigo do Uruguai (foi fundado em 14 de maio de 1899).

De fato, o nome de Vilizio, que também foi professor da Faculdade de Ciências Econômicas, aparece em papéis oficiais do clube entre 1940 e 1944, como contador, e entre 1945 e 1947, como conselheiro.

Depois disso, nada. Foi o período em que o uruguaio se lançou em carreira na Conmebol, onde chegou a vice-presidente na gestão do argentino Raúl Colombo (1961-1966).

Nas décadas seguintes, manteve-se fiel a seu estilo "low profile" --ele jamais se vangloriou da participação na conquista brasileira, nem mesmo de ter "inventado" a 10 de Pelé.

Até o fim da vida, Vilizio foi aos jogos do Nacional no estádio Centenário, palco da primeira Copa do Mundo, em 30.

Herói secreto do escrete brasileiro, guardou consigo, até a morte, a história do gesto solidário que mudaria a própria história do futebol mundial.