sábado, 13 de setembro de 2008

O atleta de futebol como produto

O atleta de futebol como produto
É indiscutível o fato do jogador brasileiro ser o talento mais valorizado no mercado do futebol mundial. Entretanto, alguns chamados “empresários” estão abusando desta vantagem competitiva, levando os jogadores brasileiros até para a Lua em troca de alguma comissão gorda para si e uma grande enrascada para o atleta.
A questão das transferências dos atletas para o exterior passa por agentes da Fifa, por empresários-piratas, por advogados, por diretores de clubes e por ex-atletas que trabalham para todos os anteriores ao mesmo tempo.
São reconhecidos pela Fifa como autorizados a intermediar negócios entre clubes e atletas aqueles que se credenciarem junto a sua confederação de futebol, no nosso caso a CBF, procuradores que tenham parentesco com atleta e advogados regularmente constituídos.
Quaisquer pessoas que não estas mencionadas podem ser caracterizadas como empresários- piratas do futebol.
Estabelecidas estas premissas, testemunhamos o caso dos jovens brasileiros que sonharam com a vida do Ronaldinho na Europa, mas simplesmente vestiram uma triste alegoria de arlequins num frio aeroporto de Frankfurt.
Vendo os pais desesperados com os meninos perdidos na Europa, nos lembrávamos do sonho de outros trabalhadores em vencerem na América. Entretanto, existiam as diferenças.
Enquanto a Sol tinha de atravessar fronteiras no deserto, chegando na América, trabalharia como ilegal. Nossos destemidos jogadores também foram convencidos a pagar as passagens aéreas para o paraíso, mas sem documentação necessária não poderiam exercer sua profissão.
Foi o que aconteceu, restando o incômodo de ser um pouco Tom Hanks, perdido num aeroporto, sem dinheiro e sem falar a língua daquele povo.
Moldávia, Romênia, Alemanha, seja qual fosse o destino, os jovens jogadores atravessaram o oceano com a promessa de um grande contrato num clube europeu, mas a realidade para o final da história seria a de um simples teste.
O resumo de tudo isso é que alguns meninos ficaram para jogar na terceira divisão de um futebol de segunda categoria na Europa; mas um deles retornou para contar as verdades dos fatos. Ocorre que o problema é muito maior do que esta triste aventura. O sonho de verão tinha terminado, mas a vontade de vencer ainda não.
Muitos outros jovens acreditarão no conto da Cinderela e se sujeitarão ao chamado “risco do negócio” de ser estrela esportiva ou um simples funcionário de uma grande empresa. O fato é que o futebol se transformou num novo mercado de escravos, no qual o jogador talentoso (brasileiro, africano) é o seu maior produto.
Não existem os navios negreiros, mas subsistem os mercadores do futebol que pegam a matériaprima nos países mais pobres e as vendem nos grandes centros econômicos desportivos.
Por isso, ao atleta e seu representante legal cabe (e resta) checar todas as informações pertinentes à proposta recebida. Descobrir a história do intermediário, do agente, do exatleta.
O mundo do futebol é anão e receber fax de clube, dizendo que fulano é representante exclusivo no país, não é atestado de boa conduta.
É preciso separar o joio do trigo, e, embora tenhamos bons e éticos profissionais na área, infelizmente predominam aqueles desleais, que vendem o jogador para atuar no Clube de Futebol Lunáticos, ganham gorda comissão da Nasa, mas quando o atleta chega ao destino final percebe que nem campos existem nas crateras lunares.
Enquanto muitos afirmar que a Lei Pelé foi uma carta de alforria dos atletas junto aos clubes, posso afirmar que ela apenas transferiu a “escravidão” para os chamados representantes, empresários em geral.
E, pelo que me consta, o projeto de lei que deverá instituir ainda este ano o Estatuto do Desporto regulamentará o que já acontece na prática, ou seja, dará poderes legais aos mercadores de atletas.
É preciso repensar muitos pilares do futebol brasileiro. A modernização do nosso futebol passa pela questão do atleta, sem o qual não existiria o futebol mais admirado do mundo.
E passa pela conscientização de que nem tudo que se fala pelos corredores é o que acontecerá dentro das salas. Que nos próximos verões, as fantasias sejam de Carnaval e que os sonhos da vitória não se tornem frios pesadelos.
Que esta molecada vença realmente, deixando os maus empresários cada vez mais sozinhos e desamparados com a queda de suas máscaras. Este é meu desejo e luta diária.
Advogado especializado em direito do trabalho e direito desportivo
Fonte: http://www.otempo.com.br/impressao/?idMateria=41529

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