quarta-feira, 24 de setembro de 2008

A invasão corinthiana de 1976

A invasão corinthiana de 1976 - O dia em que 70 mil alvinegros assistiram no Rio ao fim de um recesso de 22 anos

Plínio Labriola Negreiros
http://www.revistadehistoria.com.br/v2/home/?go=detalhe&id=1628

É regra entre torcedores de futebol a memória de uma grande partida, com a lembrança das grandes epopéias. Tem valor especial quando o limite se impõe: no último minuto, no último segundo, a um passo da linha de fundo. A alegria do torcedor depende, normalmente, do que sua equipe foi capaz de fazer. Uma derrota humilhante é capaz de levá-lo à depressão enquanto a euforia pode ser o efeito imediato de uma vitória retumbante. O sucesso da equipe ou o fracasso dos adversários tornaram-se as únicas referências para júbilo.

Ao mesmo tempo, os torcedores contemporâneos mostram-se percorrendo caminhos inéditos: sentem-se personagens tão importantes quanto os jogadores e outros setores ligados ao futebol. É como se fosse possível a existência autônoma das torcidas, como se a torcida também tivesse uma história mais fascinante que a do próprio clube. De certa maneira, a torcida do Sport Club Corinthians Paulista permite isso.

É possível olhar para um importante evento da história do futebol brasileiro – senão mundial – que tem forte ligação com o contexto histórico: uma multidão de torcedores, principalmente de São Paulo, faz do Rio de Janeiro uma cidade “ocupada”. É a chamada “Invasão Corinthiana”, composta de torcedores que não comemoravam um título importante por 22 anos, injetados numa cidade desumanizada e governada pelo regime autoritário da ditadura militar. No meio disso tudo, São Paulo, senão o Brasil, torce pelo seu próprio sucesso através da cores alvinegras do Corinthians.

22 anos sem títulos
Para explicar o fenômeno corinthiano de dezembro de 1976 é preciso conhecer um pouco sobre a história do time e da sua torcida, em especial, na década anterior à Invasão. O ano de 1968 é fundamental, quando, no mês de março, aconteceu a grande festa pela “quebra do tabu” contra o Santos.

Desde 1957, o Corinthians não vencia a equipe de Pelé pelo Campeonato Paulista. Sem um título importante desde 1954, era essencial vencer o Santos e, no dia 6 de março, o alvinegro o venceu por dois gols a zero. Em 1969, aconteceu uma tragédia, quando dois jogadores titulares morreram em um acidente de automóvel. O time, que ia bem no Campeonato Paulista até o evento, perdeu fôlego e mais uma vez acabou sem o título.

No ano seguinte, veio a Copa do Mundo de 70, considerada um momento especial para o futebol do Brasil, pois a taça Jules Rimet era conquistada de maneira definitiva. Além do que, na equipe nacional, havia dois representantes: o titular Roberto Rivellino e o reserva Ado, goleiro. Em 1971, o clube do Parque São Jorge conquistou um título menor, o Torneio do Povo, que reunia as equipes mais populares do país, apesar dos fracassos que continuavam nas disputas mais importantes. No ano seguinte, aconteceram poucas grandes emoções e que não resultaram em título.

Em 1974, o título de campeão paulista quase veio, mas, depois de vencer o primeiro turno, o Corinthians perde a decisão final para o Palmeiras por 1 a 0. O maior jogador do clube, Roberto Rivellino, foi responsabilizado pela derrota e praticamente expulso do clube que havia defendido por 10 anos. O ano seguinte, de 1975, não foi muito diferente, trazendo apenas fracassos. No primeiro semestre de 1976, tudo parecia continuar igual. Mais uma vez o time fracassava no Campeonato Paulista, depois de um começo fulminante e mesmo sem grandes adversários pela frente, ficou em péssima colocação. Vinte e dois anos se completavam sem que o time ganhasse um título importante. Além do fracasso, a torcida estava cada vez mais impaciente, vaiava a equipe e pedia a saída do presidente Vicente Matheus. (GONDIM, p. 105.) No segundo semestre, o do Campeonato Brasileiro, um novo técnico, Duque, foi contratado, mas nada indicava que um grande fenômeno esportivo estaria por vir.

Campeonato Nacional de 1976
Na realidade, a participação corinthiana no Brasileiro de 1976 apontava para a reprodução de outros momentos. Eram inícios bons com resultados finais sempre aquém do esperado em um campeonato marcado pela confusão no regulamento.

Passadas as duas primeiras fases, a terceira teve um início marcado por três resultados frágeis e, apesar do apoio maciço dos seus torcedores, um forte limite apresentava-se para o Corinthians. Ele teria que vencer as cinco partidas restantes se desejasse chegar às finais. Se possível, eram necessárias vitórias por mais de um gol de diferença para a conquista de três pontos, conforme regra do campeonato. Com histórias diferentes, mas sempre marcadas por uma forte emoção e uma grande participação dos corinthianos, as cinco vitórias foram conquistadas: Botafogo de Ribeirão Preto, 2 a 1; Caxias, 4 a 1; Ponte Preta, 2 a 0; Internacional, 2 a 1 e Santa Cruz, 2 a 1.
Nestas partidas, a torcida aparecia como personagem fundamental. Além da boa campanha e a conseqüente classificação, a imprensa não cansava de repercutir a força, o tamanho e a paixão dos torcedores, colocando-os como capazes de grandes façanhas, quebrando recordes de renda e de público. Logo se reforçaria o apelido da torcida do Corinthians, conhecida como “Fiel”. Dois importantes periódicos de São Paulo dedicaram esforços dobrados para acompanhar os torcedores corinthianos na viagem para o Recife. O Jornal da Tarde, no seu caderno especial dedicado aos esportes publicado sempre às segundas-feiras, apresentou uma grande reportagem, “2.830 KM CORINTIANOS – Foram 49 horas de uma viagem emocionante, a mais longa excursão de uma torcida de futebol” no dia 29 de novembro. A Folha de São Paulo, que acompanhou a caravana da Gaviões da Fiel, também faz uma longa matéria no mesmo dia, cujo título era “Corinthians! Em 90 minutos”.

A viagem dos torcedores corinthianos para acompanhar a classificação da equipe para as finais do Campeonato Nacional de 1976, narrada pela imprensa como uma verdadeira epopéia, teria como desdobramento natural a “Invasão Corinthiana” ao Rio de Janeiro. Pode ser que os diversos personagens envolvidos nesse processo não tivessem uma idéia exata da forte presença da torcida paulistana em apoio ao time alvinegro. Depois de algumas décadas, São Paulo voltava a se unir.

A Invasão Corinthiana
No dia 5 de dezembro de 1976, os corinthianos vivenciaram o que ficou na memória menos por causa de uma vitória e mais pela forte presença de torcedores do clube paulista em terras cariocas. A chamada “Invasão do Maracanã” ou “Invasão Corinthiana” se coloca no complicado limiar entre memória e história.

Tratou-se de um imenso deslocamento de torcedores entre São Paulo e Rio de Janeiro. Setenta mil corinthianos assistiram, no estádio do Maracanã, a partida entre o Fluminense Futebol Clube e o Sport Club Corinthians Paulista, válida pelas semifinais do Campeonato Brasileiro de 1976 e à que atendeu um público de 146 mil pessoas. Nem na história do futebol brasileiro nem na do mundial, não se conhece outro evento esportivo com tamanho deslocamento humano.

Os paulistas estão chegando
O fascínio demonstrado pela imprensa paulista associava-se à perplexidade dos cariocas. O que seria a invasão? O que era a torcida do Corinthians? E paulista sabe fazer festa? Eram as preocupações dos veículos de comunicação cariocas em compreender o que estava acontecendo.
Apesar da Ponte Aérea, paulistanos e cariocas tinham, aparentemente, universos distantes. Ainda havia a forte idéia da descontração carioca por causa das praias e da cidade como um todo e São Paulo como um espaço essencialmente relacionado ao trabalho. Paulista trabalha, carioca desfruta dos prazeres da vida.

Quando as notícias sobre as movimentações da torcida do Corinthians começam a chegar ao Rio, as primeiras impressões foram delineadas. Tratava-se de uma dupla descoberta em que paulistas conheciam cariocas e vice-versa. A consciência de uma grande presença corinthiana no Rio apareceu rapidamente nas páginas dos jornais cariocas.

No entanto, o clima de euforia assumido pela imprensa foi quebrado por um artigo publicado pelo Jornal do Brasil, no qual o jornalista José Nêumanne Pinto apresenta e analisa o “fenômeno Corinthians”. A tese do jornalista é a de que a torcida do Corinthians estava ressentida por causa dos 22 anos sem títulos – fato que a tornou motivo de piada para os outros torcedores de São Paulo e, além disso, por conta de uma conjuntura favorável, a imprensa de São Paulo estava adotando o Corinthians como mais uma mercadoria e sucedendo nesse investimento. Rádio, jornal, revista e televisão entraram na onda corinthiana.

Se a presença da massa de torcedores corinthianos assustava parte dos cariocas, também as notícias que continuavam a chegar de São Paulo surpreendiam. Matérias com títulos sugestivos, como “Corinthiano só trabalha na terça-feira”, eram veiculadas o tempo todo na mídia.
Depois de uma semana de muita expectativa, veio o jogo. Parte das previsões se cumpriram. Provavelmente, se não fosse pela maciça presença da torcida corinthiana pelas terras cariocas, o evento não chamaria tanta atenção. Apesar de ser um jogo decisivo, a ocasião ficou, em grande parte, comprometida pela forte chuva. A decisão por pênaltis trouxe mais emoção à disputa, mas, de fato, não foi uma grande partida de futebol. Valeu, dessa maneira, mais pela presença dos torcedores.

Como não poderia deixar de ser, os jornais de segunda-feira foram invadidos: cada parte do jornal, fosse esporte ou não, falava do jogo e dos corinthianos. O Rio sentiu a invasão. Assim como já estava ocorrendo com os periódicos de São Paulo, o Corinthians e a sua torcida saíram das páginas esportivas e migraram para todas as outras seções.

Além disso, a participação da torcida e a concretização da “Invasão” só trouxeram dividendos para os que estavam no poder. A presença oportunista de dirigentes políticos da ditadura militar tentando tirar proveitos da euforia corinthiana não pode, porém, ser apresentada de forma absoluta. Os torcedores partiram para a ‘subversão da ordem’ – forma como gostavam de qualificar os generais de plantão – como, por exemplo, com o gasto de milhões de litros de combustíveis, enquanto o governo apresentava planos de racionamento.

No entanto, era mais do que isso: era também a subversão do prazer. A rigor, não havia nada de produtivo na invasão corinthiana. Muito pelo contrário, uma vez que muitos deixariam de trabalhar para acompanhar o Corinthians na capital fluminense. Um grande número de empresas de regiões industriais de São Paulo e do ABC paulista disponibilizaram transporte para os seus funcionários, em uma atitude de patronato que pode ser lida como mais um mecanismo de controle sobre os trabalhadores.

Em uma tentativa de contextualizar historicamente o acontecimento, é possível perguntar se não houve, a partir daquele momento de sociabilidade entre os torcedores a partir do futebol, uma maior possibilidade de organização para as lutas sindicais e trabalhistas. Ou seja, os mesmos trabalhadores que estiveram lado a lado para torcer e lutar por um sucesso corinthiano não poderiam estender esses laços para a luta pela democracia?

Pode-se notar que há também um ato de forte simbolismo presente nas manifestações de rua como o espaço público urbano voltando a ser ocupado. Ainda não era uma ocupação política – que pode ser compreendida como a luta pelo fim da ditadura militar –, mas mesmo que para torcer pelo Corinthians, saindo com seus carros buzinando pelas ruas da cidade, as ruas voltavam a ser ocupadas. Não eram mais as manifestações populares anteriores ao AI-5: era o povo que voltava a tomar de volta o ambiente que sempre fora seu.

É comum na história do Corinthians a convocação de especialistas no campo das humanidades para tentar desvendar pela ciência o que significa essa massa de apaixonados-torcedores. Por isso, vale destacar a conclusão apontada pelo sociólogo Sérgio Miceli, já que ainda era mais fácil tratar o futebol como um eficiente mecanismo de alienação popular. Na memória da intelectualidade ainda estava muito presente o uso político que a ditadura militar tinha feito – e continuava a fazer – do esporte mais popular do país.

“A esta altura, o Corinthians é menos um time do que uma militância, menos uma torcida desinteressante do que uma organização embrionária de anseios populares. Seria mesmo ocioso listar as inúmeras expressões com que os Gaviões se dispõem a “acordar a burguesia”. Sabem muito bem que estão embaixo, do lado do alambrado, nas gerais, têm consciência de que a segmentação da própria torcida corinthiana se inscreve num processo de luta interno e externo ao clube, envolvendo cartolas, técnicos, conselheiros”. (Sérgio Miceli, Os que sabem muito bem que estão embaixo, Jornal do Brasil, Caderno B, 13/12/1976, p. 1.)

Saiba mais:
No You Tube, imagens da invasão corintiana de 1976

Nenhum comentário: