terça-feira, 19 de agosto de 2008

Os traumas do transporte coletivo

"Revivendo a sessão nostálgia, esta crônica foi escrita nos idos de 1997, época de grandes produções."

Ultimamente, pegar ônibus em São Paulo, tornou-se uma tortura. Não me refiro ao caos da hora do rush, nem à sua demora para passar. Creio que nestes últimos tempos, o serviço coletivo da cidade melhorou, mas é preciso melhorar muito mais. Falo de algo muito perigoso, que aconteceu comigo três vezes em apenas um mês: os roubos.

O confortante é que eu não sou o único. Muitos amigos já sofreram a mesma situação. O Tadeu, por exemplo, tinha ido buscar sua noiva no emprego sem o carro:

- Estava no mecânico! - fez questão de esclarecer.

Os dois sentaram perto do cobrador e conversavam tranqüilamente, até serem abordados por dois indivíduos armados, que, além deles, assaltaram todos os usuários da parte traseira do ônibus. O pior foi a pergunta do cobrador:

- Vocês foram assaltados... nossa, meu ‘Padim Ciço’... eu nem percebi... levaram o quê?

O Tadeu chegou a desconfiar do cobrador, até dei razão a ele, afinal, o trabalhador estava ao lado dos dois e, com certeza, visualizara tudo. Ainda tentei acalmá-lo:

- Nessas horas, todo mundo tem medo de se entrometer, de falar algo!!!

Ele nunca se conformou. Meses depois, ainda briga com o delegado, querendo que este ache os ladrões, que lhe levaram as duas alianças douradas, com as quais eles iriam se casar. Pelo menos, conseguiu adiar a cerimônia e enrolar mais um pouco a moça. Faz sete anos, que suas promessas de felicidades eternas são sinceras.

O assalto pode ser explicado. Eram mais de nove da noite e a região, onde a moça ganhava o seu sustento, é distante do centro urbano da cidade e deserta durante o descanso do nosso astro rei.
O ocorrido com o Mello foi pior. Roubaram-lhe o relógio a gravata de seda húngara, além de cartões de crédito, vales-transporte, vale-refeição e abotoadoras de ouro, em plena luz do dia e na Avenida Paulista.

- E bem no dia em que o meu boy tinha faltado. Que Deus me perdoe, mas quase tive um ataque do coração!! - lamentou-se.

O Mello havia cometido um erro primordial. Sentar-se no último banco do ônibus. No enatnto, o que adiantaria ficar colado no cobrador? Nada e, dependendo da opção sexual dele, poderia ser pior.

- A solução é não ultrapassar a roleta. - aconselham-me.

Foi isso que eu fiz, após terem me levado uma correntinha de ouro, um presente da minha querida vovó, na primeira vez, e o meu honorário inteiro, na segunda. Não adiantou. Os ladrões levaram o dinheiro de todos, inclusive o da roleta, menos o meu, pois eu não tinha algum. Antes tivesse. Sobrou uma bala perdida disparada pela pistola automática do meliante, quando um valentão tentou ser o nosso super-homem, que atingiu o meu ombro de raspão.

A partir daquela data, resolvi poupar dinheiro para adquirir um carrinho usado e popular, para deixar de utilizar o transporte coletivo. Agora, sofrerei de outra forma. Não sei se o meu coração agüentará o trânsito caótico da cidade de São Paulo. O mais lamentável é que não escaparei dos constantes assaltos. Há o perigo dos trombadinhas nos semáforos. Já estou anotando os conselhos dos meus amigos.

Entretanto, enquanto não economizar o suficiente, continuarei usando o transporte coletivo do município, sofrendo com os furtos e roubos, com a morosidade e velhice de alguns ônibus e com a freqüência das super lotações na hora do pico.

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