Esta crônica foi escrita em agosto de 2007.
Paixão de menino
Brasil um, Espanha zero. Foi a primeira partida de futebol que assisti sem ficar chorando ou pedindo pelos desenhos animados. Era a Copa do México de 1986 e eu estava com sete aninhos, quase oito. Já tinha ouvido falar dos “Menudos do Morumbi”, da Democracia Corinthiana, da seleção campeã moral, do Pelé, até do Garrincha, mas, torcer pela seleção, acontecia pela primeira vez.
Meu pai estava bebendo com os amigos no bar da esquina, minha mãe picando papéis verde-amarelos para jogarmos pela janela, caso o Brasil vencesse. Eles não eram torcedores fanáticos e, por isso, nunca entendi a minha imensa, e a do meu irmão também, apreciação por este esporte tão amado pelo povo brasileiro. Talvez fosse o lobby (como diria o ultrapassado, porém vencedor, Zagallo) dos meios de comunicação?! Não importa. O importante é que, logo após o término do jogo, deu-me vontade de sair pela rua, pular, gritar, jogar futebol, imitar o calcanhar do Sócrates, quem sabe cobrar uma falta como o Zico, fazer um gol como o Careca... sentir pela primeira vez qual era a emoção de ser um torcedor... só não esperava chorar, depois da derrota para a França nos pênaltis, como muitos na Tragédia do Sarriá.
Nos anos que se passaram, comecei a acompanhar os jogos do meu Corinthians, torcer contra a velha academia, o Palmeiras, comprar os álbuns de figurinha com todos os meus ídolos. Sonhei com o Projeto Tóquio, no entanto tive que me contentar somente com os títulos de campeão paulista e brasileiro. Comemorei os gols do Viola, vibrei com as faltas do Neto e do pé de anjo, Marcelinho e sofri com as milagrosas defesas do Ronaldo.
Enquanto isso, a Seleção só havia me decepcionado até 94. Desesperei-me com o toque do Maradona, com a nossa precoce eliminação na Itália e, principalmente, com o mau futebol apresentado. Surgira o futebol moderno. Vencer sem dar show. Ganhar de meio a zero, jogando na defesa e abusando dos contra-ataques, já seria o suficiente. Por que não atuar como o Santos do Pelé, tomar três gols, mas marcar o dobro? Era preciso resgatar o toque de bola e o drible desconcertante, a habilidade e ginga brasileira, unidos, é claro, à disciplina tática e ao preparo físico.
Apenas na terceira Copa, pude ser campeão mundial com Romário e companhia. Entretanto, onde estava o futebol arte?? O futebol pragmático, interessado no resultado, vencera. Naquele dia, a vontade do menino de anos atrás era sair por aí comemorando e soltando fogos, porém, a do adolescente, era achar uma resposta, era ter algum sábio para perguntar, por que nos pênaltis? Horas antes, eu assistira a final da Copa de 70 pela primeira vez e ficara fascinado. Pelé, Tostão, Rivellino, Gérson, Clodoaldo, Jairzinho, que jogadores!!! Desejei ter nascido uns 30 anos atrás. Ah!!! Desde que pudesse levara a Amada junto...
Três anos depois do tetra, presenciei poucas mudanças no futebol. Alguns técnicos começaram a adotar táticas mais ofensivas, devido à grande safra de atacantes, que despontara nos últimos tempos, porém a qualidade do jogo não deixou de cair. O pior foi, que os problemas não ficaram restritos às quatro linhas. O Brasil é o maior celeiro de craques do mundo e nunca deixará de sê-lo, entretanto, ainda falta um comando sério para levar nossos campeonatos a um dos mais organizados.
Há muito tempo, sofremos com isso. Desorganização, corrupção aliada à interesses próprios e políticos levam o futebol a ser um mercado de benefícios e chantagens pessoais. Escândalos na arbitragem, jogos com seus resultados pré-definidos, time rebaixado, que é convidado a participar da primeira divisão... um mundo criminoso, o esporte transformado em crime organizado.
Deixando as malandragens extra-campo de lado, temos excelentes jogadores para brigar pela taça na Copa da França. O Ronaldinho, um grande atacante, mas não um craque, o Romário, que, em forma, continua sendo o melhor do mundo, além dos novatos Denilson e Dodô e dezenas de outros tão brilhantes. Temos um único problema: o técnico, um tanto prepotente em suas declarações. O velho Lobo anda subestimando seus adversários. Diz que são eles, que devem se preocupar conosco. E nós? Não devemos nos preparar e, assim, evitar surpresas desagradáveis?
Isso é muito perigoso e já nos custou uma medalha de ouro nas Olimpíadas de Atlanta.
Espero não estar sendo pessimista, apenas receoso, mas acho que o penta não virá. Queiram os Deuses do Esporte, que eu esteja errado. Se me perguntarem qual é o meu favorito, eu responderei que é o Brasil, porque, há exato um ano da Copa, não vi nenhuma seleção praticar um futebol superior aos outros e, principalmente, eles não possuem os atletas que nós temos, ou seja, só perdemos para nós mesmos, devido aos nossos próprios erros. É aguardar pela Copa, para podermos ter uma resposta.
Em suma, acompanho futebol há pouco mais de 10 anos. Hoje, mudei minha forma de admirar este esporte tão fascinante. Não torço contra alguém ou algum time como anos atrás. Rezo para que se jogue um belo futebol, independente do resultado, porém não perdi o costume de querer ver o meu grandioso Timão, o Campeão dos campeões, sempre conquistando títulos... vencendo o Palmeiras, é claro!!!
(...)
“Leitores, se estiverem, vocês, lendo tal composição antes da Copa da França, não me censurem pelas opiniões acima (respeite-as, pois sou um jovem em início de carreira e não tenho uma bola de cristal ao lado do retrato da minha Amada), nem pelo meu time de coração.
Caso a leiam após a conquista do penta, não se preocupem. Eu terei escrito uma outra, redimindo-me deste erro crucial.
Bem... ganhando ou perdendo, eu já reservei um lugarzinho na minha agenda (doze de julho de 1998) para escrever, seja para parabenizar os nossos campeões, seja para apontar os erros do ‘fracasso’.
Assim, leitor apaixonado como eu, se 1998 já for passado, procure por esta outra obra, que, talvez, esteja mais próxima do que espera.”
domingo, 10 de agosto de 2008
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